Uma música

7/11/2017

Dropkick Murhphys – Rose Tattoo

Bela música, clipe e letra. Sobre tatuagens, marinheiros, amor e a história de vida de cada um.

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Sobre a morte do reitor da UFSC

5/11/2017

Comecei a escrever o que segue abaixo no dia seguinte à notícia do suicídio de Luiz Carlos Cancellier, professor e reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A primeira parte do texto está como escrevi nos dias subsequentes. As demais partes acrescentam outras dados e reflexões com os quais travei contato desde então.

*  *  *

Como sói acontecer nestes momentos, vamos buscar analogias históricas, ao menos referências básicas de balizamento. Rudá Ricci chamou de macartismo – e afirma que estamos vivendo o auge do macartismo no Brasil. Em dois episódios anteriores, referi-me à Santa Inquisição (quando o Ministério Público Federal me acusou) e lembrei do bom e velho Brecht (quando a Polícia Federal, autorizada por um juiz de primeira instância, grampeou o Gabinete da Presidência da República; posteriormente, o conteúdo das gravações foi vazado para uma corporação de mídia que opera concessão pública. A grampeada Coração Valente e seu decorativo ministro da Justiça sorriram e acenaram, tal qual pinguins do filme Madagascar).

No episódio em que o Ministério Público Federal me acusou, aliás, o teor da “Nota de esclarecimento do Ministério Público Federal“, que publiquei aqui neste blogue a pedido da assessoria de comunicação do órgão, é sintomático deste modo de agir que vimos observando e sofrendo no Brasil. (Aliás, é, no mínimo, curioso que a assessoria tenha entrado em contato comigo por meio de telefonema para o número fixo de minha residência. Tal número não consta em qualquer lista telefônica. Segundo o jornalista que me ligou, ele não encontrou o meu email – que está disponível em trocentos endereços da internet, inclusive neste próprio blogue – para fazer contato.)

A meu ver, vivemos uma hipertrofia dos braços do Estado responsáveis por controle/repressão/espionagem/investigação/violência, bem como do Poder Judiciário. E não se trata de qualquer Justiça: a que temos, majoritariamente, é não garantista e antidireitos, a começar pelo Supremo Tribunal Federal. Nas palavras do jornalista Luis Nassif, “Os órgãos de fiscalização e de repressão assumiram tal influência que passaram a se imiscuir em vários setores da vida do país, trazendo consigo altas doses de intolerância e de pensamento policialesco e abrindo espaço para personalidades desequilibradas, a verdadeira banalização do mal praticando a crueldade com a segurança de quem tem o Estado atrás de si“.

Ele também narra o problema macro de inserir na universidade figuras alheias a ela – e, pior, cheias de prerrogativas. E o problema micro – no interior da UFSC – causado pela atuação do corregedor. Vale a pena ler os detalhes da perseguição a alunas – sem dúvida, uma das coisas mais covardes que se pode fazer dentro de uma universidade. (No episódio narrado de perseguição na UFSC, o corregedor é homem, a presidente do centro acadêmico é mulher, as intimadas são alunas e o problema era assédio por professores homens. Creio ser possível haver um corte de gênero que escapou à análise do jornalista.)

Não por acaso, Nassif aponta dois grupos/poderes como centrais para o que houve em Florianópolis – e, acrescento eu, para o que vem rolando no país: grandes empresas de comunicação e Judiciário. Aliás, nenhum dos dois é eleito pela população. O Judiciário é um dos poderes instituídos da República. Na presidência da República, os eleitos pelo PT nada fizeram para democratizá-lo – e escolheram muito mal os ministros do STF.

Nassif encerra assim seu texto: “Em todo caso, a delegada Erika, o procurador Bertuol, a juíza Janaína, o próprio corregedor Hickel são personagens menores. O grande personagem é o espírito punitivista desses tempos de cólera, e uma imprensa sensacionalista, totalmente dissociada de princípios civilizatórios básicos, que acabou conferindo a mentes perturbadas o poder inaudito de assassinar reputações.

A morte física do reitor foi apenas um acidente de percurso. E os protagonistas, não mais que de repente, perderam a atração pelos holofotes.”

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Outras leituras sobre o episódio:

Conversa Afiada: “Procurador de Santa Catarina interpela a delegada

Elio Gaspari, mesmo discreto num primeiro momento, abordou o assunto.

