Exemplo instrutivo sobre plágio, mídia gorda e mídia democrática

Pipoca na caixa postal emeio de amigo indicando leitura de notícia em blogue d’O Globo a respeito de plágio no Hino do América (RJ). O texto, intitulado “Hino mais bonito do futebol brasileiro é um plágio de música americana“, foi publicado no blogue Bola de Meia.

Contudo, eu, que não acompanho a mídia gorda, mas leio assiduamente veículos da mídia democrática (alternativa, popular, nanica, progressista, de esquerda etc., embora os termos não sejam todos sinônimos), já tinha me deparado com nota coincidentemente semelhante no Futepoca, sob o título “O hino mais célebre do Brasil é um plágio?” O sítio divulgava uma informação levantada por outro blogue, o Futebol Alternativo e, corretamente, citava a fonte.

A ordem cronológica é:

28/1/2009: Futebol Alternativo

29/1/2009: Futepoca

2/2/2009: Bola de Meia

A diferença cronológica é um dado importante, mas não o fundamental. O jornalista do Globo afirma, respondendo ao comentário de um leitor de que a notícia é velha (velha no sentido de que o leitor ouvira a história antes, não no sentido jornalístico de notícia de dias atrás):

Caro Marcus, não sei se você viu, mas o blog é de Memória do Futebol, além de causos e curiosidades. A proposta do blog é essa, não é de ficar postando coisas novas. Essa história do hino do América nunca foi abordada dessa maneira, diga-se de passagem, até porque, com a possibilidade de assistir ao vídeo, fica evidente o plágio. A história das brahmas pode ser mesmo do Vicente Matheus, mas quem me mandou gentilmente foi um leitor, que a conhece em outra versão. Agradeço a audiência.

Pelo que se depreende, o “nunca foi abordada dessa maneira” exclui o Futepoca e o Futebol Alternativo. Portanto, parece que o jornalista d’O Globo coincidentemente teve a idéia de apurar o mesmo assunto poucos dias depois, fez uma pesquisa inédita e criativa e, o que é mais interessante, chegou às mesmas informações e atalhos para o Youtube.

Mesmo sabendo que se tratava de semear no deserto, deixei duas vezes o seguinte comentário no texto mencionado do blogue Bola de Meia:

“Por falar em plágio, acho que faltou o repórter citar que outros dois blogues comentaram o assunto poucos dias antes. Vai ver foi apenas uma grande coincidência ele subitamente ter resolvido pesquisar o assunto e dizer que “essa história do hino do América nunca foi abordada dessa maneira” (isso está escrito na resposta ao comentário de um leitor).

Consultem os links, leitores, e vejam vocês mesmos:

http://fatv.zip.net/arch2009-01-25_2009-01-31.html#2009_01-28_05_31_49-124042159-0

http://www.futepoca.com.br/2009/01/o-hino-mais-celebre-do-brasil-e-um.html

O comentário foi deixado na noite de terça-feira (3/2/2009), com intervalo de cerca de meia-hora entre as tentativas. Recebi uma mensagem automática dizendo que meu texto fora submetido à moderação. No momento em que escrevo estas linhas (23h de terça), já há comentários aprovados com horário bem superior àquele em que coloquei os meus. Pode ser que minhas considerações tenham sido jogadas automaticamente em uma pasta de lixo eletrônico, pois possuem dois atalhos. Pode ser também que tenham sido apagadas.

Seja como for, temos aqui (mais) um bom caso para reflexão a respeito do trabalho e do jornalismo (salvo as exceções, como é sempre bom lembrar) desenvolvidos na mídia gorda, monopolista, antiética e antipopular.

Confira os atalhos e tire suas próprias conclusões.

[Com atualizações nos comentários.]

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9 Respostas to “Exemplo instrutivo sobre plágio, mídia gorda e mídia democrática”

  1. Jurandir Paulo Says:

    Rafael, vem sendo prática comum na mídia corporativa darem pautas que saíram em blogs. Até aí, nada tão grave. Seria o mais natural, já que há vida inteligente, e muita, fora dos jornalões. O problema é que não citam as fontes. Um exemplo recente: capa da revista Megazine, do Globo, sobre os jovens israelenses que se negam a servir o exército por não concordar com a política de seu país. Foi assunto em vários blogs, com vídeos, links. O Globo naõ citou nenhum, como se fosse deles a descoberta.

  2. Rafael Fortes Says:

    É verdade, Jurandir. Quer dizer então que eu aqui, sem tempo e infraestrutura, fui um a furar O Globo nessa dos shministim?

