Rapidinhas

1/5/2016

Pra ler:

Fernando Molica – “Os admiradores do deputado da tortura

Elio Gaspari – “Eduardo Paes e sua realidade própria

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Pra ouvir:

– Dercio Garcia Munhoz – Entrevista ao Programa Faixa Livre

Trecho: “O Banco Central tem poderes absolutos e praticamente destruiu as finanças do governo. Por que você tem uma SELIC grande, falando em política monetária, numa economia parada? Tem que desmistificar isso e dizer: a SELIC nunca foi para controlar a liquidez da economia. A SELIC sempre foi um instrumento que [Henrique] Meirelles e companhia criaram, ou melhor, que o FHC criou e o Meirelles nadou de braçada nela, para você atrair capitais que não são seus e manter um nível de reservas que não são seus também. E, com isso, manter uma taxa de câmbio altamente valorizada, praticamente destruindo a indústria e os empregos, sem nenhum controle institucional.”

Em tempo: o PT, quando na oposição ao governo FHC, era contra a autonomia do Banco Central.

– Excelente – como sempre – entrevista de Rodrigo Ávila ao mesmo programa, seguida por um preciso comentário do apresentador Paulo Passarinho. Ambos nos ajudam a compreender a disputa em torno da dívida entre União e estados, e a quem esta dívida interessa. No meio do caminho, ficamos sabendo que a cobertura das corporações de mídia sobre o assunto está cheia de meias-verdades; de mentiras; e de acobertamentos de interesses e pilantragens da classe dominante.

Rapidinhas

25/4/2016

O Estadão publicou uma boa entrevista sobre esporte com Victor Melo, pesquisador do tema e professor da UFRJ. Infelizmente, trata-se de coisa rara, pois as corporações de mídia não se interessam por tais discussões em torno do esporte.

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Bom artigo de Luis Nassif sobre a posição do senador Cristovam Buarque (PPS/DF) de apoio à admissibilidade do processo de impeachment.

Lembro que perdi a admiração que tinha pelo senador durante sua campanha para a presidência da República, em 2006. A campanha só falava de educação, como se fosse possível governar sem ter posições quanto à taxa Selic, relações exteriores, superávit primário, reforma agrária, combate à pobreza, desemprego e outros temas. Sua recente mudança do PDT para o PPS consolida a notável guinada à direita. Contudo, continua lá, na biografia em seu site, que sua defesa da educação “é uma ideia que segue a linha de pensamento de importantes intelectuais brasileiros, como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire e Leonel Brizola“. Resta saber se algum colega do novo partido segue e defende o pensamento destas saudosas figuras. Acredito que não.

Rapidinhas

23/4/2016

A Pátria Educadora tá que tá. A concessionária de energia da cidade do Rio de Janeiro cortou a luz de três unidades da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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Evidenciando a qualidade, durabilidade e confiabilidade das obras da Cidade Olímpica, uma ciclovia inaugurada em janeiro desabou em abril. Ela apodreceu mais rápido que o teto do Engenhão, que durou seis anos.

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Excelente análise de Gilberto Maringoni na Carta Capital (via Luis Nassif):

“Embora o processo siga para o Senado, a sorte está lançada: o governo Dilma acabou. Melhor: chegam a termo 14 anos de lulismo. Temos em Palácio uma presidente que já não dirige o País.

O governo será – em poucas semanas – tomado de assalto pelo que há de mais apodrecido e corrupto na política brasileira. Setores sem voto e sem qualquer condição de alcançar o poder pela escolha popular se aboletarão no Planalto, na esplanada e nas estatais e darão prosseguimento a uma versão hard da cartilha que Dilma Rousseff já vinha adotando desde que jogou no lixo suas promessas e entrou de cabeça no programa do adversário de 2014.

É preciso denunciar o golpe para avançar. Tão real quanto essa assertiva, é forçoso dizer: sem apontar opções e erros cometidos, não se avançará. Não se trata de ir atrás de culpados, mas de saber que a responsabilidade pelos 7 a 1 não é dos alemães, mas de nosso próprio time.

O PT construiu, ao longo dos últimos 14 anos, um mito. O de que é possível mudar o Brasil sem conflitos ou rupturas.

Durante um tempo de crescimento econômico – por fatores externos – essa senda pareceu exequível. Em tempos de retração, não mais.”

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Duas outras boas análises:

1) “Afinal, o que quer a burguesia?“, de Paulo Passarinho.