Roberto Requião (PMDB/PR), em pronunciamento no Congresso: “Cancellier a maldade fascista nas instituições” (via GGN). Afirmou o senador: “Eliminou-se a presunção de inocência. A Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário transformaram-se na espada santa do Senhor, nos anjos da Justiça. Infalíveis, incontestáveis. Se os fatos, se a verdade dos fatos os contrariam, azar.

Luís Felipe Miguel, professor da UnB: “Das responsabilidades pela morte de Cancellier“:

Em suma: um exemplo perfeito da prepotência, da insensibilidade e do autoritarismo que, infelizmente, grassam no Judiciário brasileiro. Pergunto: uma vez que esse evidente abuso de poder levou a consequências tão trágicas, haverá algum tipo de punição à juíza?

Mas há uma cota de responsabilidade importante que cabe à mídia. Ela é a cúmplice ativa dos processos de pré-julgamento e assassinato moral promovidos pelo Judiciário. Ainda hoje, ao noticiar a morte do reitor, a Folha de S. Paulo escreve que ele integrava um grupo “suspeito de desviar R$ 80 milhões em recursos que deveriam ser investidos em programas de Educação à Distância”.

Há duas inverdades na frase. Era o projeto totalizava R$ 80 milhões; o valor que se suspeita que tenha sido desviado é alto, mas não chega a 0,5% desse montante. E, mais importante, a acusação que pesava contra o Cau não era de participar do desvio, que teria ocorrido antes de sua gestão, mas de estar “obstruindo as investigações” (acusação que ele negava).

A mídia reproduz, de forma leviana, informações imprecisas ou mesmo falsas, embarca alegremente na culpabilização antecipada dos denunciados e, quando concede espaço para o contraditório, é apenas de forma burocrática e limitada. O Judiciário pode preparar os archotes, mas quem risca o fósforo para o linchamento moral é a mídia.

Ao noticiar desta maneira a morte do reitor, a Folha trabalha para esvaziar o sentido de denúncia contra a arbitrariedade que Cau buscou imprimir ao sacrifício de sua própria vida.”

Reproduzo abaixo a Moção de Solidariedade à UFSC assinada pela Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação).

“São Paulo, 05 de outubro de 2017

 
MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE À UFSC
 
Nós, membros da diretoria da Compós e coordenadores dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação acadêmicos e profissionais, reunidos na reunião do Conselho da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, Compós, manifestamos nosso mais veemente repúdio ao estado policial de terror que se instaurou neste País, e que teve como um de seus mais nefastos resultados, a morte do Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC.
É inaceitável que as trevas do obscurantismo punitivo, que prende e condena sem provas, que submete pessoas e suas reputações à humilhação e à destruição, como foi o caso do Professor Cancellier, aliadas a uma mídia sensacionalista e irresponsável estejam tomando forma neste País.
Na condição de professores universitários, denunciamos os ataques à Universidade Pública oriundos de tais fatos lamentáveis, como os que vitimaram o Reitor Cancellier. Exigimos rigor na apuração dos responsáveis pela prisão e humilhação pública tragicamente protagonizada pelo Reitor da UFSC.
Como cidadãos brasileiros, exigimos que sejam banidos do nosso País todas as formas de truculência policial e jurídica que estão vitimando colegas e compatriotas; que o Brasil retome a dignidade de uma Justiça Isenta e que a violência da vingança punitiva não seja mais do que um breve e trágico capítulo da nossa história.”

*  *  *

Hoje, 5/11/2017, Gaspari voltou ao assunto em sua coluna:

O SILÊNCIO E O SUICÍDIO DE CANCELLIER

Completou-se o primeiro mês desde que o professor Luis Carlos Cancellier matou-se. Ele tinha 60 anos, era reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, fora preso e, uma vez libertado, estava proibido
de pisar no campus da escola.

Já se sabe que Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco não devem ser investigados. Sabe-se também que o chefe da campanha de Donald Trump está em prisão domiciliar por lavagem de dinheiro e conversas impróprias com russos. Só não se sabe por que o reitor Cancellier foi humilhado.

O professor e outras seis pessoas foram presas no rastro de uma operação da Polícia Federal que se denominava “Ouvidos Moucos” e apurava fraudes com verbas de programas de bolsas de estudo. A juíza que determinou as prisões disse que fatos investigados mereciam “maior aprofundamento na análise”. Havia professores e empresários acusados de meter a mão na Bolsa da Viúva, mas as irregularidades ocorreram antes da chegada
de Cancellier à reitoria.

Passou-se um mês e ainda não há informações a respeito dos fatos que a juíza Janaina Cassol Machado, da 1ª Vara da Justiça Federal, considerou merecedores de “maior aprofundamento e análise”. À época das prisões, noticiou-se que a Operação Ouvidos Moucos teve a participação de cerca de cem agentes da Polícia Federal e o amparo da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União. Tudo isso para apurar irregularidades praticadas em cima de verbas que somavam R$ 80 milhões. Ainda não se sabe de acusação formal contra quem quer que seja, envolvendo um único centavo. Nada.

Sabe-se apenas que um cidadão preso e humilhado matou-se.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rapidinhas

1/11/2017

Da série “mais uma marretada na destruição do Estado brasileiro e do país”, o governo do Mordomo de Filme de Terror editou medida provisória rasgando acordos assinados e aumentando a facada do desconto previdenciário dos servidores públicos. A medida é triplamente coerente, tendo em vista as políticas e objetivos em vigor:

a) Porque os únicos contratos que devem ser respeitados são aqueles assinados com o objetivo de beneficiar o capital (de preferência, o estéril capital financeiro).

b) Porque libera mais uma parcela do orçamento da União para ser esterilizada com juros da dívida pública (ou seja, para ser apropriada pelos ricos, via rentismo, em vez de retornar à sociedade para garantir direitos) e/ou noutras formas de corrupção.

c) Porque enfraquece ainda mais os já precários serviços públicos, facilitando a tarefa posterior de privatizar. (Um dos aspectos do enfraquecimento é que, piorando-se salários e condições de trabalho, reduz-se as condições de atrair profissionais competentes para servirem ao público e garantirem direitos da população. O objetivo de acabar com a estabilidade, ignorando um debate racional sobre os motivos para ela existir, aponta na mesma direção.)

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Outra medida na mesma linha é a tentativa de acabar com a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) , parte de um projeto mais amplo de destruir o BNDES. No que depender da quadrilha que se aboletou no Governo Federal, o imenso território brasileiro vai virar a maior feitoria do mundo. Em várias frentes, o objetivo é regredir ao século XVI.

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E, óbvio, não é que tenhamos chegado ao fundo do poço. O mestre Wanderley Guilherme dos Santos, que sabe das coisas, já sentiu no ar “o fedor da força bruta“.

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Tal qual Carnaval, que tem todo ano, tem também a queda do sujeito na malha fina do imposto de renda – embora não lance nada errado na declaração de ajuste anual e tenha comprovantes de tudo que é lançado. Em dezembro de 2016, ele consegue um horário para entregar a documentação à Receita Federal – para conseguir agendar um horário, precisou se deslocar para outro município.

A Receita Federal, zelosa que só em relação aos recursos públicos e aos direitos dos brasileiros, levou dez meses e meio para chegar à conclusão de que, na documentação entregue pelo contribuinte, faltou um item de comprovação de despesas. Enviou-lhe uma carta – com o pomposo nome de “notificação de lançamento” – informando isto e dando-lhe 30 dias para se manifestar sobre a decisão.

Detalhe 1: O contribuinte entregou o documento que, dez meses e meio depois, foi considerado faltando. Inclusive isso está explicitado no documento assinado pela colega servidora pública que recebeu a documentação.

Detalhe 2: O contribuinte tem prazo para contestar a decisão da Receita. A Receita, obviamente, não tem prazo para analisar a contestação (nem para procurar e achar o documento que perdeu).

Um vídeo

1/11/2017

Pingou na caixa postal a excelente videorreportagem Bala Perdida, da Agência Pública. Um dos muitos méritos é problematizar a própria expressão “bala perdida”, que sugere um caráter aleatório a algo que, no fim das contas, não é.

O recado de Ibis Pereira, ex-comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, é claro e direto, ao dizer que o remédio é “mais direitos humanos para todos”. Ainda segundo ele, o problema é que a sociedade está recusando o remédio.

 

 

 

 

Uma música

25/10/2017

Dropkick Murphys – The State of Massachussets

Uma tijolada com excelente letra sobre a mais escondida e comum das violências – a doméstica, praticada em geral por familiares/parentes.

