Trevas numa manhã de sábado

30/3/2015

Sábado retrasado, 21/3/2015, durante a manhã, passei rapidamente pela praça em frente à sede do Batalhão da Polícia do Exército (PE) na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca.

Havia cerca de 15 pessoas vestidas com camisas do Brasil e motivos verde-amarelos e camuflados, agitando bandeiras e exibindo faixas. Entre elas, uma que defendia “intervenção militar já”. O busto localizado naquela praça, de Rubens Paiva, estava coberto por um capuz preto. (A associação com um dos métodos para vendar as vítimas dos regimes ditadoriais – entre as quais o próprio ex-deputado – é explícita).

Existem pelo menos dois aspectos que considero graves neste tipo de acontecimento.

1) Uma defesa da liberdade de expressão como direito absoluto, tal qual figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ) fazem repetidamente, de forma a ganhar salvo-conduto para proferir barbaridades.

2) A não associação destes discursos com a apologia ao crime. Vivemos num país em que os integrantes da banda Planet Hemp – que defendem a legalização da maconha – foram presos por “apologia às drogas”, mas um ato como o que testemunhei na Tijuca não é considerado apologia ao estupro, apologia ao homicídio, apologia à tortura, apologia às lesões corporais, apologia ao sequestro, apologia à destruição/ocultação de cadáver, enfim, apologia ao crime.

Para entender melhor do que estou falando, recomendo a leitura do depoimento de Dulce Pandolfi às comissões Estadual e Nacional da Verdade, ocorrido em maio de 2013 no plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Estão lá o Batalhão da PE, os capuzes pretos cobrindo a cabeça, as torturas e outros crimes. Partes do depoimento estão no vídeo abaixo:

Rapidinhas

29/3/2015

Duro, muito duro aturar os jogos de mais um campeonato estadual horroroso no Rio de Janeiro. As partidas são tão ruins que sequer consigo ver as do Flamengo…

*  *  *

Trecho da boa matéria “Conservadores avançam e flertam com golpismo”, de Igor Felippe Santos, na Caros Amigos deste mês:

“JUDICIÁRIO

Depois da Ação Penal 470, os procedimentos da Operação Lava Jato, como prisões espetaculares e vazamentos, colocam em debate o papel dos atores do Judiciário e da PF na disputa política no País, especialmente pelas decisões que coincidem com interesses da oposição aos governos do PT. ‘Não considero que o Judiciário em si seja um poder de oposição ao governo Dilma. É papel constitucional do Judiciário conter excessos ou ilicitudes do Executivo e seus agentes. E isso não pode ser interpretado como uma atividade política no sentido partidário. Por outro lado, é inegável que os juízes fazem parte de um processo social em que educação de qualidade é um privilégio dos setores mais abastados da população’, afirma [‘o jurista e advogado Pedro Estevam Serrano, professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e doutor em Direito do Estado’] Serrano. Segundo ele, os juízes são selecionados por concursos de conhecimento e a maioria deles são egressos de um segmento privilegiado da sociedade, limitados por uma visão de classe que tem implicações na dinâmica dos conflitos políticos. Ele porém rejeita qualquer ‘teoria da conspiração’ que envolva uma articulação política da oposição com o Judiciário. Mas pondera que ‘a interpretação jurícida acaba sendo condicionada pelo senso comum de nossas elites, que hoje realmente é de oposição. O governo do PT sofre ferrenha oposição da classe média alta urbana, segmento do qual a maioria dos juízes participa e se origina, logo são influenciados. Os juízes são distantes do cotidiano das práticas partidárias. O que há é essa formação de senso comum, de ideologia de classe, que até inconscientemente atinge a maioria deles’, pontua.

Para [o ‘professor titular de Ciência Política da Unicamp’] Armando Boito, a história demonstra que o Judiciário é a penúltima trincheira das forças reacionárias no Estado capitalista, atrás apenas das Forças Armadas. Segundo ele, existe uma convergência de interesses da alta classe média e da burocracia de Estado, que se manifestou no apoio público no Facebook de delegados federais que atuam na Lava Jato no Paraná à campanha de Aécio Neves. ‘Os procuradores, desembargadores e juízes pertencem à alta classe média e, como tal, se sentem afetados e ameaçados pelas medidas tímidas de política social que o PT tomou. Enquanto burocratas, incumbidos de zelar pelo cumprimento das leis, eles têm um apego muito grande à ideia de ordem e sentem que isso pode estar ameaçado pelos movimentos sociais que identificam com o PT’, avalia o cientista político.

Luiz Araújo, [presidente] do PSol, acredita que os resultados da Lava Jato atestarão a orientação do poder das togas. ‘O Judiciário age motivado pelo conservadorismo, pela pressão governamental, mas também pelo clima geral no País. A Lava Jato é um bom teste. Caso consiga investigar a fundo o financiamento privado de campanha, os vínculos profunso das empreiteiras com o Estado e punir corruptor e corruptores de todas as épocas, pode fazer um serviço relevante para a melhoria da nossa precária democracia. Porém, pode ser limitada e seletiva também.'”

Um vídeo

13/3/2015

Fora Coronéis da Mídia

(Intervozes, Brasil, 2014)

 

Uma música

11/3/2015

Deep Blue Something – Breakfast at Tiffany´s

Uma música

1/3/2015

Planet Hemp – Zerovinteum

Coisas da TV no esporte

25/2/2015

Ouvindo a ESPN referir-se ao telespectador como “fã de esporte”, me ocorrem duas coisas. Primeiro, achar ridícula a expressão. Segundo, ficar pensando: “Imagina se fosse a ESPN a elaborar uma lei para garantir os direitos dos torcedores: o nome seria Estatuto do Fã de Esporte.” Feio, pra dizer o mínimo, né?

