Uma revista

17/11/2014

A Caros Amigos de outubro trouxe uma ótima entrevista com Michael Löwy. Dois trechos:

“Tem gente defendendo aqui e ali o downgrade da economia global. Diminuir o PIB, diminuir o volume de dinheiro, decrescimento da economia. O senhor acredita nisso?

Eu acho que esse pessoal do decrescimento tem muitas qualidades, mas alguns defeitos. A qualidade deles é desmistificar a religião do crescimento. Essa ideia de que o crescimento vai resolver todos os problemas, vai resolver o desemprego, vai acabar com a pobreza. (…) E eles também têm essa qualidade de lutar contra essa ideologia do consumo, essa obsessão nevrótica. Eles são contra isso e eu acho isso muito justo, muito importante. Agora, o problema que eu vejo é que o conceito de decrescimento é um conceito quantitativo. Os governos dizem: nós queremos que o PIB aumente em 10%. Aí vem o pessoal do decrescimento e diz: não, ele tem que diminuir em 10%. Eu acho que a colocação tem que ser qualitativa. O que eu quero dizer com isso? Que algumas atividades a gente deveria não só reduzir, mas suprimir. Por exemplo, a publicidade, a energia atômica, o carvão. Outras coisas, a gente tem que reduzir, como circulação de automóvel etc. E outras coisas a gente precisa aumentar. A gente quer aumentar a agricultura biológica, que até agora está muito pequena. A gente quer aumentar as energias renováveis, eletricidade solar, do vento etc., expandir as renováveis para acabar com as energias fósseis. E a gente quer expandir saúde, educação. Tem várias coisas que a gente quer expandir, outras que a gente quer reduzir, outras que a gente quer suprimir. Então, o conceito de decrescimento não dá essa diversificação qualitativa, essa é a minha crítica. (…)”

O grifo é meu, para destacar algo que penso há muito tempo, mas que raramente tive oportunidade de abordar (e que a falta de tempo me impede de desenvolver longamente o argumento): se algum dia o mundo for do jeito que gostaria que fosse, a publicidade como existe hoje acabará. Ficaria apenas como atividade para fins coletivos – campanhas de conscientização, de saúde, de informação. O atual ritmo de consumo dos países centrais do capitalismo – e das classes médias e altas dos países periféricos – é insustentável para o planeta. E não é possível estendê-lo a toda a população global. A publicidade é um dos mecanismos principais a fazer girar a roda do capitalismo. Por isso, tem que acabar.

Outro:

“Como o senhor vê a ascensão das forças conservadoras tanto na Europa, nos Estados Unidos, mesmo aqui no Brasil?

Realmente, é muito preocupante. Está abraçando quase todos os países da Europa. De formas diversas. Em alguns casos, é uma espécie de nacionalismo de direita, xenofóbico: em outros casos é diretamente fascista ou mesmo neonazista, como na Grécia. Mas é muito preocupante. Eles não são só conservadores, são racistas, são xenofóbicos, islamofóbicos, alguns são antissemitas. É um pessoal realmente muito preocupante. Em parte, tem a ver com a crise, mas não dá pra explicar só pela crise. Países como a Áustria e a Suíça, em que há muito pouco desemprego, muito pouca crise, são países em que esses partidos racistas são mais de 20% dos votos. Enquanto na Espanha e em Portugal, que são países que estão no fundo da crise econômica e social, não há esse fenômeno. Então, a crise não explica tudo. É um defeito de alguns amigos meus marxistas, que acham que a economia explica tudo. Mas tem a ver com o passado colonialista da Europa, tem vários aspectos. É difícil explicar, mas é muito preocupante. Vocês aqui na América Latina têm muita sorte, porque apesar de tudo, isso tem pouco peso. Extrema direita, fascista existe, mas não é força política. As disputas políticas se dão entre direita e esquerda.”

 

 

 

 

 

 

Rapidinhas

11/11/2014

A conta de luz vai subir quase 20%. Imagina como seria se tivéssemos um governo neoliberal, que privilegiasse o interesse das empresas multinacionais, empreiteiras e fundos de pensão que, graças à privataria, viraram concessionárias monopolistas de serviços públicos de eletricidade. Imagina se o governo federal defendesse esses interesses em detrimento da garantia de direitos e serviços básicos à população…

*  *  *

Coisa de 15 anos atrás, li Estação Carandiru, um dos melhores e mais importantes livros de minha vida. Hoje terminei Carcereiros, do mesmo Drauzio Varella. Outro livraço. Um trecho:

“Nossas cadeias são construídas com o objetivo de punir os marginais e de retirá-los das duas, não com o intuito de recuperá-los para o convívio social. Preocupações de caráter humanitário com o destino dos condenados só ganharão força no dia em que os criminosos das famílias mais influentes forem parar nas mesmas celas que os filhos das mais pobres.”

