“Cabe ao atleta decidir”

10/2/2016
Dia sim, dia não tem notícia nas corporações de mídia sobre dirigentes esportivos e atletas estrangeiros declarando (ou comentando declarações sobre) o receio de ir ao Rio para os Jogos Olímpicos, especialmente atletas mulheres, por causa do zika, e tal. Pois bem: me impressiona que a chamada das matérias sempre destaque, não importando o sentido e o conteúdo da posição da pessoa, alguma fala de dirigente dizendo que “a decisão final cabe ao atleta”.
Ora, mas quando não coube? Desde quando comparecer aos jogoso representando um país é o mesmo que alistamento militar obrigatório aos 18 anos ou, para um reservista, apresentar-se quando convocado para a guerra?
Obviamente existem pressões de diversas origens – empresas, patrocinadores, governos, família, colegas e rivais atletas etc. – para se participar de competições. Mas a onipresença da frase, como se ela fosse uma novidade e terminasse a discussão, tem me impressionado – nova evidência da mediocridade do nosso jornalismo esportivo. É mais ou menos como a ubíqua declaração de prefeitos, governadores ou ministros, quando há greve no funcionalismo público: “a greve é política”. Como se a declaração, tola em si, fosse capaz de revelar uma verdade há muito oculta e encerrar a conversa.

Muitos aspectos poderiam ser analisados nesta nova onda do jornalismo sobre esporte. Por exemplo, o fato de que apenas declarações de atletas e dirigentes de países centrais do capitalismo viram notícia (nada sabemos da hesitação ou não das e dos atletas de Portugal, do Quênia, da Indonésia, do México ou da Ucrânia). Vai ver, só essas pessoas se preocupam com a própria saúde. Só os atletas destes países, caso não compareçam, vão fazer falta. Só essas vidas, no fim das contas, importam. A colonização segue firme e forte no plano das mentalidades.

Uma música

10/2/2016

Ben Harper & The Innocent Criminals – Call It What It Is

Novo petardo do homem. Excelente letra.

Atiraram nele pelas costas

Agora é crime ser negro

Então não finja surpresa

Quando o vandalismo chegar

Um evento

4/2/2016

Existem momentos na vida – bons e ruins – pelos quais a gente nunca imagina que vá passar. Ontem tive um dos bons. Ouvi um ex-militante dos Panteras Negras.

Sekou Abdullah Odinga é um senhor que usa bengala, passou mais de 30 anos preso e foi libertado em novembro de 2014 – na verdade, está em condicional. Poucas vezes vi na minha frente, falando em público, alguém com tamanha dignidade e tranquidade. Sabe aqueles momentos em que você sente uma iluminação, fica arrepiado, e tal? Foi assim.

Abaixo está o cartaz do evento, que teve outras falas extraordinárias: de Johanna Fernandez, professora da City University of New York.11935169_945127352201153_4743131367474558270_o

Havia ainda dois jovens de San Diego, vítimas – com outros 31 – de um episódio bizarro de abuso de poder e de caso forjado pela polícia. Passaram sete meses presos, até que foram soltos porque não havia nada: crime, vítima, provas, testemunhas etc. Tratava-se de uma experiência para colocar em prática uma lei recente de combate a gangues.

Muitas diferenças com a nossa história, mas algumas coisas em comum, como a repressão brutal com classe e cor, elemento fundamental do capitalismo neoliberal. Um dos objetivos do debate era chamar a atenção para a existência, em 2016, de dezenas de prisioneiros políticos nos EUA. (Isso sem contar Guantánamo e a política externa, claro.) Temos em comum, também, a escolha do crime como assunto principal da sociedade, e a construção de uma narrativa que permite a repressão violenta a setores subalternos sob a justificativa de que se está combatendo ao crime. Isto pode ocorrer pela ação do Estado. E também pela das pessoas – os “cidadãos de bem” que voluntariamente cometem crimes ao linchar pessoas. Se você é jovem, negro, morador da periferia e veste uma camisa do Flamengo, as chances crescem consideravelmente.

Rapidinhas

9/1/2016

As medidas neoliberais tomadas pelo governo Dilma Rousseff (PT) jogaram a economia brasileira no buraco em 2015. Ao contrário de assumir os erros e mudar o rumo, em 2016 vêm aí… novas medidas neoliberais, como o aumento da taxa básica de juros, arrotado aos quatro ventos pelo jornalismo econômico esotérico das corporações de mídia nos últimos dias. Em vez de ouvir as runas, as cartas do tarô, os búzios, os astros ou a borra de café, ouvem uma entidade fantasmagórica e pró-bilionários chamada o mercado.

As novas medidas neoliberais, se levadas a cabo, resultarão num buraco ainda maior. Como afirmei em texto de 13 de novembro de 2015, a inflação “é um espantalho discursivo apresentado para justificar medidas econômicas que concentram renda, aumentam a subordinação e submissão do país no cenário internacional, pioram as condições de vida de nossa população, fragilizam a maior parte das empresas nacionais – exceto os bancos, o agronegócio e as empreiteiras (a tríade que, como afirma o professor Reinaldo Gonçalves, é a grande favorecida, no plano interno, com a política econômica neoliberal das últimas décadas) – e drena, para o exterior e para o mercado financeiro, preciosos recursos necessários para garantir serviços públicos de qualidade e uma vida decente para nossa população.” Segundo Luis Nassif, jornalista econômico que é exceção à regra criticada por mim no texto, “a melhor amiga do Banco Central é a inflação“. O espantalho segue firme e forte.

