Nacionalismo e antinacionalismo
A crítica não vem de nenhuma velha raposa do PFL, de tecnocrata do PSDB ou da oposição à esquerda. É de Frei Betto, no Correio da Cidadania:
O mesmo Frei Betto, assim como os três mandatos de deputado federal do PSOL, assina carta aberta exigindo a suspensão imediata dos leilões de bacias de petróleo, prática injustificável do governo do PSDB/PFL mantida pelo do PT.
Como a campanha do segundo turno para presidente ano passado foi pautada pela discussão sobre as privatizações, ficam as perguntas: houve estelionato eleitoral? E a privatização da floresta amazônica com aval do Estado? E a privatização de estradas? A proposta de privatizar os aeroportos vai avançar? Vamos exportar (e barato) nosso petróleo para comprar (caro) depois, abrindo mão de um recurso estratégico e gerando lucro para as multinacionais?
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O admirável deputado federal Ivan Valente (PSOL/SP) apresentou proposta para que seja realizado um plebiscito oficial sobre a anulação da venda, ou melhor, doação da Companhia Vale do Rio Doce. A notícia, também do Correio, certamente não receberá grande divulgação na mídia gorda, conivente com a política de privatizações e de aniquilação do Estado e do interesse nacionais.
Caso vivêssemos numa democracia, não haveria problema algum em consultar o povo a respeito de decisão tão importante. Porém, em nossa estranha democracia, consultar o povo é uma coisa horrorosa. Aliás, caso vivêssemos numa democracia, o povo teria sido consultado antes de se levar a cabo esta e quaisquer outras decisões relevantes para o futuro do país. A iniciativa é importante e pode contribuir para o avanço da democracia no Brasil. (A repetição da palavra democracia acima é proposital mesmo.)
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Da série “se não houvesse ditadura da mídia gorda e vivêssemos numa democracia de fato, isso seria manchete de jornal”: em entrevista ao jornal Brasil de Fato (semana de 16 a 22/8/2007, p. 6), o professor Adriano Benayon, da Universidade de Brasília, afirma que o atual ministro da Defesa, Nelson Jobim, fraudou a Constituição.
Por incrível que pareça, o mais grave não é o crime em si, mas sua conseqüencia. Ou seja, o artigo que foi fraudado, e o que resultou da fraude.
Informa a matéria: “Essa alínea inserida prevê que não seria necessário indicar fontes de receita nas emendas destinadas ao pagamento do serviço da dívida. Em outras palavras, a partir da promulgação da Constituição, o pagamento de juros e as amortizações da dívida passaram a ser permitidos de forma incondicional, podendo ter os recursos oriundos de qualquer setor - inclusive da área social - e sem ter que designar as fontes.”
Com isso, o uso do dinheiro oriundo do trabalho do povo brasileiro fica liberado quando se trata de remunerar os empréstimos do capital. Transferência e concentração diretas de renda, dos mais pobres para os mais ricos - de quebra, fragilizando o Estado brasileiro, a quem cabe atuar para reduzir a desigualdade.
Trata-se de uma medida que atenta claramente contra o interesse nacional e que beneficia empresas, bancos, investidores e governos estrangeiros. E o cara, depois de deputado, vira juiz do STF e, pior, ministro da… Defesa! Fosse no futebol, equivaleria a escalar na zaga alguém que torce e joga para o adversário!
A matéria ainda dá o que pensar sobre a conduta “nacionalista” de um representante do PDT. Diz Benayon:
“(…) em 1995, como consultor do Senado, recebi o pedido de um senador de elaborar emenda à Constituição a fim de suprimir o dispositivo que favorece o pagamento do “serviço da dívida”, livrando-o de restrições que cerceiam outros tipos de despesa. (…) Essa proposta de emenda supressiva não foi aprovada. O relator, na comissão, que foi Jefferson Peres (senador, PDT-AM), deu parecer contrário, fazendo uma radical apologia da política econômica (então sob o “governo” de FHC) e foi acompanhado pela maioria dos membros da comissão.”
O assunto não foi manchete de jornal em cadeia nacional, nem assunto de debate dos programas televisivos e radiofônicos. Por que será? A explicação passa pelo “cosmopolitismo de cócoras” (para um uso adaptado da expressão de José Luís Fiori) de nossa mídia gorda?
- A íntegra da matéria está disponível aqui.
- Ver o artigo “Anatomia de uma fraude à Constituição“, de Adriano Benayon e Pedro Antonio Dourado de Rezende.
Etiquetas: sociedade, esquerda, democracia, ética jornalística, política econômica, história, fraude, constituição, Nelson Jobim, Jefferson Peres, governo Lula, dívida externa, CVRD, Companhia Vale do Rio Doce, petróleo, neoliberalismo
17/11/2007 em 1195303214
Rafael
Nacionalismo, integridade política e defesa de nossa soberania há muito não fazem parte dos ideários de nossos políticos. No que refere ao “generalíssimo” Nelson, esperemos que sua ação na Defesa não seja pior que a de Ministro do STF. Já, quanto ao senador J. Peres, creio que ele está no partido errado, pois, tem mais identidade e coerência com o pregado pelo PFL-DEMO. E la nave va…
20/11/2007 em 1195578886
Parabéns professor pelos textos. Encontrei seu blog casualmente, quando na verdade procurava artigos sobre Cosmopolitismo de Cócoras no google. Porém já que encontrei, entrei e li seus últimos posts, todos bem interessantes, principalmente o do Mengão. Sobre a questão das privatizações ou do não comportamento contrário do governo Lula com relação a leilões de estatais, é mais uma consequencia da total falta de comprometimento das suas ideologias em épocas de campanhas. Quando oposição, o PT era contrário à privatizações, hoje ja não ocorre da mesma forma. Os políticos desse partido pensam da seguinte forma: “Os tempos são outros e os pensamentos também”. Colocarei “A Lenda” no link do “Futebol, Musica e etc” (meu blog). Um abraço.
18/2/2008 em 1203323468
[...] falar em Constituição e dívida, não custa lembrar: como já comentei antes, segundo o professor Adriano Benayon, o atual ministro da Defesa (e olha só de que pasta!), Nelson [...]