Três filmes sobre história e política (19-10-06)

By Rafael Fortes

Dos cinco filmes que vi no Festival do Rio, três merecem destaque. Por coincidência, tratam de episódios relacionados à história e política (ou guerra). Abaixo estão curtas impressões sobre eles, sem entrar no mérito das (necessárias e interessantes) discussões sobre a possibilidade de “reconstrução histórica” nas telas do cinema.

Caparaó (2005)

Documentário brasileiro que traz depoimentos sobre os envolvidos no foco de guerrilha montado na Serra do Caparaó em 1966-7 e lança luz sobre uma iniciativa pouco conhecida de enfrentamento da ditadura civil-militar instaurada no Brasil em 1964.

Um dos pontos positivos do filme é trazer testemunhos não apenas dos ex-guerrilheiros, mas também de habitantes da região e de policiais responsáveis pela repressão e desmantelamento do grupo. Outro ponto positivo é o bom humor dos entrevistados, sobretudo os participantes da guerrilha. As passagens em que há encenação, por outro lado, poderiam ter esta característica apresentada mais explicitamente.

Dias de Glória (2006, Indigènes)
http://www.indigenes-lefilm.com/

Através da história de um batalhão integrado por soldados islâmicos, o filme trata dos africanos, nascidos em colônias francesas, que vão para a Europa lutar na Segunda Grande Guerra para libertar a França. Embora a tarefa seja apresentada pelos recrutadores (e pelos superiores aos quais os soldados africanos estão subordinados) como nobre, o papel principal dos colonizados é o de bucha de canhão. Pelo que se percebe a partir do filme, o mérito da participação dos colonizados na guerra até hoje não foi reconhecido (oficial, pública e financeiramente). Isto ajuda a compreender melhor as numerosas e justas razões históricas que, somadas aos problemas do presente, levaram milhares de jovens (alguns deles, quem sabe, netos e bisnetos dos que lutaram na guerra) a realizar grandes protestos na França entre o fim de 2005 e o início deste ano.

O caminho para Guantánamo (The Road to Guantanamo, 2006)
http://www.roadtoguantanamomovie.com/

O filme conta a história de amigos britânicos de origem paquistanesa que vão parar no Afeganistão e acabam presos. Identificados como terroristas (embora não o fossem), são transferidos para a Base Naval que os EUA mantém ilegalmente em Guantánamo (Cuba) – onde o país que se considera o farol da liberdade mantém presos cidadãos de diversas nacionalidades, sem que haja sequer acusação formalizada contra eles, o que vai contra as normas mais básicas do Estado democrático de direito. Dentro da base, militares, funcionários civis e mercenários dos EUA e Grã-Bretanha realizam as mais variadas práticas criminosas e amassam o pão que os cativos comem.

Com relação a Caparaó, tem a vantagem de apresentar de forma mais clara as diferenças entre seqüências não-ficcionais (imagens de arquivo e depoimentos dos protagonistas) e ficcionais (utilizando atores e estrutura de filme de ficção convencional). Estas últimas, por sinal, ocupam a maior parte do filme.

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