Condenados pela primeira página III

By Rafael Fortes

(Finalmente consigo concluir e publicar este texto.)

Eis que veio o Jornal do Brasil do dia seguinte. (Para quem não leu, ou não sabe do que estou falando, ver Condenados pela primeira página e Condenados pela primeira página II.)

O erro foi assumido? Não.

Houve retratação? Não.

Houve pedido de desculpa às vítimas? Não.

Houve publicação de direito de resposta em espaço editorial equivalente? Não.

Se fosse só isso, já seria grave e vergonhoso bastante. Mas o Jornal do Brasil foi além. Muito além.

Vejamos o quadro abaixo:

jb-_-1605.jpg

Primeiro, o jornal publica novamente a foto – e duas vezes. Mesmo considerando que ela é inserida no contexto em que aparece na internet, se pensarmos em relação à questão dos estigmas e à leitura de imagens – muitas vezes menos racional e atenta que a de textos -, trata-se de um absurdo.

A cara de pau do título é ímpar: “Atores viram bandidos em página de apologia do CV”. Um leitor que não tenha visto o jornal na véspera não consegue saber que os atores viraram bandidos também na primeira página do Jornal do Brasil, o que, por sinal, provavelmente teve impacto muito maior.

Embora o material publicado no JB insinue o contrário, internet e jornalismo não são a mesma coisa. Atores aparecerem como traficantes no Orkut é algo grave, mas muito mais grave é serem apresentados como bandidos na primeira página de um jornal.

No Orkut e em outros espaços da internet, qualquer um com acesso à rede e conhecimento de programas de informática pode se fazer passar por quem quiser, veicular informações falsas, editar fotos e atribuir a outras pessoas palavras, atos e situações. Trata-se, portanto, de universo em que muitos usam e abusam da liberdade e anonimato que o meio lhes proporciona. Excessos e crimes podem e devem ser investigados pela polícia e julgados pelo judiciário, apesar da dificuldade de reunir provas e indentificar suspeitos.

O jornalismo, por outro lado, pode ser definido de forma rasteira e breve como uma atividade que se responsabiliza por informar às pessoas o que acontece. É uma prática profissional socialmente aceita e dotada de credibilidade, além de considerada por muitos importante dentro da democracia.

Portanto, a informação encontrada em qualquer lugar da internet e a informação encontrada na primeira página de um jornal, por definição (e por uma série de outras razões), não são a mesma coisa, nem gozam (ou deveriam gozar) do mesmo valor. Ao, de maneira enviezada, igualar-se ao Orkut, o JB permite que o leitor considere que, a partir daquele momento, qualquer coisa escrita, ouvida, falada por aí possa ir parar na primeira página do jornal, com status de verdade. Ao igualar jornalismo e Orkut, o jornal se anula enquanto tal.

Só faltou reclamar da assessoria de comunicação do CV.

(Clique uma ou duas vezes sobre a imagem abaixo para ampliá-la.)

JB 16/5/07

O trecho a seguir, tirado da matéria acima, é inacreditável:

“Os integrantes do grupo de teatro dizem que não sabiam que a imagem foi exibida em páginas do Orkut nem que havia parado lá. Os atores tomaram conhecimento do que havia ocorrido por intermédio da reportagem publicada ontem no Jornal do Brasil sobre usuários do site de relacionamento que mostram em páginas pessoais armas pesadas, que estariam em poder dos traficantes do Rio de Janeiro.”

Há, pelo menos, três falácias no trecho acima.

1) Posar de serviço de utilidade pública. Dizer que os atores foram informados do ocorrido pelo jornal é mentira, por duas razões: a) os atores não ficaram sabendo da confusão pela reportagem, porque nela não havia desmascaramento de confusão alguma: os atores eram traficantes; b) a reportagem não só não informou sobre a confusão, mas fez parte dela e ajudou a disseminá-la.

2) Dizer que a matéria da véspera era “sobre usuários do site de relacionamento que mostram em páginas pessoais armas pesadas”. Eis os títulos e legenda publicados um dia antes: “OUSADIA – Crime usa a rede impunemente”; “Doze traficantes com armas e coletes à prova de balas. Entre eles, uma mulher”; “Tráfico exibe poder de fogo pelo Orkut”. O jornal mente sobre o que ele mesmo publicou na véspera.

3) Usar o futuro do pretérito. Com isso, o jornal joga para o terreno da hipótese e da dúvida o que noticiara como verdade e certeza.

JB, 17/5/07

O tom usado para dizer que os atores, a produção do filme e assessoria de imprensa não sabem informar quando e por quem as fotos foram feitas e como foram parar no orkut se aproxima de uma insinuação de culpar as vítimas. Culpar a vítima, ainda mais quando esta “não sabe se explicar”, é uma prática tão nefasta quanto comum em nossa sociedade – como no argumento machista que diz que uma mulher vestida com roupas “provocantes” e circulando por uma rua deserta está “pedindo para ser estuprada” -, para a qual um certo tipo de jornalismo contribui de forma decisiva. Viola uma série de preceitos legais, entre os quais está um básico: todos são inocentes até que se prove o contrário. Esta é mais uma norma jurídica que rege as relações sociais mas é ignorada com freqüência pela mídia gorda, que se considera acima de leis e instituições (em nome da “liberdade de imprensa”, claro!).

Discutir os possíveis caminhos percorridos pela foto de um dia de gravação até o Orkut parece uma tática de jogar areia no olho do leitor, desviando a atenção do problema principal. Em cinco minutos, eu seria capaz de pensar cinco ou dez histórias diferentes – mais ou menos mirabolantes, mas todas factíveis – para contar o percurso da foto, do clique ao orkut. Ainda que qualquer dessas explicações se revelasse verdadeira, isso seria inteiramente irrelevante para a discussão central – aquela que o JB se recusou a travar.

* * *

Enquanto isso, dezenas de temas essenciais para o futuro do país seguem sendo discutidos nos legislativos, executivos e judiciários, nas ruas, nos movimentos sociais. Sobre tudo isso, por parte da mídia gorda, poucas palavras, pouco destaque, pouca discussão democrática.

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