2) “Jogo jogado?“, de Marcelo Badaró Mattos.

Um discurso

21/4/2016

Do vereador Renato Cinco (PSOL), esta semana, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, a respeito da fala do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ, ex-PP) no domingo:

Rapidinhas

20/4/2016

Monumental, devastadora e espetacular matéri840a de capa da Atlantic de outubro de 2015: “The Black Family in the Age of Mass Incarceration“.

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Algo que faltou na avaliação que publiquei ontem sobre a votação do impeachment na Câmara dos Deputados: eu sabia que nosso Congresso era ruim, mas fiquei surpreendido com as intervenções da maioria dos deputados – refiro-me mais às falas que ao voto/resultado.

Não sei se me sinto melhor ou pior ao ouvir o deputado federal Chico Alencar (PSOL/RJ), em quem votei algumas vezes, dizer que ele mesmo se surpreendeu com o grau de bizarrice da votação.

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O texto da semana passada no blogue História(s) do Sport foi meu: “Os Garotos da Praia de Waikiki: surfe, turismo, homens e mulheres“.

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Antes da trágica votação do impeachment, na sexta-feira o economista do Dieese Adhemar Mineiro deu esta excelente entrevista ao Programa Faixa Livre, dialogando com as usualmente inteligentes intervenções do apresentador Paulo Passarinho. Ambos concordam: o rodo vai passar (na economia, penalizando os pobres) e a porrada vai comer (repressão nas ruas). Em boa hora, o entrevistado chama a atenção, por exemplo, para a facilidade que o Governo Dilma Rousseff deu ao que a sucederá, ao aprovar medidas de repressão como a Lei Antiterrorismo.

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A se confiar na plataforma que uso para publicá-lo, esta semana este blogue completou duzentas mil visualizações. Há alguns anos ele está alheio às redes sociais que, cada vez mais, buscam fagocitar a internet. Está alheio inclusive por falta de tempo para jogar esse jogo, pois escrevo no meu tempo livre. A exceção são as pessoas que, espontaneamente, compartilham em seus perfis alguns textos que escrevo. Difícil saber o que esse número redondo representa, se é que representa algo… Seja como for, fica aqui meu agradecimento aos leitores e leitoras constantes, aos que assinaram para receber atualizações, aos(às) que me escrevem emails e/ou comentam. E, também, aos leitores eventuais que caem de para-quedas, por uma via ou por outra. Sejam todos(as) bem-vindos(as), hoje e sempre.

Sobre a votação de ontem na Câmara dos Deputados

19/4/2016

Os megaeventos esportivos como política de Estado

Durante a votação, não lembro de ter ouvido um deputado sequer mencionar a gastança com as obras para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 como motivo para o impeachment – muito menos a corrupção envolvida em boa parte delas. Reforçou-se minha avaliação – expressa em outros textos – de que os megaeventos esportivos são assunto de Estado no Brasil, assim como já o eram a política de juros altos e a prioridade do uso de dinheiro público para remunerar os ricos via juros e serviço da dívida: permanecem ao longo do tempo, acima de mudanças de governo e composição partidária nos Executivos e Legislativos. Oxalá um dia saúde, moradia, trabalho, educação e saneamento ganhem esse status.

Advanced Dungeons & Dragons

Falar o quê sobre a lamentável sessão? Abaixo está um vídeo – acho que com a obra completa.

Os holofotes e câmeras, assim como a transmissão ao vivo para telinhas, telas e telões em todo o Brasil e no exterior, abriram um portal para um universo macabro que deixa no chinelo Dungeons & Dragons (vulgo role-playing game, RPG), filmes de terror e a letra de Bichos Escrotos (Titãs). Ogros, leprechauns, salamandras, orcas, dragões, duendes, bruxas, crocodilos e, claro, ladrões saíram das entranhas do plenário e se dirigiram até o confessionário montado no meio do plenário.

Lembro muito bem da estranheza que senti quando uma deputada (em 8:0:06 no vídeo acima) disse que o voto era “em homenagem às vítimas da BR-251” e que o Brasil deveria seguir o exemplo de gestão do prefeito de Montes Claros (MG). A ser verdade esta notícia, entende-se do que ela estava falando (parece que é, pois foi publicada também num site confiável).

Em uns dez casos, fiquei com uma forte sensação de que o votante estava encachaçado.