Uma música

23/10/2017

Los Hermanos – Tenha Dó

Crônicas cotidianas

17/10/2017

No bandejão de uma certa universidade federal localizada na capital fluminense, as opções foi final da refeição deixam o usuário em dúvida:

a) Orgânico/restos de comida

b) Papel (guardanapo)

c) Plástico (copo descartável de papel)

A causa da dúvida: em qual lixeira deve depositar o pedregulho (do tamanho de um caroço de feijão) que veio na refeição – e, por sorte, não fraturou a arcada dentária do comensal.

(Em tempo: o bandejão foi inaugurado e mantém o pomposo nome-fantasia de Restaurante-Escola, mas é um bandejão operado por empresa terceirizada.)

Rapidinhas

30/9/2017

Nesta excelente entrevista, Arthur Koblitz, do BNDES, faz uma análise aguçada e contundente da tragédia que vivemos no Brasil.

Aliás, um dos motivos que fazem do BNDES uma instituição estatal fundamental para uma nação soberana e desenvolvida é atrair e manter quadros que sejam capazes de pensar o país – coisa que os atuais dirigentes da nação, bem como a maioria dos membros do Judiciário e do Legislativo, parece claramente incapaz de fazer.

*  *  *

Nada mudará na segurança pública do Rio de Janeiro enquanto os debates na sociedade e a cobertura midiática se basearem em ficções, firulas, mentiras e cortinas de fumaça. É muito bom ouvir Vinicius George, um delegado de polícia, dizer com todas as letras verdades que convenientemente são omitidas na cobertura do assunto produzida pelas corporações de mídia:

a) militares das Forças Armadas, policiais e colecionadores privados de armas são os principais fornecedores de armas e munições para os criminosos do Rio de Janeiro. (Ou seja, tais fornecedores são criminosos e membros de quadrilha.)

b) só existe venda de drogas no varejo no Rio de Janeiro com pagamento regular de arregos à polícia.

Enquanto isso, as corporações de mídia seguem com a ficção – conveniente para todos os bandidos, inclusive os servidores públicos corruptos, fardados ou civis – de que há uma guerra entre polícia e tráfico no Rio de Janeiro.

*  *  *

Os brasileiros que andam deslumbrados com Portugal, sem nada saber sobre as razões políticas para os ascensos e descensos da economia e do funcionamento dos serviços públicos naquele país (da mesma forma que não compreendem as razões para os nossos próprios ascensos e descensos), que não sabem o que é esquerda ou direita, nem ouviram falar da Troika, fariam bem em ver o filme “São Jorge”. Na obra de ficção, o país real que não aparece para os turistas deslumbrados – e que, caso aparecesse, se recusariam em enxergar.

Outro aspecto relevante que passa ao largo das análises dos deslumbrados: embora muito católico e conservador, na média me parece que Portugal avançou mais do que nós nas legalizações do aborto, das drogas e do casamento gay. Estas três legalizações são fundamentais para:

a) uma sociedade/país chegar ao século XXI

b) a redução de mortes, prisões e sofrimento desnecessários

c) a garantia de direitos das pessoas e a redução das violações destes direitos, seja por por agentes privados (inclusive familiares), seja por agentes do Estado.

Não só Portugal, aliás… Espanha, Argentina, e por aí vai.

*  *  *

Pingou na caixa postal excelente reportagem do Truco, projeto da Agência Pública. Ela apresenta evidências de que o distritão, que muitos deputados e senadores querem aprovar no Brasil, vai piorar bastante o nosso sistema político e a composição do Congresso.

É justamente por isso, aliás, que determinados setores e partidos querem adotá-lo.

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Dentro da confusão que nos assola, Luis Nassif acrescenta uma interessante e curiosa variável a considerar: a Maçonaria.

 

Uma música

5/9/2017

Komeda – It´s Alright, Baby

Bença, Edinho!

Carnê de IPTU 2007: Jogos Pan-Americanos, Cidade Olímpica e o Rio do PMDB

20/8/2017

 

Contracapa do carnê de Imposto Predial e Territorial Urbano de 2007, emitido e cobrado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

A peça de ficção acima, fruto de imensa criatividade, é a contracapa do carnê de IPTU de 2007 da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Em dia de arrumação e de procurar papelada, achei essa maravilha, retrato de um momento. Fica aqui a imagem, quiçá uma fonte histórica para pesquisadores no futuro.

O prefeito à época era Cesar Maia (PFL). Foi sucedido no cargo por uma de suas crias políticas. Naquele fim de século, as Organizações Globo foram ativas formuladoras e apoiadoras de políticas públicas executadas pelos governos Eduardo Paes (PMDB, Prefeitura da capital) e Sérgio Cabral Filho (PMDB, governo estadual); e também beneficiárias de polpudos recursos estatais, sobretudo na área de cultura. Em fevereiro de 2014, escrevi o seguinte:

“Hoje fui ver uma exposição – interessante, diga-se de passagem, sobre surfe e skate – no Museu de Arte do Rio. A instituição foi concebida e executada pela Fundação Roberto Marinho e pela Prefeitura do Rio. Tem patrocínio das Organizações Globo. O dinheiro que sai por uma mão rapidamente é apanhado pela outra. Público e privado entram na batedeira e rodam de uma mão para outra, em loop, tal como limões alçados por um menino num sinal.”

(Alô, ministérios públicos… Alô, Lava-Jato! As corporações de mídia brasileiras são as únicas empresas nacionais, junto com os bancos, cujos donos bilionários não são picaretas, não corrompe(ra)m ninguém, não mantém relações espúrias e suspeitas com o Executivo, o Legislativo e o Judiciário? Conta outra! Vamos investigar!)

Agora que a cidade é governada por um representante da principal emissora de TV concorrente (Record), foi permitido aos trabalhadores dos veículos das Organizações Globo voltar a fazer um pouco de jornalismo, em lugar do noticiário predominante durante os mandatos anteriores, chapa-branca e baba-ovo de figuras que agora estão presas ou às portas de, como o ex-xerife do choque de ordem (em artigo científico publicado em 2010, analisando as capas de O Globo durante os cem primeiros dias do governo Eduardo Paes, eu e um colega afirmamos: “Do ponto de vista da construção da notícia, os textos apresentam reiteradamente o prefeito e o secretário de Ordem Pública como enunciadores dos conteúdos correspondentes às chamadas. Às vezes isso ocorre em dias seguidos, como no início de janeiro, quando o espaço à esquerda da capa constituiu uma espécie de cantinho do secretário.“) e o bilionário que ganhou o Maracanã, a Marina da Glória, o Porto do Açu e vários outros mimos.

Como agora estão na oposição ao bispo prefeito, tais corporações de mídia afirmam que o atual vice-prefeito não paga IPTU desde 2001. O ex-ministro da Coração Valente, quando senador, foi autor de iniciativas legislativas para aumentar a farra de isenções das igrejas. Por exemplo, isentar de pagamento de IPTU a igreja que for inquilina. Com a proposta, as prefeituras deixam de arrecadar recursos que poderiam financiar a contratação de funcionários públicos para garantir direitos da população, ou salários menos indecentes para alguns deles (como os professores), e sobra mais dindim após passar as sacolinhas (bênção, Chico Anysio!).

O goveno estadual do Rio faliu antes mesmo do início dos Jogos Olímpicos de 2016. A Prefeitura do Rio está às portas da falência – já anda atrasando salários da área da saúde, fazendo não se sabe o que com recursos carimbados que vêm direto do Ministério da Saúde. (A gestão de amplas fatias do orçamento da saúde foi doada a organizações sociais que fazem a farra com os recursos, sem qualquer controle da Prefeitura, polícia, MP, tribunais de contas etc. A isso se chama “modernização administrativa e gestão”, modelo colocado em prática pelo PSDB, pelo qual já passaram Cabralzinho e Duda. Em se tratando dos partidos da ordem, está tudo junto e misturado. Não custa lembrar que, na gestão de Paes finda em 2016, o vice-prefeito era do Partido dos Trabalhadores; na campanha de 2008, a CUT-RJ apoiou-o; a então presidente da entidade afirmou que o projeto “do Eduardo Paes representa a possibilidade de avanços para a classe trabalhadora“. Com lideranças com tal capacidade de avaliação política, não surpreende que a classe trabalhadora esteja levando ferro em cima de ferro.)

