“Desce daí, garoto / Senão atiro em você / Por que cê não mostra que é homem / Por que cê não tenta correr (…)
Polícia é fogo, meu chapa / Combate o crime de verdade / Prende os garotos de moto / Pra moralizar a cidade”
“Patrulha Noturna”, de Herbert Vianna. Tá no disco Cinema Mudo, d’Os Paralamas do Sucesso, lançado em 1983.
O contexto da letra era outro, assim como a classe social a que pertencem os alvos da ação policial.
Mas, ouvindo a música, foi impossível não associar ao que vem acontecendo no Rio em janeiro de 2008. Os motoqueiros estão sendo alçados, com a ajuda da mídia gorda, à categoria de inimigo público número dois (o número um são os traficantes; por outro lado, os que subornam funcionários públicos, os empresários – de comunicação, inclusive – que sonegam impostos e roubam a Previdência social, entre outros tipos de criminosos, não entram na lista).
Fica combinado assim…
A gente mantém: uma sociedade violenta e desigual, um trânsito selvagem, a ostentação em meio à miséria, a falta de acesso a trabalho e renda decentes, a falta de acesso a direitos básicos, uma mídia concentrada que não contempla a maioria das vozes que formam a sociedade (e que legitima o extermínio das parcelas mais pobres), governos que priorizam a remuneração do capital especulativo e os interesses e reivindicações de quem já se dá bem etc.
Mas a polícia sai apreendendo motos (quero saber se apreende também motos caras de gente bacana, ou se só pega moto de trabalhador que está duro e com o IPVA atrasado), e todos seremos felizes e nos sentiremos seguros no trânsito.
Paralelamente, os governantes, a mídia gorda e seus leitores, ouvintes e telespectadores discutem se desligar os pardais vai reduzir a violência. Como se os motoristas fossem apenas vítimas, e nunca causadores de violência, mortes, perdas familiares irreparáveis etc.
O maniqueísmo que normalmente se usa para separar “homens de bem” de “bandidos” agora chega à discussão pública (?) sobre o trânsito. Pelo que pude entender, a reivindicação é que os motoristas de carros de passeio devem ter todos os direitos e fazer o que bem entendem. E, claro, quanto mais caro o seu carro, mais acima das leis você está e mais “direitos” tem.
A discussão prossegue baseada em impressões pessoais e achismos. Pergunto: o aumento de mortes no trânsito causado por um eventual desligamento dos pardais compensa a alegada redução dos assaltos a motoristas? Há estatísticas disponíveis sobre redução de mortes no trânsito a partir da adoção do Código Nacional de Trânsito e, principalmente, de multas mais freqüentes e pesadas para os motoristas. Porém, no debate qualificado realizado pela mídia gorda, é conveniente que elas não apareçam, assim como é conveniente não dar voz a especialistas como os médicos que atendem acidentados e atropelados nas emergências de hospitais públicos.
Outra pergunta: tendo em vista o horror que foi o ano de 2007 para boa parte da população do Rio de Janeiro, aquela que vive em comunidades e foi aterrorizada e exterminada pelos criminosos do tráfico, da milícia e da polícia (que, em 2007, matou mais do que nunca, segundo dados oficiais do Instituto de Segurança Pública), desligar ou não os pardais e apreender motos são as questões centrais da segurança pública para discutirmos no início de 2008, como faz acreditar o “debate” presente na mídia gorda?
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