    Pois é, a conhecida desonestidade dos conteúdos também impregna as práticas. Mais um aspecto que infelizmente os leitores desconhecem…

  3. Glauco Says:

    Rafael, muito bom o post. Na verdade, plágios ou falta de citação acontecem muito na internet. Já tive um texto “clonado”, mas escrevi para a pessoa que acabou citando a fonte correta. O que diferencia esse tipo de situação nos grandes veículos é que eles simplesmente ignoram qualquer possibilidade de errata, pois escamoteiam e censuram quem aponta o erro. Por isso que posts como o seu são fundamentais, já que divulgam tal prática e evidenciam o cinismo não apenas de veículos, mas de jornalistas (alguns, diga-se) que infelizmente se escondem por trás desse tipo de expediente.

  4. Rafael Fortes Says:

    Comentário de um colega (chegou por correio eletrônico):

    “Quando eu vi essa história do hino no site [Futepoca], vi também os comentários com o link para a matéria do blog do Globo e fui lá checar. Na hora, achei plágio, fiquei com a impressão de que o cara tirou a história de lá e não deu crédito.

    Mas há que ponderar o seguinte: no ambiente dos blogs (mesmo os jornalísticos), é muito comum copiar notícias/vídeos/imagens de outros lugares e fazer posts em cima deles. É claro que a regra de etiqueta e ética manda dar crédito (e link) de onde se copiou, mas quando é uma coisa que está espalhada por vários lugares (não sei se é o caso do vídeo do América), às vezes é difícil achar a fonte original e também não vale muito a pena citar “como visto no blog tal”, porque 500 mil outros blogs já estão reproduzindo também o vídeo, ele já faz parte do zeitgeist da web, digamos.

    Outra coisa que acontece com frequência é que blogs muito populares (como os do Globo) recebem muito material de leitores, material que usam como base para posts (nem sempre citando os leitores, o que é um erro também; mas, ocasionalmente, acontece a mesma coisa, 500 leitores mandam o link para o mesmo vídeo do YouTube, aí é difícil citar um). Se o cara do Globo recebeu só o link daquele vídeo (que tá no YouTube, pelo que eu vi), pode não ter sido uma coisa de má intenção – tipo, os leitores mandaram o link do vídeo da música original com uma mensagem do tipo “olha de onde tiraram o hino do América” e o sujeito, sem saber que já havia um post sobre isso, postou lá como se fosse original.

    Tendo em vista que o blog do sujeito é dedicado ao futebol e o que deu o furo também, isso tudo fica soando mais improvável – tipo, o cara precisaria ou não conhecer outros dois blogs ou não ter olhado eles desde a postagem da tal história. Enfim, é possível, mas é estranho. A melhor maneira é ver se o sujeito se manifesta a respeito, já que certamente deve estar recebendo e-mail e comentários acusando-o de plagiador.”

  5. Rafael Fortes Says:

    À medida que o tempo passa, a coisa vai ficando ainda mais instrutiva.

    Cerca de uma hora atrás (4/2/2009, 19h30), entrei novamente no Bola de Meia – vai que meus comentários haviam sido aprovados… – e, para minha surpresa, me deparei com um comentário do jornalista Olavo Soares, do Futepoca, questionando as “coincidências”. O comentário era irônico e educado.

    Agora (20h30), o referido comentário misteriosamente desapareceu do blogue. Definitivamente a verdade e o contraditório têm vida curtíssima na mídia gorda…

    Será a boa e velha manipulação da mídia gorda comendo solta? Ou são apenas mais coincidências se acumulando?

  6. Rafael Fortes Says:

    Numa discussão do Orkut, vejo que percebo que várias pessoas já deixaram comentários no blogue Bola de Meia (O Globo) pedindo explicações. Mais uma coincidência: nenhum deles foi aprovado.

  7. Alexandre Esposito Says:

    E pior que essa semana fiz um post sobre plágio na música que, entre outros casos, citava justamente o do América, e usei como fonte o Bola de Meia… se não tivessem me avisado lá no blog, nunca saberia que o post deles também é plágio. Infelizmente isso é mais do que comum na internet.

  8. Rafael Fortes Says:

    Em 5/2, o jornalista responsável pelo Bola de Meia me escreveu um emeio bastante educado apresentando seu ponto de vista: o blogue é novo e ele fez uma pesquisa própria sobre a questão dos hinos. Utilizou os arquivos do jornal O Globo e chegou por esta pesquisa às informações e ao material que publicou no Bola de Meia.

  9. Bernardo Pombo Says:

    Quem quiser as provas da pesquisa, em PDF, basta me solicitar por e-mail.

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