*  *  *

Quem lê sobre as comemorações dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, realizadas no fim de semana passado na capital alemã, nota o clima de celebração da liberdade. Se for ingênuo, este leitor acreditará que empresas de comunicação como, por exemplo, aquela que publica a ditabranda Folha de S. Paulo são campeãs da liberdade e do congraçamento dos povos.

Contudo, trata-se de esculhambar esse muro específico e, conveniente e hipocritamente, poupar outros. Afinal, após a derrubada do Muro de Berlim, outros, igualmente vergonhosos, foram construídos e continuam a crescer, como monumentos à estupidez, à violação ao direito de ir e vir, ao impedimento da felicidade e, principalmente, à segregação – racial, inclusive – dos povos. Refiro-me, por exemplo, ao Muro da Vergonha construído por Israel para segregar os palestinos, destruir-lhes a vida comunitária, impedir-lhes o direito de ir e vir e roubar-lhes terras férteis.

Muito tempo atrás, numa entrevista (ou um texto, não estou seguro) do saudoso jornalista Aloysio Biondi, aprendi que, ao ler uma matéria de economia publicada na mídia hegemônica, deveria começar pelos últimos parágrafos, onde geralmente está a informação que interessa. Essa matéria da ditabranda Folha é um exemplo de que a observação de Biondi pode valer também para outras editorias.

Um psicólogo

10/11/2014

Frequentar reuniões do Conselho Universitário é uma tarefa que considero maçante. Contudo, às vezes me brinda com situações e informações preciosas. Semana passada, por exemplo, fiquei sabendo, ao ouvir uma autoridade importante da universidade, que a UNIRIO conta com um – isso mesmo, um – psicólogo para atender os cerca de 7.000 alunos matriculados.

Fiquei pensando em quantos psicólogos faltam nas universidades federais brasileiras, e em quantos poderiam ser contratados com o mundaréu de dinheiro público injetado pelo governo federal nas empresas de ensino privadas através do Prouni.

Jornalismo e livre associação. Livre?

7/11/2014

No fim da manhã de 5/11/2014, uma chamada do Globo Online dizia: “Jogador Adriano é denuncido por tráfico de drogas pelo MP” (ver imagem capturada da tela abaixo).

Adriano

Não me interessa o mérito da denúncia – que, segundo se noticiou nos dias subsequentes, a Justiça já mandou arquivar -, mas sim a forma como a notícia foi apresentada.

Em primeiro lugar, pela imensa quantidade de preconceitos e ódio de classe presentes nas falas de muitos jornalistas que cobrem futebol, ao longo dos anos, ao tratarem do comportamento deste e de outros (ex-)jogadores do Flamengo.

Segundo, a escolha da fotografia que ilustra tanto a chamada da página principal quanto a matéria. Pensei logo em uma cobertura lamentável do Jornal do Brasil, finado concorrente do Globo, que acabou rendendo uma série de três textos (I, II e III) aqui no blogue e um artigo publicado na revista E-Compós.

Tanto na página principal quanto na matéria, a legenda da fotografia só aparece quando se passa o mouse por cima da imagem: “Adriano em lançamento de projeto social na favela Vila Cruzeiro”, seguida do nome do autor e da data (22/12/2010). Em tempos de abundância de imagens digitais, o jornal foi buscar uma imagem de quatro anos atrás. Será que, além de Adriano, há algum vínculo entre as pessoas que aparecem nela e o conteúdo da matéria? Se há, o texto e/ou a legenda deveriam informar. Em outras palavras: além do jogador, algum dos identificados no texto aparece na foto?

Posso estar enganado, mas, tendo a responder “não”. Acredito que a escolha desta foto tenha mais a ver com os preconceitos que abundam na prática profissional das principais redações, e menos com o caráter efetivamente jornalístico dela – a pertinência de seu conteúdo em relação ao do texto.

O que temos, então? Segundo a legenda, um lançamento de projeto social na mesma Vila Cruzeiro à qual a matéria se refere. Como em quase todas as vezes em que noticia que este ou outro atleta esteve em uma favela, o jornalismo das corporações de mídia coloca o tráfico de drogas no meio (ver os links acima). Desta vez, uma imagem de um lançamento de um projeto social – acreditando-se que a legenda está correta – é usada para ilustrar uma acusação de envolvimento com tráfico de drogas.

Volto às perguntas de três parágrafos atrás: será que, além de Adriano, há algum vínculo entre as pessoas que aparecem nela e o conteúdo da matéria? Como eu dizia, tendo a arriscar um “não”, com pouco medo de errar. Daí decorre outra pergunta: então, por que se escolheu essa foto? A resposta cabal, total, só seria possível pela observação das rotinas produtivas, acompanhada de entrevistas com os profissionais (e estagiários… geralmente muitos estagiários) que as realizam.

