“De uso exclusivo das Forças Armadas”

17/2/2018

Desde que eu me entendo por gente (bota aí meados pro final dos anos 1980), quando eu era criança pequena – lá em Niterói, não em Barbacena -, cresci ouvindo rádio AM. Mantenho o hábito, mas há muitos anos só tenho paciência para os programas sobre futebol (e, mesmo assim, nem sempre aguento a quantidade de idiotices faladas por minuto nas mesas redondas). Os aparelhos da casa estavam sempre ligados na Rádio Globo. A família ouvia o Show do Antonio Carlos todas as manhãs – com algumas das figuras que estão nele até hoje, como a Zora Ionara.

Na programação esportiva da Rádio Globo havia muitas entradas de um repórter policial, Alberto Brandão (que depois foi para a Tupi, como parece ter acontecido com muita gente). A forma e o conteúdo das notícias que construía, quando se tratava de autos de resistência, casavam com a descrição que, anos depois, eu veria descrita, destrinchada e criticada no excelente Rota 66, do Caco Barcellos. Óbvio que só fui me dar conta disso já adulto, após ler o livro.

Mas não é disso que eu queria falar. Quando tratava de apreensão de armas com criminosos, o repórter nomeava as armas, informava os calibres e os tipos de munição. E, com certa frequência, destacava, ao se referir a certas armas e/ou munições: “de uso exclusivo das Forças Armadas”. Naquela época, criança/adolescente, eu não atentava para o quanto de informações sobre o mundo real do crime organizado no Rio de Janeiro havia nessa expressão.

Posso estar enganado, mas acho que a expressão também aparecia em outras matérias policiais da época. Aliás, naquele tempo, os veículos e corporações de mídia não ocultavam nomes de torcidas organizadas violentas; nem de redes de solidariedade no crime (vulgo “facções criminosas”) criadas e fortalecidas nas cadeias, sob responsabilidade do Estado. (Deixando claro: provavelmente o jornalismo das corporações de mídia, na época, era tão ruim quanto o de hoje. Não estou aqui sendo saudosista de um jornalismo sem notícias mentirosas/fake news. No universo dos oligopólios de mídia brasileiros, isso nunca existiu.)

Já em meados da primeira década do século XXI, fui esbarrar com o mesmo repórter fazendo o mesmo tipo de reportagem na Rádio Tupi. Forma e conteúdo permaneciam os mesmos – ao menos soavam assim para mim. Mas a expressão mágica “de uso exclusivo das Forças Armadas” desapareceu. Desapareceu, me parece, não só das reportagens dele, mas da cobertura de crime em geral.

Aonde quero chegar? Parafraseando Elio Gaspari, Eremildo é um idiota. Ele acredita que a expressão desapareceu porque membros das Forças Armadas – especialmente no entorno da Baía de Guanabara – não transam mais armas, munições y otras cositas más com a bandidagem atuante em terras fluminenses.

*  *  *

Da série “não custa perguntar”: quando é que o Tribunal Superior Eleitoral vai decidir a respeito do recurso da chapa Pezão/Dornelles, já cassada pelo TRE/RJ? Depois que o mandato acabar, tipo processos de Romero Jucá e colegas peemedebistas, tucanos e pefelinos no Supremo Tribunal Federal?

A postura é previsível, considerando o que são o Judiciário e esse tribunal. Velocidade e prioridade inversas às que tiveram quando se tratou de referendar a cassação de Jackson Lago (PDT) do cargo de governador do Maranhão por abuso de poder econômico (sic). Com a medida, Sarney filha voltou a morar no Palácio dos Leões, aquele belo imóvel estatal que, para uma certa família, é como se fosse propriedade privada.

Anúncios

Um livro

17/2/2018

Richard Russo – Um homem quase perfeito

Um livro tão bom com uma tradução tão ruim para o português… Diria que a qualidade da tradução é inversamente proporcional à da obra. Uma frase exemplar: “Terence Watters, por outro lado, age como se ouvisse uma fita de música ambiental num fone de cabeça.” (p. 212) Música ambiente e fone de ouvido inexistem no léxico da tradução. Há trocentas frases equivalentes.

É um dos grandes livros de ficção sobre o que é ser professor universitário. Do quilate do maravilhoso Professores, de Carlos Gerbase. Só que, em vez de uma universidade privada do Rio Grande do Sul, se passa no oeste da Pensilvânia (EUA). Um trecho:

“De quantas reuniões como esta participamos até o fim nos últimos vinte anos? Quantas horas, semanas, meses totalizariam se medidas nas colheres de café de Prufrock? Quantos bons livros deixaram de ser lidos, ensaios de ser escritos, quantas pesquisas foram interrompidas, para dar espaço a reuniões de fritar os miolos como esta? Quantos livros eu próprio poderia ter produzido?”

Em tempo: pelo que me consta, são perguntas que, na UFRIO, quase ninguém faz.