O ginásio do Maracanãzinho e parque aquático Júlio Delamare permanecem fechados. O estádio de atletismo foi destruído. Mesmo o saqueado e esculachado Maracanã recebe poucos eventos por mês. Ao lado, a UERJ está à beira de fechar. Nas proximidades, o tiro come solto quase todo dia no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, e no São João, no Engenho Novo. O ex-governador, o bilionário e um ex-secretário de obras da Prefeitura estão presos. Colegas de gestão e de partido, contudo, continuam governando o estado e presidindo a Assembleia Legislativa, como se nada tivessem a ver com os esquemas anteriores.

O Estádio Olímpico não se chama mais João Havelange. Para o que foi a gestão de recursos dos Jogos Pan-Americanos, e a imensidão de dinheiro que se gastou para construir um estádio superfaturado que pouco depois fechou porque o teto ameaçava cair, tratava-se de uma justa homenagem a este prócer do esporte brasileiro e grande amigo das Organizações Globo.

A tal “Cidade dos Esportes” estampada no carnê não existe mais. Foi ampliada, gastando-se um mundaréu de dinheiro público e violando-se trocentos direitos humanos e garantias fundamentais (durante parte do governo Eduardo Paes, o secretário de Habitação da Prefeitura que violava o direito à moradia de centenas de famílias era Jorge Bittar, do PT), para se tornar o Parque Olímpico. Este, por sua vez, é composto por dezenas de equipamentos fechados e/ou abandonados, que para nada servem, mas custaram e custam um dinheirão. Parque Olímpico, Cidade dos Esportes: nomes-fantasia de um projeto de rifar a cidade, bem como os recursos, imóveis, terrenos, instituições e setores do serviço público para especuladores, bilionários e/ou bandidos, brasileiros e estrangeiros. O COI levou embora centenas de milhões de reais de lucro da Olimpíada, enquanto o Comitê Organizador segue firme sua política de calote olímpico. Ministério Público, polícia e Poder Judiciário fazem cara de paisagem. Em 6/8, o jornalista Elio Gaspari escreveu o seguinte na ditabranda Folha de S. Paulo:

“O ex-prefeito do Rio Eduardo Paes precisa de um banho de folhas de arruda. Na quinta-feira deu aos cariocas um longo artigo falando bem de Eduardo Paes e comemorando sua Olimpíada.

O sujeito lia o texto do doutor, aprendia que sua gestão foi exemplar e estão aí obras como a linha da Transcarioca. O infeliz ligava a televisão e via a Polícia Federal levando para a cadeia Alexandre Pinto, secretário de Obras de Paes, acusado de morder as empreiteiras que fizeram a obra da Transcarioca.”

“XV Jogos Pan-Americanos: Ganha a Cidade, ganha o turismo, ganha você”: mais uma ficção numa era repleta de inveções e mentiras amplificadas pelas Organizações Globo como se fossem uma maravilha. Na cidade olímpica:

  • Onibus é chamado de “metrô de superfície”;
  • Tapumes para esconder as favelas em torno da Linha Vermelha dos que chegam ao aeroporto internacional são denominadas “barreira acústica“;
  • O próprio terminal 1 do Galeão, que ficou anos sendo reformado pelo Governo Federal (alô, Coração Valente!), está fechado. O dinheiro público foi gasto antes de se privatizar o aeroporto, evidentemente. Ajeitou um terminal que hoje não recebe voos ou passageiros;
  • Muros para cercar os pobres é chamado de “ecolimite“;
  • Ações frequentemente ilegais de criminalização da pobreza e de repressão a camelôs e ambulantes são celebradas como “choque de ordem”;
  • A Chacina do Pan foi saudada pela revista Época, também da família Marinho, pela “inovação” no combate ao crime.

A roda continua girando, nos poderes municipal, estadual e federal. Fecho com o mesmo Elio Gaspari, no The Globe de hoje:

“Quem acreditou que o prefeito Marcelo Crivella mudaria os métodos nas negociações com o aparelho da Fetranspor não comprou gato por lebre. Comprou gato por gato.

Um dos conselheiros de Crivella era Rodrigo Bethlem, que havia sido o “xerife” da ordem pública de Eduardo Paes e quindim da máfia das empresas de ônibus.

Paes foi aquele prefeito que pretendeu multar os cariocas que jogassem guimbas de cigarro na rua. Hoje ele vive em Nova York.


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