Adriano está sem camisa, com tatuagens à mostra. A legenda nos informa que está na “favela Vila Cruzeiro”. Todos à sua volta – incluindo o jogador – são negros ou pardos. Estivesse ele cercado de brancos em uma foto de 2010 ou qualquer outro ano, seria ela escolhida para ilustrar a matéria?

Por fim, creio que o caso não é idêntico ao ocorrido com o Jornal do Brasil. Mas, dependendo da resposta às perguntas acima, revela o mesmo ponto de vista e – pior – de lógica profissional. Mostra um olhar extremamente treinado e acostumado a enxergar a realidade a partir de certos parâmetros. As vítimas preferenciais são as mesmas de sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Exposição e Seminário Coronelismo Eletrônico

5/11/2014

Reproduzo abaixo convite que pingou na caixa postal para evCORONELISMO_ELETRONICO_programacaoento e exposição na UFRJ.

“Na celebração do centenário de Victor Nunes Leal, convidamos para o seminário Coronelismo Eletrônico: Teoria e Prática Política no Brasil, organizado pelo Programa de Pós-Graduação e a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, através do PEIC – Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação – que ocorrerá nos dias 11, 12 e 13 de novembro de 2014, no Auditório Casa da Ciência UFRJ. O evento reunirá pesquisadores, ativistas e jornalistas dedicados ao tema das políticas de comunicação e ao tema coronelismo. Programação e detalhes de inscrição em anexo.
Simultaneamente estaremos apresentando a exposição Coronelismo Eletrônico: as concessões de radiodifusão na história política do Brasil, agrupando documentos históricos sobre as relações de clientelismo e patrimonialismo nas políticas de comunicação nacionais desde a década de 1930 aos dias presentes. A exposição estará aberta ao público em geral entre 11 de novembro e 11 de dezembro, na Escola de Comunicação da UFRJ.”CORONELISMO_ELETRONICO_seminario CORONELISMO_ELETRONICO_expo

Nota pública da Compolítica a respeito da Revista Veja

29/10/2014

Reproduzo abaixo nota divulgada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica). Além de concordar com o teor do texto, considero a iniciativa digna de aplauso, tendo em vista a escassez de tomadas de posição públicas por parte das entidades que reúnem os pesquisadores de Comunicação.

“A Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica) vem, por meio de sua diretoria, repudiar publicamente a Revista Veja pela conduta irresponsável, como veículo jornalístico, às vésperas das eleições presidenciais de 2014. Como é de conhecimento público, a revista estampou em sua capa manchete e fotos implicando de forma taxativa dois presidentes em um grave escândalo de corrupção, publicando a edição um dia antes do normal e tornando-se, assim, material de campanha para um dos lados da disputa. Fez isso baseando-se em vazamentos de acusações de um criminoso em processo de delação premiada que deveriam servir à justiça para novas investigações – inaceitáveis como prova a ser publicada como verdade. Consideramos que a revista agiu de forma irresponsável, incompatível com o grau de amadurecimento de nossas instituições e punida judicialmente pelo próprio TSE com direito de resposta e multa. Como associação científica que pesquisa justamente a relação entre comunicação e política, expressamos nossa preocupação com a recorrência de fatos como este, em que emissores privados se valem da legitimidade conferida pela opinião pública à imprensa para divulgar material que não segue os preceitos éticos mínimos e boas práticas do ofício, para além das preferências ideológicas. Para que a vontade popular possa se expressar, é necessário garantiir que o respeito ao processo democrático seja um limite ao arbítrio dos controladores dos meios de comunicação. É necessário, também, que o Brasil avance na direção de um sistema de mídia mais plural e mais democrático, com mais respeito à divergência e espaço para o debate. O direito democrático da livre expressão pública implica responsabilidade política – além de jurídica. É coisa muito séria e esperamos que nossa manifestação a respeito possa contribuir com o necessário debate que, quem sabe, a presidente reeleita ousará, finalmente, favorecer neste mandato.”
Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2014.
Alessandra Aldé – presidente
Luis Felipe Miguel – vice-presidente
Francisco Paulo Jamil Marques – secretário

Uma música

18/10/2014

Lily Allen – Back to the Start

Um filme

15/10/2014

Domínio Público

Vale a pena ver de novo

14/10/2014

Em tempos de campanha eleitoral, recomendo dois vídeos que comentei anteriormente neste blogue (aqui e aqui).

Liberdade, essa palavra

Gagged in Brazil

Rapidinhas

13/10/2014

Recentemente foi publicado um artigo meu na Contracampo, revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF): Um balanço dos estudos de esporte no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação de 2012.

Por falar em produção científica e esporte, o texto da semana passada no blogue coletivo História(s) do Sport foi meu: Uma aventura juvenil na África do Sul.

*  *  *

Boa notícia: foi publicado o livro Quando o silêncio é rompido: homossexualidade e esportes na internet, de Luiza Aguiar dos Anjos. A edição resulta do prêmio de literatura científica do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE), recebido pela dissertação homônima.

 


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