Teve voto “pelo fim da vagabundização remunerada”, “pelos maçons do Brasil”, “pelas crianças do Brasil”, “pela paz, pela harmonia e pela concórdia” e muito mais. Um deputado disse que “ninguém vem das Minas Gerais à toa” e que “o Brasil caminha para onde o povo mineiro aponta” (em 7:55:25). Houve argumentos semelhantes com numerosos estados, cidades e regiões dentro dos estados (volto a este ponto adiante). Homenagens a igrejas abundaram (por exemplo, em 8:13:15). Como bem colocou o deputado federal Luiz Sérgio (PT/RJ), “nunca na minha vida, em um espaço, eu ouvi tantas vezes usar o nome de Deus em vão, como se fosse um panfleto” (em 7:00:15).

O forte sotaque de Felipe Bornier (RJ) contando os votos na mesa deu ao espetáculo um toque de apuração das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Da parte que me cabe quando vou à urna: todo o PSOL votou contra – e, em alguns casos, com frases antológicas, como a primeira de Glauber Braga. Mas Cabo Daciolo, infelizmiente eleito com ajuda do meu voto, foi a favor – na bizarra salada de sua declaração de voto, deu uma boa esculhambada na Rede Globo. E, não, não achei bonita a cusparada de Jean Wyllys em Jair Bolsonaro – mas só Jean sabe o que ele aguenta ali naquele ambiente e o que ouviu na ida e volta para votar. O problema é anterior: Bolsonaro já deveria ter sido cassado há muito tempo. Usando uma apologia futebolística: é possível deixar indefinidamente em campo quem quer furar a bola? Bolsonaro, que se diz contrário à corrupção, afirmou: “Tem um nome que entrará para a história nessa data pela forma como conduziu os trabalhos dessa casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha!” Pelo tom, não me pareceu que estivesse sendo irônico. O resto de seu pronunciamento foi ainda mais bizarro. Por falar nisso: em que pé ficaram os pedidos de cassação de seu mandato pelas barbaridades que falou à deputada Maria do Rosário?

Bom, resta falar alguma coisa sobre o resultado. Ora, o resultado é… o resultado do que está aí: um congresso composto majoritariamente por setores e partidos de direita sem compromisso com a democracia. São direitosos, mas fisiologicamente gelatinosos – estão na pista pra negócio, como no funk carioca. Soma-se a isso uma inacreditável proporção de fundamentalistas religiosos e a impressionante incompetência do Governo Dilma Rousseff para fazer política, e dá no que deu.

Em tempo: o crescimento da bancada fundamentalista evangélica e dos partidos nanicos sem ideologia contou com o estímulo – ou, no mínimo, a vista grossa – do Governo Lula, que via os fenômenos como mecanismo de sangrar os partidos nitidamente de oposição e direita (PFL e PSDB, principalmente) e aumentar a base aliada. O auge deste movimento se deu com a criação do inacreditável novo PMDB, digo, PSD por Gilberto Kassab e, logo depois, a entrada do partido no Governo Dilma Rousseff, com Kátia Abreu e tudo, ganhando ministério e o escambau. Ontem, o feitiço virou contra o feiticeiro. A tramitação no Senado trará nova oportunidade de avaliar as alianças políticas dos governos Lula e Dilma, bem como a sapiência da escolha dos aliados que levaram à Esplanada: bastará contar o número de ex-ministros de Lula e Dilma que votará a favor do impeachment.

Enquanto isso, o governo segue governando

O deputado federal Takayama (PSC/PR) declarou voto “contra a ladroeira. Contra a imposição que a esquerda do, desse partido que quer transformar o Brasil numa ditadura de esquerda (…)” (4:39:22). Ora, o governo está longe de ditatorial… e igualmente distante de ser de esquerda.

Enquanto centrais sindicais e trabalhadores estão nas ruas defendendo o governo, e alguns jornalistas “progressistas” continuam repetindo os mantras (o “agora, vai”, o do Dilma Bela Adormecida) que negam a realidade de que este governo é de direita e que, em vez de fortalecer o país, o Estado e a economia para quando vier a extrema-direita, está adiantando o serviço. Ora, antes da votação do impeachment na Câmara, o governo já tinha demonstrado que não será popular e de esquerda, por meio do planejamento para 2017 que enviou ao Congresso: mais do mesmo, ou seja, juros altos e demais elementos de uma política econômica neoliberal e trágica para o presente e o futuro do país. Quando Michel Temer chegar (e/ou o PSDB voltar) ao Planalto, o grande saldão de balanço terá sido facilitado pelo serviço adiantado nos governos do PT e, particularmente, neste lamentável e indefensável segundo governo Dilma Rousseff.