Também achei curioso o tom de “Plantão do Jornal Nacional” e “parem as rotativas” do comunicado com que a emissora alardeia a chance de transmitir um jogo do Flamengo. Um insosso Brasil de Pelotas x Flamengo, pela primeira rodada da Copa do Brasil, ganha ares de acontecimento transformador da segunda década do século XXI. Muito interessante, ainda mais para uma emissora que, no Brasil, se pretende crítica e denunciadora das mistificações relacionadas ao esporte.

Este canal, aliás, é a cara do capitalismo e da mentalidade hegemônica em nosso tempo: ter importa mais que ser. Digo isso a partir da programação dela, que, tal como o Quico do Chaves, o tempo todo alardeia que tem isso e tem aquilo. Talvez o faça por saber a pouca relevância que tem o que ela é.

*  *  *

Por falar em coisa feia, o tal cara ou coroa eletrônico no início das partidas do Rio Open. Feio do ponto de vista estético e discutível do ponto de vista ético…

Apontamentos metodológicos: biografias de atletas como fontes

23/2/2015

Publicado originalmente em História(s) do Sport:

Por Rafael Fortes

As biografias de atletas de ponta são, creio, o principal filão editorial envolvendo o esporte. No segundo semestre do ano passado, li livros sobre Kelly Slater, Rafael Nadal e Roger Federer. Em comum, o fato de serem esportistas que admiro e estarem em atividade (e entre os melhores) em modalidades de que gosto e com as quais tenho razoável envolvimento: pesquiso e escrevo sobre surfe desde 2005 e, nos últimos três anos ou quatro, tenho visto e jogado tênis.

Neste texto, discuto alguns aspectos destas obras desde um olhar da história do esporte.

Quatro pontos para pensar

1) Trata-se de biografias publicadas há poucos anos sobre atletas relativamente jovens (independentemente da idade, jovens, capazes e motivados o suficiente para, ao final de 2014, estarem entre os três melhores na principal liga profissional de suas respectivas modalidades), em atividade e com títulos a conquistar. Ou seja, por um…

Ver original 1.005 mais palavras

Uma música

7/2/2015

Leonardo – Beber, Beber

Um livro

4/2/2015

Fernando Sabino, em A cidade vazia (originalmente publicado em 1950):

“O essencial é não perder tempo, e a leitura, durante a viagem, na falta de outra ocupação, satisfaz rigorosamente esse preceito. Além disso, tem a virtude de pôr o passageiro a par do pensamento comum da Nação, porque o que ele lê em Nova York, está sendo lido ao mesmo tempo em todas as grandes e pequenas cidades dos Estados Unidos. A sindicalização jornalística, além de reduzir ao mínimo o noticiário local e anular completamente as divergências regionais de gosto, interesse e necessidades, uniformizou a mentalidade dos leitores num nível que elimina a concorrência, tornando mais fácil a tarefa de influenciá-los. A tácita colaboração entre dois jornais originariamente concorrentes, na manutenção do gosto padronizado do leitor, faz com que estes fujam de suas posições opostas e eliminem o ‘furo’ para cair no clima neutro das manchetes, comentários e até editoriais em comum, onde se tornam gêmeos sem serem irmãos (New York Times x Herald Tribune; Daily News x Daily Mirror etc.). E assim fica assegurada à Nação a certeza de que a opinião pública poderá ser rapidamente preparada, como se diz do exército e da marinha, ‘para qualquer eventualidade’.”

Um livro

2/2/2015

Francisco de Oliveira, no excelente Crítica à razão dualista, de 1972:

“Longe de ser uma proposição reformista, o acesso das grandes massas da população aos ganhos da produção foi sempre uma condição sine qua non da expansão capitalista, mas a expansão capitalista da economia brasileira aprofundou no pós-ano 1964 a exclusão que já era uma característica que vinha se firmando sobre as outras e, mais que isso, tornou a exclusão um elemento vital de seu dinamismo.

A superação dessas contradições não é um processo que possa ocorrer espontaneamente, nem os deserdados do sistema podem sequer pensar que uma reconversão da economia brasileira aum padrão menos desigualitário é uma operação de pura política econômica. No estágio atual, nenhuma das duas partes pode abrir mão de suas próprias perspectivas: nem à burguesia se pode pedir que abra mão da perspectiva da acumulação, que é própria dela, nem às classes trabalhadoras se pode pedir que incorpore a perspectiva da acumulação que lhe é estranha. Essa situação conduz, inevitavelmente, as constradições da infraestrutura a uma posição de comando da vida política do país: a luta privilegiada transforma-se necessariamente em contestação ao regime, e a luta pela manutenção da perspectiva da acumulação transforma-se necessariamente em repressão. Essa dialética penetra hoje os mais recônditos lugares da vida nacional, em todas as suas dimensões, em todos os seus níveis: qualquer lugar, qualquer atividade, é hoje um campo de batalha, da música ao cinema, das atividades educacionais aos sindicatos, da oposição consentida ao partido situacionista, do pregão da Bolsa à pregação do padre; desapareceram as questões específicas de cada uma das atividades per se, para colocar-se como problemática indisputada a questão da manutenção do status quo ou o seu oposto. Melancolicamente, até mesmo a frágil oposição armada que tentou erguer-se contra o regime foi esmagada como o último apelo romântico ao sistema para que se reformasse em nome da justiça social. Nenhum determinismo ideológico pode aventurar-se a prever o futuro, mas parece muito evidente que este está marcado pelos signos opostos do apartheid ou da revolução social.”


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