Segue firme e forte, também, o amplo apoio ao governo Dilma Roussef entre setores (anterior e supostamente) críticos e de esquerda: intelectuais, sindicatos, partidos, movimentos sociais, veículos de comunicação e jornalistas. Afinal, se é para sermos governados por uma política econômica neoliberal e antitrabalhador, ao menos que seja aplicada por um governo nosso. Qualquer semelhança entre as políticas econômicas do Palácio do Planalto e o bipartidarismo de direita que vigora há décadas em boa parte da Europa Ocidental, assim como nos EUA, não é mera coincidência. No futuro, haverá quem classifique este fenômeno como amadurecimento da nossa democracia.

Setores hidrófobos da direita antipetista – jornalismo das corporações de mídia na linha de frente – hão de discordar, evidentemente. O governo do PT joga seu jogo na política econômica, mas, para estes setores, não importa: não se trata de discutir as regras, o andamento, a cadência ou as táticas do jogo: a única saída é furar a bola.

Um show

13/12/2015

Pearl Jam – Acústico

Gosto particularmente da versão de “Porch”. Detalhe: em 1992, a banda já se manifestava publicamente a favor do direito da mulher decidir sobre seu próprio corpo – aborto.

Rapidinha dominical

7/12/2015

Se o penúltimo parágrafo desse texto é verdade, a Receita Federal, o Ministério Público e o Ministério do Trabalho talvez tenham algo a investigar. Se é mentira, o UOL é que deveria ser investigado. Eis o parágrafo:

Na reta final da competição, Eurico pagou uma premiação de R$ 40 mil por jogador para cada vitória da equipe. O cartola realizava o pagamento logo após as partidas, ainda no vestiário.

E viva o jornalismo brasileiro.

Um discurso

6/12/2015

Excelente discurso de Bernie Sanders, pré-candidato do Partido Democrata à presidência dos EUA, num evento partidário em 29 de novembro de 2015. Me peguei parando o que estava fazendo para prestar atenção, admirado. Até na política externa, tema em que considero praticamente indiferentes os partidos hegemônicos dos EUA, falou coisas interessantes.

Um vídeo

5/12/2015

Vale a pena ver de novo.

 

Rapidinhas

4/12/2015

Infelizmente, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro continua assassinando jovens negros, pobres, do sexo masculino e moradores dos subúrbios e favelas. O rodo cotidiano segue firme e forte, com as vítimas de sempre. E as autoridades estaduais continuam tratando cada novo episódio como se fosse algo isolado, em vez de assumir a existência de problemas estruturais sérios.

No discurso reproduzido no vídeo abaixo, Renato Cinco falou coisas básicas e verdadeiras que passam ao largo das notícias e debates a cada caso desses. Enquanto não abordarmos essas questões de maneira madura e racional, permaneceremos num debate cujo nível é tão raso que, como diria Nelson Rodrigues, poderia ser atravessado a pé por uma formiguinha, com água pelas canelas.

Marcelo Freixo tocou em outras questões igualmente importantes:

Na reflexão de ambos, um dos elementos que aparece como responsável pela perpetuação e pelo estímulo deste estado de coisas é o pavoroso papel desempenhado pelo jornalismo das corporações de mídia.

Embora as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) tenham trazido uma nova roupagem, a estrutura segue a mesma. Permanecem os padrões de policiamento anticivil. Este artigo que escrevi em 2007, infelizmente, segue atual. O modus operandi é o mesmo, a alegação de auto de resistência é a mesma, a tentativa de alterar a cena do crime é a mesma, a reação das autoridades é a mesma etc. etc. etc.

*  *  *

Também de vento em popa estão as políticas neoliberais do Governo Dilma Rousseff, que corta gastos ligados à garantia de direitos da população, mas não corta os gastos com os ricos (taxa de juros).

A proposta de impeachment é uma bad trip digna de filme de quinta categoria – inclusive pela abundância de canastrões envolvidos. Só pode piorar nossa democracia, conforme lucidamente disse em nota a Associação Brasileira de Ciência Política.

Dito isso, cabe outro comentário: é incrível a quantidade de mandatos que já saíram das urnas de outubro com cara de validade vencida. Como naquela música: “o novo já nasce velho”.

*  *  *

Finalmente a Unirio, mais governista que o governo, deu o primeiro sinal explícito de ter sido atingida pela pindaíba.

Rapidinhas

26/11/2015

Estamos preocupados com as consequências do que aconteceu com a barragem em Mariana (MG). Estamos? Mas não com as causas.

Estamos preocupados com os atentados de Paris (França). Estamos? Mas não com as causas.

Estivemos preocupados com os jovens de Santa Maria (RS). Mas o que fizemos, como indivíduos, sociedade, Estado, poder público, eleitores, para promover mudanças estruturais, de forma que nunca mais aconteçam desgraças daquele tipo?

Estivemos preocupados com o Carandiru… Eldorado dos Carajás… Caso Amarildo… Seca no sertão de Pernambuco… Enchentes no litoral de Santa Catarina… Estivemos?

Se há preocupação de fato com as causas de Paris, deveríamos retirar, para ontem, nossas tropas do Haiti. E ter um papel mais altivo contra os países imperialistas e colonialistas de hoje e de ontem. Contudo, no horizonte político e midiático brasileiro, faz muito tempo que as questões e ordem do dia são bem outras.

*  *  *

Pingou na caixa postal um texto interessante: “Soccer jihadists seek to exploit widespread sense of abandonment“, do jornalista James Dorsey. Como em muitos casos, recomendo a leitura dos últimos parágrafos, onde está o mais importante. Neste, dos sete últimos. Eles abordam questões que considero muito importantes.

 

 


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