Um filme

1/12/2016

Cientistas brasileiros: César Lattes e José Leite Lopes. Sobre dois grandes cientistas que eram também grandes nacionalistas e grandes brasileiros, dotados de um imenso amor pelo país. Pensavam a nação, a soberania nacional, a importância da produção de conhecimento para que o país pudesse ter autonomia no cenário internacional. Produziam ciência de ponta, mas com uma inteira noção de seu papel e de seu trabalho no contexto das relações internacionais e da soberania. Circularam por universidades e instituições de pesquisa de ponta dos países centrais do capitalismo, mas não se deslumbraram com isso, nem se venderam.

Tudo isso são palavras, conceitos, categorias, possibilidades incompreensíveis ou inexistentes para os que se aboletaram no governo, e para os neoliberais que só pensam em rifar a preço de banana o patrimônio estatal do país, mandando para as cucuias qualquer possibilidade de soberania e de futuro decente para o povo. Não por acaso, uma das primeiras providências desta turma foi acabar com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Leandro Fortes sintetizou bem: “Tiraram uma presidenta eleita para instalar esta pocilga“.

Uma música

26/11/2016

Beirut – Elephant Gun

 

Podem a memória, as lembranças, o passado ser algo que consigamos enterrar – ou abater, como animais num jogo de caça?

Rapidinhas

24/11/2016

É bom ouvir quem sabe das coisas. O professor Dercio Garcia Munhoz, da Universidade de Brasília, argumenta: “não há déficit da previdência” e afirma claramente de onde vem o problema central de nossa economia: “o Banco Central e o Ministério da Fazenda quebraram o país“. Ainda segundo ele, “não há nenhum país no mundo (…) que arrecade 900 bilhões em impostos e pague 500 bilhões em juros“.

Uma das tragédias do momento atual é que as mesmas políticas que nos levaram à lona continuam a todo vapor, conduzidas, em parte, pelas mesmas figuras (vide Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central durante o governo Lula, ex-deputado federal eleito pelo PSDB e com ideias idênticas às executadas por seus antecessores do governo FHC). Pior: os que nos governam, as corporações de mídia, a direita como um todo e até mesmo setores da esquerda propõem mais do mesmo para conter a crise.

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O aparente consenso entre setores da direita se mantém em torno de medidas econômicas que causaram a crise, e que se quer aprofundar sob a desculpa, sem qualquer fundamento econômico concreto (mas brandida como questão de fé, afinal, voltamos aos tempos do pensamento único – na verdade, em algum momento saímos dele, economicamente falando?), também foi criticada nesta análise de Luis Nassif. Exceto pelo ramo financeiro, o rumo em que estamos é suicida até para os demais ramos empresariais, incluindo a comunicação (malgrado os volumosos aportes de dinheiro público após o Mordomo de Filme de Terror tomar posse). Contudo tais setores, capitaneados pela Fiesp, aplaudem a farra do capital financeiro e a destruição do país e da economia nacional (inclusive os setores privados).

Rapidinhas

23/11/2016

Para entender o que anda acontecendo no Rio de Janeiro, ajuda muito ouvir a longa e esclarecedora entrevista do deputado estadual Flavio Serafini (PSOL/RJ) ao economista Paulo Passarinho, no Programa Faixa Livre.

Complementa esta discussão a excelente mesa-redonda, realizada no programa de sexta-feira sobre a liquidação da Petrobras que vem sendo realizada pelo governo do Mordomo de Filme de Terror. Um crime de lesa-pátria que relembra ações do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), como a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, com consequências nefastas para o povo e o Estado brasileiros – no passado, no presente e no futuro.

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Outro aspecto importante da crise econômica que vivemos é a condução da dívida pública, que tira um volume imenso de dinheiro da prestação de serviços e da garantia de direitos da população, conforme explica muito bem, em entrevista, o economista Rodrigo Ávila.

 

Rapidinhas

18/11/2016

O momento é de intensa confusão. Gostei dessa análise de Luis Nassif, que ajuda a colocar pingos em alguns is, sobretudo no cenário nacional. O prognóstico do que vem pra tevê, infelizmente, é sombrio.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL/RJ) faz o mesmo, focando na tenebrosa situação fluminense. Mais do que contribuir para o diagnóstico, felizmente o partido apresenta também propostas concretas para a crise do estado, como, por exemplo, aumentar a taxação dos lucros de concessionárias de serviços públicos.

 

Rapidinhas

14/11/2016

Apesar do horror principal, houve muitos resultados secundários interessantes nas últimas eleições nos Estados Unidos. Um deles: mais três estados, incluindo a Califórnia, legalizaram o uso recreativo (ou seja, liberado) da maconha.

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Seria cômico, se não fosse trágico, o governador do estado declarar – eu vi, ninguém me contou – que a invasão da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, semana passada, foi “caso de polícia”.

Aliás, interessante também a reação da Polícia Militar: muito diferente do que faria se os que protestavam fossem estudantes ou professores. E das corporações de mídia, ao classificar os manifestantes como manifestantes (e não como vândalos ou bandidos, como costuma fazer). Vai de vento em popa a lua-de-mel da direita e da classe dominante com a PM.

Em separado, em outro veículo do mesmo grupo empresarial, uma notícia da série “como e por que o PMDB faliu o estado do Rio”.

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Excelente artigo de Elio Gaspari a respeito das velhas e novas pilantragens envolvidas nas privatizações do patrimônio estatal brasileiro.

No caso das privatizações de telefonia e da empresa Oi, vale a pena ouvir esta esclarecedora entrevista de Gustavo Gindre.

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Pelo visto, a disputa das corporações de mídia pela bufunfa da Prefeitura do Rio vai continuar pesada, com um possível realinhamento em função das preferências do novo eleito. É dinheiro que poderia ir para creches ou hospitais, mas vai para o bolso dos empresários, ajudando-os a ficarem ainda mais milionários ou bilionários.

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Por falar em empresas parasitando dinheiro público, um interessante texto de Luis Nassif a respeito do STF e os interesses da indústria farmacêutica.

E, em se tratando de empresas vampirizando trabalhadores, que tal a M. Officer condenada por exploração de trabalho em condição análoga à de escravidão? A modernidade do capitalismo paulista, locomotiva da nação, fica evidente na explicação da integrante do Ministério Público do Trabalho:

“É o que a gente chama de Sweating System [Sistema do Suor], em que as oficinas misturam local de habitação e trabalho, com moradias coletivas, exploração de mão de obra imigrante, principalmente de bolivianos, tráfico de pessoas, jornada exaustiva, péssimas situações de segurança e higiene. Nós fomos em várias oficinas seguidas e verificamos que é um tipo produtivo que essa empresa adota”, explicou.

Ainda segundo a matéria, a empresa, evidentemente, disse que não tem nada a ver com a história e ainda se negou a propor acordo.

Outro dado interessante: a lei estadual que aplica sanções a empresas condenadas pela prática, como o banimento do cadastro do ICMS, foi autoria de um deputado estadual do PSDB.

A notícia saiu no Brasil de Fato, jornal que faz jornalismo e, por isso, não atrai empresas interessadas em anunciar.

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Pingou na caixa postal leitura que dá o que sentir e o que pensar: “Cómo convertirte en feminista“.

Uma breve homenagem a Bert J. Barickman (1958-2016)

13/11/2016

A maré está mesmo ruim. Pingou na caixa postal uma notícia muito triste. Partiu o professor Bert J. Barickman, da Universidade do Arizona (EUA), especialista em História do Brasil.

Por volta de 2002, 2003, eu era um estudante de graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), quando, não lembro em que contexto, comentei com a professora de História do Brasil II que estava pensando num projeto de doutorado para pesquisar revistas de surfe (eu também fazia mestrado em Comunicação). Ela prontamente sugeriu que eu entrasse em contato com um professor americano, que falava fluentemente português e vinha sempre ao Brasil, e que estava iniciando uma pesquisa sobre a praia no Rio de Janeiro. “Pode escrever para ele em português”, ela me disse.

Bert respondeu meu email com um português e uma simpatia que me surpreenderam. Ao nos encontrarmos para tomar umas cervejas no Arco do Teles (numa época em que a entrada do arco ainda se enchia de mesas e cadeiras), deu várias dicas para o meu projeto e me estimulou a prosseguir com o tema. Mantivemos contato, e, ao longo dos anos, trocamos ideias e referências, e nos encontramos nas ocasiões em que ele veio ao Rio de Janeiro. Bert preferia o português de Portugal, ainda que um pouco desbotado pelas muitas visitas ao Rio. Escrevia em português praticamente com a mesma fluência de seu inglês nativo. Adorava Copacabana.

Bert pesquisou apaixonadamente o Brasil durante décadas. Deixou amigos sobretudo nos departamentos de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde cursou mestrado nos anos 1980, e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Publicou trabalhos em português e em inglês, entre os quais se destaca Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860 (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003). Em português, veiculou seus artigos particularmente na revista Afro-Ásia.

De sua pesquisa sobre a praia do Rio de Janeiro, o trabalho publicado mais recentemente, que eu saiba, é o excelente “Medindo maiôs e correndo atrás de homens sem camisa: a polícia e as praias cariocas, 1920-1950“, que saiu na edição de junho de 2016 de Recorde: Revista de História do Esporte. Sobre a mesma pesquisa, em português, há outro excepcional artigo a respeito da cor da pele e do bronzeamento entre os anos 1920 e 1950. Espero que o livro venha a ser publicado um dia. Será uma contribuição imensa aos estudos históricos do lazer e da cidade do Rio de Janeiro.

Além de um pesquisador de mão cheia e um intelectual notável, Bert mostrou-se, a cada vinda ao Rio (e nos contatos por email) um colaborador generoso, sempre disposto a trocar ideias e indicar fontes, assim como a fazer perguntas, trazer dúvidas, pedir contatos de amigos. A intensa curiosidade e a busca do conhecimento o faziam avançar; a cautela e o compromisso com a cientificidade o faziam parar e contemplar, desconfiar, ponderar, problematizar. As conversas com cariocas às vezes eram demandadas por dúvidas sobre uma palavra, uma referência, um vídeo. Sua pesquisa sobre os usos da praia na cidade era complexa e difícil, sobretudo à medida que se aproximava do tempo presente, com os diferentes contextos, a dispersão e quantidade de fontes, a intensa midiatização das representações da praia e de seus frequentadores.

Perdemos um pesquisador sério, talentoso, progressista, generoso e que tinha um amor imenso pelo Brasil – amor que estimulou em muitos de seus alunos e orientandos, usando os mais variados métodos, incluindo apresentações de fim de curso heterodoxas com música, vestimentas e arte brasileiras no meio de bares de Tucson, Arizona.

Bert era um tremendo sangue-bom.

 

 

Rafael Fortes
Professor do Departamento de Ciências Sociais
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)

Um filme

11/11/2016

 

 

Vale a pena ver este excelente e belo documentário: Lute como uma menina! Dirigido por Flávio Colombini e Beatriz Alonso, trata das ocupações de escolas públicas iniciadas em novembro de 2015, em São Paulo. O movimento luta(va) contra o fechamento de escolas públicas imposto pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB).

Com boa parte da esquerda e do mundo sindical – incluindo o movimento docente dos professores universitários – enfrentando imensas dificuldades para unificar as lutas e atrair as pessoas para delas participar, a esperança vem dos estudantes. Mais ainda, das estudantes. Quem dá aula – de luta pela educação pública, pelo presente e pelo futuro – são elas.

O Brasil será melhor se escutar o que estas (e outras) garotas dizem.

(via Viomundo)

Rapidinhas

4/11/2016

Roberto Amaral, em excelente análise sobre o momento atual e o que cabe à esquerda.

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Gostei muito desta reflexão de José Luís Fevereiro, dirigente do PSOL, a respeito da campanha eleitoral no município do Rio de Janeiro e de seu resultado.

E desta outra, feita pelo jornalita Glenn Greenwald.

 

 

Rapidinhas

1/11/2016

Publiquei no História(s) do Sport texto sobre um livro do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, A guerra do futebol.

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Wanderley Guilherme dos Santos: mantendo-se as Organizações Globo como são e operam, “não haverá democracia estável no país“. Entre as muitas reformas/brigas necessárias para melhorar o país e nossa democracia que os governos Lula e Dilma se recusaram a fazer está a democratização da comunicação.

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Por falar em democracia, uma boa interpretação de Fernando Molica sobre o que significam candidatos que se apresentam como defensores “da família”. E uma boa análise do segundo turno das eleições municipais no Rio de Janeiro.


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