Reforma política na marra

Votos “pela Zona Oeste” (6:59:40) e afins, como se estivéssemos numa câmara de vereadores, apareceram nas falas de dezenas de deputados. Houve quem declamasse “O verde do teu mar / Angra dos Reis / A luz do teu luar / Angra dos Reis / O brilho do teu sol / Angra dos Reis” (6:48:48), que, vim a saber hoje, é o hino da cidade fluminense. Tais justificativas sugerem que muitos mandatos funcionam numa lógica distrital – sem que tenha sido feita uma reforma política que instituísse tal sistema de voto e representação. Dezenas de parlamentares votaram com bandeiras de estados – e, em alguns casos bizarros, de municípios – em volta do pescoço.

A julgar pela quantidade de referências religiosas, especialmente a Deus, e pelo teor delas – para vários parlamentares, o poder e a vontade emanam Dele, e não do povo, como estabelece a Constituição de 1988 – podemos acabar numa teocracia.

Por fim, a sessão de ontem sugere que está em vigor o referendo revogatório – instrumento pelo qual pode-se votar, durante o mandato de um eleito para o Executivo, se o mandato irá até o fim ou não. Considero o referendo revogatório um instrumento interessante para as democracias, e gostaria que ele existisse na nossa. Contudo, antes de ser aplicado por vias tortas no Congresso, ele precisaria ser criado e regulamentado pelo próprio Legislativo – de preferência, indo a referendo popular. O instrumento poderia estabelecer que, se X porcento do eleitorado assinasse um pedido de referendo durante, os Y primeiros meses/anos do mandato, o referendo seria realizado. Caso a maioria dos eleitores votasse pelo fim do mandato, este seria encerrado, e novas eleições seriam convocadas.

Sejam quais forem as especificidades, um princípio é fundamental e deve sempre ser preservado e obedecido: somente o voto do povo pode destituir quem foi eleito pelo voto do povo. Neste ponto, a democracia venezuelana, graças ao governo de Hugo Chávez, está melhor do que a nossa: lá existe o referendo revogatório. O que ocorreu ontem foi uma antieleição indireta. Como disse o jornalista Fernando Molica: “Brizola tinha razão“.

Em 2002, 2006, 2010 e 2014, após as vitórias nas eleições para a presidência, diversos quadros do PT afirmaram a urgência e necessidade de “fazer a reforma política”, que seria uma “prioridade” (lembro de ouvir, todo domingo de eleição, lideranças do PT de São Paulo repetirem isso na mesa-redonda da TV Bandeirantes). Passaram-se treze anos, e nada – afinal, as eleições foram vencidas, né? As consequências estão aí.

Ainda sobre a Pátria Educadora (2)

15/4/2016

Uma ótima crítica da falta de políticas públicas para tecnologia nas universidades: “Universidade sem tecnologia?“, de Rafael Evangelista, professor da Unicamp. (via Luis Nassif Online)

É bom lembrar: a falta de política pública para uma determinada questão é uma política pública.

A Unirio é um exemplo: as dificuldades de prover um serviço email que funcionasse foram “resolvidas” há dois ou três anos jogando para dentro do Google os endereços @unirio.br. Não fiquei sabendo de qualquer crítica ou ponderação a respeito, o que diz muito sobre a desatenção e desconhecimento em relação ao assunto por boa parte dos professores.

Mas, considerando que, em 2016, boa parte das universidades (incluindo a Unirio):

a) desconsidera a leitura e escrita de emails entre as atividades que ocupam horas de trabalho dos docentes;

b) continua selecionando professores por intermédio de uma etapa (entre outras) em que os conhecimentos são aferidos através de uma prova feita a caneta em folhas de papel almaço, ignorando a existência de computadores e a probabilidade de que tais exames (e os idênticos métodos de seleção de mestrado e, às vezes, doutorado) são a única ocasião em que as pessoas escrevem textos longos sem usar computador. Na verdade, tal método de avaliação é anterior à máquina de escrever.

Considerando estes dois itens, e o que é apontado no texto, é compreensível – e também triste e injustificável – que as universidades rifem a capacidade de desenvolver certas tecnologias. Na verdade, em instituições como a Unirio, é possível afirmar que se desistiu não apenas de desenvolver, mas de usar certas tecnologias: o prédio em que trabalho não tem laboratório de informática. Há seis anos e meio na instituição, ainda não fui agraciado sequer com uma mesa – algo mais simples que computador, software ou sistema de informação – para poder trabalhar. Eu e dezenas de professores que conheço.