Rapidinhas

16/2/2018

Governo federal decide por intervenção no Rio“, escancaram as manchetes do dia.

Deixa eu ver se eu entendi: o Mordomo de Filme de Terror, chefe do quadrilhão federal, decretou intervenção na segurança pública do Rio. Afinal, tiroteios frequentes atrapalham os negócios… Organizar o crime é preciso – por que não fazê-lo a partir de cima?

*  *  *

No mundo civilizado do Hemisfério Norte, funciona assim: se você mata indiscriminadamente e as autoridades dizem que você é árabe, muçulmano ou descendente, você é terrorista. Se você não pertence a estas categorias, pode matar à vontade, porque terrorismo o seu ato nunca será.

Uma música

2/2/2018

Beirut – Santa Fe

Coisa linda de se ouvir.

Uma música

27/1/2018

Os Paralamas do Sucesso – Luís Inácio (300 picaretas)

Uma música

26/1/2018

Red Hot Chili Peppers – Dark Necessities

Em novembro de 2017, publiquei no História(s) do Sport um texto a partir dessa maravilha de videoclipe (e de música!): “Videoclipe como fonte histórica“.

Uma música

13/1/2018

Pearl Jam e convidados – Rockin’ in the Free World

Depois que Stone Gossard lança a bola vem o ataque das mil guitarras. Versão matadora.

Uma música

12/1/2018

Ivete Sangalo, Margareth Menezes e Daniela Mercury – Faraó + Elegibô + O que é o que é

Pupurri da melhor qualidade. Três divas sinistras e músicas fodas.

Uma música

11/1/2018

Os Paralamas do Sucesso – Viernes 3am

Maravilha do Serú Girán, banda de Charly García, que conheci graças à generosidade dos Paralamas (no Hey Na Na – um grande disco, aliás, daqueles que é todo bom). Junto com De Musica Ligera (Soda Stereo), são duas das músicas de que mais gosto de minha banda favorita.

A Proposição 65 da Califórnia, informação e democracia

10/1/2018

O aviso acima veio com um HD externo que comprei recentemente. Colocado por determinação da Proposição 65 da Califórnia, diz o seguinte: “Este produto contém componentes químicos, incluindo chumbo, que o Estado da Califórnia sabe que causam câncer e defeitos de nascimento ou outros riscos reprodutivos. Lave as mãos após manuseá-lo.“. Na parte exterior da caixa, está escrito: “Produto montado nas Filipinas, com drive fabricado na China ou nas Filipinas”.

Pensei em quatro coisas:

– Considerando os mecanismos de financiamento eleitoral e a serviço de quem (cartéis, conglomerados empresariais, empresas privadas) a maioria dos parlamentares atua, tanto nos EUA quanto no Brasil, quais seriam as chances de uma lei com essas características ser aprovada?

– O quão importante é aproveitar a ocasião em que as pessoas são convocadas a votar para que elas possam decidir sobre outros assuntos, leis, propostas de lei, de mudanças sociais etc. Na Califórnia, um dos lugares do mundo em que isso ocorre com mais frequência e abrangência, a aprovação por sufrágio garantiu recentemente a legalização da maconha para uso recreativo – ou seja, vender, comprar, consumir e portar maconha não é mais crime. São atividades legalizadas, sujeitas a controle estatal, o que inclui a qualidade e condições de armazenamento e venda dos produtos, o processo de produção, impactos para o meio ambiente, composição química, recolhimento de impostos etc. Já a Proposição 65 foi aprovada pelo povo californiano em novembro de 1986.

– A fabricação em série de produtos (sem saber ao certo para onde cada item/lote será enviado) e, provavelmente, a possibilidade de multas na Califórnia (não por fabricar e vender mercadorias contendo substâncias que causam câncer e outras doenças, mas por não avisar isso aos consumidores) levam a Toshiba a, por via das dúvidas, tacar o aviso dentro de todas as caixas – mesmo não sabendo sequer identificar onde os componentes foram fabricados, por mais bizarro que isso seja (bem vindos ao capitalismo realmente existente…). Então, graças a uma lei aprovada por voto popular em uma unidade da federação, os consumidores de todas os demais estados unidos da América do Norte ficam sabendo que o produto pode causar câncer e outros problemas – e, de passagem, que os poderes executivo, legislativo e judiciário de seus respectivos estados nada fazem a respeito. O mesmo vale para consumidores de outros países (desde que compreendam inglês, claro). Só fiquei sabendo que o HD externo tem componentes que a Califórnia sabe que podem causar câncer e afins, e que devo lavar as mãos após manuseá-lo, graças ao cumprimento da Proposição 65.

– Para quem quer saber mais sobre a relação entre iniciativas de consulta ao povo através do voto – como plebiscito, referendo e iniciativa popular – e suas contribuições para a melhoria e aprofundamento da democracia, recomendo um livro muito interessante da professora Maria Victoria de Mesquita Benevides: A cidadania ativa.


%d blogueiros gostam disto: