Juízo, Irã no Jornal da Globo e Paulo Henrique Amorim

By Rafael Fortes

O conteúdo parece ficção, mas não é. Está em cartaz um senhor filme: Juízo. Deveria estrear em 300 salas em todo o país, incluindo todos os cinemas de shopping, passar repetidamente na TV a cabo, ter cartaz do DVD pendurado em todas as locadoras e passar na Tela Quente e, repetidamente, ocupar diversos espaços na TV aberta. Como vivemos num país democrático, com um governo de esquerda e com meios de comunicação que defendem e praticam a liberdade de expressão, isso não vai acontecer.

O trailer está aqui.

*  *  *

Ontem, no Jornal da Globo, o apresentador não escondia sua felicidade ao anunciar uma matéria sobre a circulação, no Irã, de raps, por meio de arquivos com músicas e clipes distribuídos via internet, apesar da proibição dos aiatolás. Sob o ponto de vista da matéria, tratava-se de opor a criatividade e a busca de liberdade dos jovens influenciados pela música dos EUA, ao regime castrador, retrógrado e burro dos aiatolás. Bom, essa era a visão da matéria.

O problema é que um desavisado que não soubesse como são as coisas na democracia brasileira, em que a mídia é controlada por meia dúzia de grupos, sendo o principal deles dono da emissora que levara aquela reportagem ao ar, poderia ficar com a impressão de que o problema existe única e exclusivamente no Irã (na verdade, também em Cuba, na China, na Venezuela e no Paraná, sob o ponto de vista do jornalismo da TV Globo). Ficou parecendo que as mensagens dos milhares de adolescentes e jovens brasileiros que fazem rap, a grande maioria pobre e vivendo nas periferias das grandes cidades, circulam numa boa nas nossas emissoras livres e democráticas de rádio e televisão. Muitos desses jovens, inclusive, têm uma visão bastante crítica sobre a mídia gorda, porque sabem muito bem o que ela produz e do que é capaz. Sabem também que, se depender dela, nunca terão voz.

Resumindo, então: se um jovem cantor faz música contestando o poder, sua única chance de ir ao ar num Jornal da Globo é se for iraniano e cantar em persa. Neste caso, terá direito a algumas imagens curtas e editadas, sem que as letras sejam traduzidas. Sendo brasileiro, nada feito.

*  *  *

Outro exemplo de liberdade e ausência de censura, de acordo com os parâmetros da mídia gorda, é a recente demissão de Paulo Henrique Amorim do IG, seguida da retirada do ar de todos os arquivos produzidos por ele no blogue Conversa Afiada, que ficava hospedado no portal. A mídia gorda, que tanto brada em nome da liberdade de imprensa, passou batida. Deve ser porque, de acordo com os parâmetros dela, não se trata de censura ou perseguição. Então, tá.

Tags: , , , , , , , , , , , ,

Deixe um comentário