É sempre bom lembrar que, de acordo com muita gente por aí (e de muita gente nas universidades federais), temos um governo de esquerda (ou de centro-esquerda) no país há 13 anos. E, desde o início do ano passado, estamos na Pátria Educadora.

Rapidinhas

12/4/2016

Finalmente vi Budrus, documentário de 2009 dirigido por Julia Bacha. Tinha ouvido falar bem dele faz tempo. Merece todos os elogios. É um belo filme sobre a ocupação israelense e, particularmente, o roubo de terras, a espoliação e a humilhação dos palestinos da Cisjordânia durante a construção do muro na região. É um belo filme, também, sobre as relações humanas e a solidariedade entre os povos. Sobre os corajosos jovens israelenses que botam a cara e os corpos nos territórios ocupados e se solidarizam com os oprimidos. Sobre o notável papel das mulheres nas sociedades e na luta por um mundo decente.

É, também, um excelente filme sobre o óbvio: a ocupação dos territórios palestinos inviabiliza a segurança de Israel. Por que a tenacidade, a dignidade e a coragem dos palestinos, até hoje, não conheceu limites.

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Trecho de resenha de William Deresiewicz sobre o livro Spain in Our Hearts, de Adam Hochschild, que trata da participação de milhares de voluntários dos EUA na Guerra Civil Espanhola – a maioria, jovens ligados ao Partido Comunista dos EUA, muitos deles judeus. Contudo, além desta juventude repleta de vontade e ideais, houve quem entrasse na briga apoiando o outro lado.

“Um dos norte-americanos envolvidos com a Espanha ficou muito feliz com o resultado [da guerra]. Torkild Rieber, presidente da Texaco, era um obstinado simpatizante fascista. Graças a Rieber, Franco recebia uma mercadoria essencial, que seus patronos alemão e italiano não podiam fornecer: petróleo. Fornecidos a crédito e frequentemente sem custos de transporte, os carregamentos eram ilegais sob o embargo [dos EUA em relação aos dois lados], mas, mesmo assim, tolerados pelo governo norte-americano. Mas Rieber fez mais. Ele empregou a rede global de escritórios e funcionários de sua empresa para passar informações sobre carregamentos destinados ao outro lado, permitindo aos nacionalistas atacar ou apreender os suprimentos de petróleo republicanos.

Rieber não era o único membro de sua classe entusiasmado pela causa fascista. (…)”

A resenha saiu na Harper’s Magazine de abril de 2016.

Ainda sobre a Pátria Educadora

8/4/2016

Além de, por questão de princípio, defender a democracia e o respeito à principal e definitiva instância de aferição da vontade do povo (o resultado das eleições), venho também destacando as medidas neoliberais do Governo Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores), que prejudicam o país e, em particular, justo aqueles setores da população que têm se manifestado em defesa do regime democrático – e, com frequência, também em defesa do governo.

Eu mencionava outro dia que “a desnacionalização do ensino superior privado” é uma das “iniciativas neoliberais dos governos federais do PT“. Ou seja, os governos federais do PT tomaram duas decisões políticas: a) fingir que não viram a desnacionalização; e b) desperdiçar muito dinheiro do orçamento da Educação destinando-o às empresas e instituições privadas. Ao fazê-lo, transferem para o exterior preciosos recursos extraídos da sociedade brasileira. Sabe As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano? Pois, é.

Esta forma de transferência de dinheiro público para o exterior, via educação, condiz com o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso (Partido da Social Democracia Brasileira) e com a gestão de Paulo Renato Souza no Ministério da Educação. Contudo, ela é criação e responsabilidade dos governos do PT. Entidades da área de educação, incluindo federações e sindicatos que se apelegaram desde 2003, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e o Proifes, nada ou quase nada dizem sobre o assunto. Seguem apoiando o governo de forma quase automática. Seus dirigentes serão julgados pela história – talvez, antes, perdendo os empregos e vendo se deteriorarem suas condições de vida, como há anos ocorre com milhares de professores do ensino superior privado.

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Com os cortes no Orçamento que comentei outro dia, segundo o Jornal da Ciência, “a pasta da CT&I [Ciência, Tecnologia e Inovação] registra pior orçamento dos últimos dez anos“. Pelo que entendi, a matéria compara os valores nominais. Se forem comparados os valores reais (corrigidos pela inflação), pode piorar.

Soma-se a isso o bloqueio (ou corte) de bolsas recentemente promovido pela Capes. A Associação Nacional de Pós-Graduandos, em geral bastante apoiadora dos governos federais do PT, criticou.

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Enquanto setores da sociedade brasileira lutam de todas as formas para garantir a manutenção das regras do jogo democrático e, em muitos casos, também apoiar o Governo Dilma Rousseff, este enviou ao Congresso, no fim de março, o Projeto de Lei Complementar 257/2016. O projeto é tão radical no que propõe em termos de cortes, retirada de direitos dos servidores públicos e precarização de nossas condições de trabalho – além de mudanças para pior na política de valoziração do (ainda muito insuficiente) salário mínimo -, que gerou este posicionamento do Progoverno, digo, Proifes, o sindicato dos professores federais que apoia o governo:

O PROIFES-Federação repudia totalmente este raciocínio e acredita que o projeto de lei, pelo modo como onera o funcionalismo público, não apenas será ineficaz em seus objetivos, mas terá efeito francamente contrário ao pretendido; uma vez que, ao diminuir seu quadro estável de profissionais ficará impossibilitado de oferecer à população, mesmo em parte, os direitos que lhe são garantidos na constituição e cujo provimento é exatamente o objetivo da gestão pública. De modo perverso, ao tentar resolver o problema fiscal e instituir uma política emergencial de controle de gastos, o PLP incapacita este mesmo Estado a operar como deveria, garantido direitos constitucionais da população.

O projeto versa principalmente sobre a renegociação das dívidas de estados e municípios e embute pacotes de maldades como os citados. Para piorar, “tramita em regime de urgência no Congresso Nacional“. Ou seja, um Congresso conservador recebe um pacote de medidas neoliberais do governo. À parte a briga política em torno do impeachment e assuntos afins, na política econômica está tudo dominado. Parece haver um amplo consenso entre Executivo e Legislativo, que periga aprovar aquilo que o Proifes classifica como um “pacote anti[s]serviço público“. Repito: o pacote é do governo do Partido dos Trabalhadores, governo que conta com amplo apoio de entidades representativas dos trabalhadores como CUT, CNTE e Proifes.

Como era de se esperar, o Andes, sindicato que faz oposição de esquerda ao governo (o que inclui uma alergia à assinatura de acordos), classificou o projeto corretamente como “parte do pacote de ajuste fiscal iniciado pelo governo, no final de 2014. As medidas, que buscam manter o pagamento de juros e amortizações da dívida ao sistema financeiro e aumentar a arrecadação da União, atingem diretamente o serviço público e programas sociais“. E pegou mais pesado nas críticas – a meu ver, repleto de razão.

O projeto é tão neoliberal que gera críticas do Andes e do Proifes e aproxima as posições de ambos. Como, aliás, ocorreu durante a greve do ano passado.

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A ser verdade esta notícia, quem frequenta as delegacias fluminenses vai precisar fazer como na paródia da música natalina, que sugeria limpar com jornal. Singela comparação: em seis anos como professor da Unirio, conto nos dedos de uma mão (suja) as ocasiões em que havia sabão nos banheiros do prédio em que trabalho. Papel toalha para enxugar as mãos é tão raro quanto. Papel higiênico, ao menos, tem.

O inacreditável contraste entre as coberturas política e esportiva: uma questão a pesquisar

2/4/2016

Lado A: em 2/4/2016, a chamada principal do Globo Online (captura de tela ao lado), é claro, era sobre impeachment. Nas últimas semanas e meses, todos os veículos de comunicação das Organizações Globo vêm atuando politicamente para enfraquecer e derrubar, seja como for, o governo Dilma Rousseff. Tenho escrito sobre isso, e lido mais ainda, mas o tema deste texto é outro.

