Viva o cinema latino-americano

By Rafael Fortes

Dez de dezembro foi Dia Internacional dos Direitos Humanos. Aproveitando a data, aconteceu a segunda edição da Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, divulgada anteriormente aqui no blogue. A mostra é organizada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal, cujo titular, Paulo Vannuchi, criticou recentemente a matança promovida pela polícia do Rio de Janeiro. Ao que parece, é o único a manter a lucidez a respeito do tema no governo, já que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o presidente Lula se declararam a favor das operações policiais (a Chacina do Pan de junho foi uma realização conjunta de forças policiais estaduais e federais).

Em meio à correria do cotidiano, consegui ver alguns filmes. Abaixo, comentários breves.

1) Cándido López, Campos de Batalha (Cándido López, Campos de Batalla, Argentina, 2004, dir. José Luis Garcia)

Não é todo dia que se assiste a um filme sobre a Guerra do Paraguai. Na verdade, o filme é sobre Candido López, o argentino que viu os horrores da Guerra do Paraguai e pintou dezenas de quadros a respeito. Na memória de latino-americanos espalhados por três países (ou quatro, não lembro ao certo se há passagens no Uruguai) e entrevistados, histórias das atrocidades da Guerra do Paraguai. A guerra não só destroçou os paraguaios e sua terra, mas a arreganhou para a exploração e o lucro de empresas argentinas, inglesas e brasileiras, entre outras. (Em tempo: tenho grande simpatia pelo Paraguai, que tive o privilégio de visitar em janeiro deste ano. Algumas notas de viagem estão aqui.)

2) Memória para uso diário (Brasil, 2007, dir. Beth Formaggini)

Além de discutir diversos aspectos relacionados à tortura (a prática em si, o papel do Estado, o direito à reparação, a militância, os traumas, as reivindicações das vítimas etc.), é uma obra política contundente na defesa dos direitos humanos.
(O dvd é vendido na sede do Grupo Tortura Nunca Mais, no Rio de Janeiro. Aliás, o grupo precisa de ajuda financeira para pagar uma indenização a que foi condenado pela justiça.)

3) Do outro lado (Al otro lado, México, 2005, dir. Natalia Almada)

Sobre imigração do México para os EUA, mas com foco no México. Traz seqüências surreais de cidadãos estadunidenses vigiando a fronteira por dever cívico. Um deles diz algo como “nosso presidente disse para ficarmos atentos a qualquer atividade ilegal. Estamos fazendo o que ele nos pediu.”

4) Às cinco em ponto (A las cinco en punto, Uruguai, 2004, dir. José Pedro Charlo) trata da greve geral que se seguiu ao golpe de Estado no Uruguai, em 1973. Com fartura de depoimentos de líderes sindicais e estudantis, discute episódios dos protestos extensos e imediatos contra a ditadura que se implantava.

5) Argentina latente (Argentina/Espanha/França, 2007, dir. Fernando Solanas)

Filme lindíssimo. Denuncia o crime promovido pelo neoliberalismo ao desmontar a estrutura de ensino, pesquisa, tecnologia, produção etc. que foi montada a duras penas ao longo da maior parte do século XX. O foco, porém, não é a denúncia das tenebrosas transações que subtraíram a pátria tão distraída (embora o filme faça isso, e muito bem), e sim a capacidade de a Argentina ser um país grande, soberano, próspero e independente, apesar de tudo. Um país com um grande futuro à frente, caso realmente mude de rumo e se distancie do danoso projeto neoliberal.

Saltam aos olhos, ainda, os momentos em que o Brasil é citado (em relação à Argentina, é uma referência para investimentos em certos setores, por incrível que pareça) e a defesa da integração latino-americana como destino – nosso caminho  possível e viável rumo a um futuro melhor para o povo latino-americano.

O diretor, Fernando Solanas, recentemente foi candidato a presidente da Argentina. Fosse eu argentino, no mínimo consideraria a possibilidade de votar nele.

* * *

Filmes que demonstram o quanto a América Latina e a idéia de uma Pátria Grande são caras a nossos irmãos latino-americanos (os quais nós, brasileiros, costumamos ignorar, permanecendo voltados para o norte). Filmes que poderiam e deveriam ser exibidos em horário nobre em nossas redes de televisão. Certamente serão, no dia em que vivermos em uma democracia em que as mais diversas vozes possam falar a todos.

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2 Respostas para “Viva o cinema latino-americano”

  1. rodrigoviellas Disse:

    Assisi essa mostra lá em Sampa. Al otro lado é muito bom. O que mais gostei foi um equatoriano, chamado Qué tan lejos (http://www.que-tan-lejos.com/ http://br.youtube.com/watch?v=wsWW3n-MMW8) com participação da diretora Tania Hermida ao final da sessão. Engraçado, despojado e ao mesmo tempo revelador de um país quase desconhecido para nós, brasilenhos que cagamos para a América Latina. Recomendo.

  2. Lisiane Spezia Disse:

    Olá!

    Me interesso muito por esses filmes e gostaria de saber onde encontro.

    Lisiane

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