O Globo 2-4-2016Lado B: a parte superior da página exibia também notícias sobre os Jogos Olímpicos de agosto. Sob a rubrica RIO 2016, havia quatro chamadas:

“- ‘NÃO OUÇAM OS PESSIMISTAS’ – Scharzenegger: ‘Jogos Olímpicos serão espetaculares’

– CERIMÔNIAS – Rio-2016 procura voluntários que dancem forró

– MOBILIDADE – União autoriza mais R$ 1 bi para linha 4 do metrô

– DECIDIDO – Campeão do sexo masculino será o primeiro a levar a tocha”

O tema deste texto é a discrepância entre as abordagens dos dois temas acima, que estou seguirei chamando, para facilitar, de Lado A e Lado B. Destaco quatro aspectos:

1) Positivo x negativo

Lado A: a cobertura de (quase) tudo relativo aos governos petistas é negativa. Em especial, nas últimas semanas (mesmo quando a desvalorização do real frente ao dólar favorece as exportações e a balança comercial, por exemplo). “Só sabem roubar”, “o país vai acabar”, “precisava aprovar a pena de morte para todos os corruptos”, “só nos resta fugir para a Flórida”, “nunca vi “governo tão ruim”, “a moralidade acabou” e afins abundam nos comentários das notícias, como reação a uma realidade em grande parte construída pelo noticiário. Quem cortou contato eletrônico com algum familiar desde as eleições de 2014, ou muda de assunto quando vai a um aniversário e desconhecidos (ou pior ainda, conhecidos) começam a falar do “mar de lama”, levanta a mão.

Lado B: os Jogos Olímpicos serão realizados num país em crise. Neste momento, é impossível saber quem estará na Presidência (um absurdo, considerando que o mandato vai até 2018). Realizar tais megaeventos contribuiu, contribui e contribuirá para a pindaíba em que estão o Brasil, o Rio de Janeiro (estado) e o Rio de Janeiro (município) – voltarei a isto no item 3. É uma tremenda transferência de recursos públicos para empresários nacionais e, pior, estrangeiros, com pouca geração de empregos, quase nenhum recolhimento de impostos etc. Contudo, a visão dos Jogos é sempre positiva. Nas quatro chamadas, é tudo bonito, feliz, bacana. Até a referência a derrotismo e pessimismo aparece nas palavras de quem propõe que tal visão é equivocada: Arnold Schwarzenegger, invocado por O Globo para nos ajudar a interpretar o Brasil e nos posicionarmos de forma correta face aos acontecimentos. Pra quem já foi o exterminador do futuro, tá pimpão e vivaz, ele. Agora, e se tivesse dito o mesmo – “Não ouçam os pessimistas” – a respeito de declarações da Coração Valente ou de algum de seus grandes ministros, como teria agido The Globe? Estamparia na página principal, sem contestação de Merval e Noblat na coluna mais à direita (diga-se de passagem, nunca na história desse país jornalistas políticos ficaram tão adequadamente posicionados)? Seja como for, o house organ da Casa Branca já teve brasilianistas melhores.

2) Corrupção x não-corrupção

Lado A: A corrupção aparece em muitas notícias sobre o governo federal e sobre o PT. É comum envolverem empreiteiras que recebem dinheiro público para fazer obras contratadas pelo Estado.

Lado B: As federações esportivas são administradas por políticos eleitos por mecanismos menos democráticos que deputados, presidentes etc. Tal como o Sistema S, as entidades esportivas administram dinheiro público grosso e bens públicos, mas não estão sujeitas aos mecanismos de controle do Estado (como licitações para obras e prestações de contas e relatórios de pesquisa). O grosso das obras da Olimpíada envolvem as empreiteiras de sempre. Considerando o caso do Rio de Janeiro: desde a (trágica) escolha da cidade para sediar os Jogos, em 2009, o PT está à frente do Governo Federal; faz parte do governo estadual (ocupando secretarias nos governos de Cabralzinho, por exemplo) e, mais ainda, do municipal (o vice-prefeito é Adilson Pires, do PT). Contudo, olhando as quatro chamadas e o grosso do que divulgam as Organizações Globo sobre os Jogos Olímpicos, inexiste corrupção. Será? Ou melhor, como diria Didi Mocó: Cuma? Se é assim, estaríamos melhores com Nuzman que com Moro presidente!

3) Dinheiro rolando solto para roubar x dinheiro rolando solto para “mobilidade”

Esse aspecto é o mais gritante, e também o mais canalha.

Lado A: muita gente que lê este noticiário está segura de que todo dinheiro gasto pelos governos do PT é suspeito, tudo que se fazem é roubar ou tentar roubar etc. Nesta visão, a sociedade brasileira, íntegra até a raiz dos cabelos, é vítima desse bando de criminosos que se apossou do Planalto para meter dinheiro público no bolso. Não importa que motivos e argumentos apresente o governo para suas decisões: todas elas têm o objetivo último e único de roubar. Nas redes antissociais, qualquer um que pondere que isto pode não ser verdade vira advogado de defesa de ladrões e, um comentário depois, petralha ladrão.

Labo B: contudo, existem os Jogos Olímpicos e a obra do Metrô do Rio de Janeiro. O metrô do Rio é horroroso. As expansões de linha única minimalista inventadas pelos governos do PMDB/PT vai torná-lo ainda pior. É caro, ineficiente, restrito e desconfortável (chamem os governos paulistas do PSDB, por favor! Desmoronam umas obras matando gente aqui, some um dinheiro acolá, mas o metrô está sempre crescendo, em rede, e ganha novas linhas que são mesmo linhas, e não extensão da linha única já existente). Soma-se a isso o fato de que os seguidos governos do PMDB tanto fizeram que faliram o estado do Rio, que anda numa de horror, atrasando (“parcelando”, segundo O Globo) salário de professor e policial militar (a conferir se a pindaíba produzirá solidariedade de classe e, na próxima passeata de professores estaduais, os PMs deixarão de distribuir tiro, porrada e bomba). Quando se autoriza um bilhão de reais para uma obra superfaturada gerida por um governo do PMDB, não se trata, evidentemente, de pedalada fiscal, nem de erro, nem de violar Orçamento, nem de arrombar os princípios mais sagrados da política nacional (o superávit primário e a Lei de Responsabilidade Fiscal!), nem de governo Dilma como sujeito da frase. É a “União”, é a busca da “mobilidade”, é o “todos juntos, vamos, pra frente, Brasil”. Assim caminha a mobilidade: pezão ante pezão. A discussão política desaparece: no esporte, somos todos Pachecos, pronto, acabou. Mas, claro, pode e deve haver discussão política. Uma boa crítica deste novo empréstimo é feita no vídeo abaixo pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL/RJ), que elenca o rosário de fiados anteriores, que darão contribuição decisiva para falir o estado do RJ e encher os cofres das empreiteiras (a construção do metrô é só a justificativa para a transferência de recursos; é o meio, e não o fim):

4) Trabalho x voluntariado

Lado A: Um dos motivos para as corporações de mídia demonizarem os governos do PT e o partido é por considerá-lo pró-trabalho, comunista, anticapitalismo e antipatronato. Antes fosse… Basta vez quantos direitos dos trabalhadores (previdência social, lei antiterrorismo, greves, perseguição de grevistas no serviço público, terceirização etc.) foram retirados ou precarizados desde 2003. Contudo, imagem é tudo, então é com ela que se fica. Ademais, trabalhadores podem lutar, se organizar, se solidarizar. Podem até ler Marx e acreditar que existe mais-valia! Melhor banir a palavra do léxico, e transformar todo mundo em empreendedor, associado, colaborador etc.

Lado B: Os megaeventos esportivos geram bilhões de dólares de lucros para entidades bandidas como FIFA e COI. Um dos motivos é que, em vez de remunerar os trabalhadores que exploram, os recrutam como voluntários, para poder explorar ainda mais. Voluntários são muito mais legais que trabalhadores. Não reclamam ou têm sindicatos para lhes proteger, estão sempre bem-dispostos e sorridentes, não custam nada e podem ser dispensados sem problemas.

*  *  *

O texto acima é impressionista, apressado e escrito no calor do momento (a maior parte do que penso e do que tinha a dizer sobre a realização, entre 2007-2016, de megaeventos esportivos no Brasil está neste capítulo do livro A Copa das Copas: Reflexões sobre o Mundial de futebol de 2014 no Brasil). Contudo, se aplicadas a um corpus significativo, através de observação sistematizada, podem render pesquisas científicas. São bons temas para trabalhos de mestrado e doutorado em ciências humanas – em Comunicação, mas não só. Há muito o que pesquisar, por exemplo, sobre as diferenças estruturais e narrativas entre a cobertura do esporte e de outros assuntos, tema da reflexão que fiz acima. Contudo, infelizmente, boa parte dos jovens pesquisadores continuam interessados em fazer repetitivas pesquisas sobre os mesmos assuntos, quando se trata de esporte. Existem milhares de pesquisas a fazer sobre o esporte com potencial de contribuir para a compreensão da sociedade brasileira (e/ou de estados, cidades, regiões, períodos históricos, classes sociais etc.). Resta fazê-las.

 


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