Para não deixar passar em branco

O tempo para escrever por aqui anda mais escasso do que nunca, mas essas duas eu tinha que comentar – mesmo que em poucas linhas.

1) O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), quer vender terrenos da Prefeitura.

Perguntas: se o prefeito é incapaz de administrar o patrimônio público, o que faz ocupando o cargo? Por que se candidatou? Ele considera suficiente o número de escolas, hospitais, postos de saúde, bibliotecas, casas de acolhimento, creches etc. mantidos pela Prefeitura para garantir direitos à população? Inexiste a possibilidade de se utilizar estes terrenos para servir à população? Não deveria ser função do Estado conter a especulação imobiliária em nome do interesse coletivo, em vez de estimulá-la (o projeto prevê construção de prédios nos terrenos)?

Pelo visto, o prefeito continua governando para a especulação imobiliária da Barra da Tijuca, como em seus tempos de pessedebista. Que ele ia fazer um governo de direita, era previsível. O que eu não consigo entender e justificar é a participação de partidos como PT e PCdoB, bem como o apoio que a CUT e  PSB (não sei se está no governo ou não) lhe deram no segundo turno. O que faz e para onde vai esta esquerda sem bússola?

Para mim, propor privatização, doação ou venda de patrimônio público é assinar atestado de incompetência.

2) Praticando jornalismo de ficção adoidado, a Folha de S. Paulo referiu-se à ditadura do período 1964-85 como “ditabranda”.

Muitos protestaram. O jornal publicou a carta de dois professores e notáveis intelectuais seguida de nota achincalhando-os.

O pouco que li sobre o assunto me deixou oscilando entre muita irritação e náuseas em relação à atitude do jornal que se diz “a serviço do Brasil”. Vale conferir as reações de Gilson Caroni FilhoIdelber Avelar e Guilherme Scalzilli. Abaixo, um trecho de cada.

Gilson Caroni Filho:

Ver José Serra na presidência foi um sonho não realizado pelo patriarca da família Frias. Seus filhos não poupam esforços para realizá-lo. Seria interessante saber o que pensa de tudo isso o atual governador de São Paulo. Afinal, ele foi presidente da UNE, militou na Ação Popular (AP) e, com o golpe militar, viveu no exílio até 1978. Tido por muitos como um quadro “progressista” do PSDB”, deveria tecer alguma consideração sobre a “ditabranda” do jornal que o apóia. Serviria para esclarecer o que significa ser “ de esquerda” no tucanato.

Idelber Avelar:

Onde estão os jornalistas que se indignaram tanto e chamaram de “linchadores” os dois blogs que fizeram posts sobre as peroratas racistas da correspondente da Globo, agora que um jornal de 300 mil leitores chama de “cínicos e mentirosos”, por uma opinião política, dois professores com as histórias de Fabio Konder e Maria Victoria Benevides?

Guilherme Scalzilli:

A Folha, que comemorou o golpe e depois forneceu apoio logístico a torturadores e assassinos, manifesta-se continuamente contra a revisão da Anistia, ou seja, contra o julgamento dos bandidos que ela referendou. Como afirmei recentemente, a grande imprensa brasileira tenta pressionar o tribunal com essas ondas de indignação localizada, que, em momento propício, ganharão ares de campanha aberta.

Entre os comentários do debate suscitado em O Biscoito Fino e a Massa, gostei particularmente deste (número 114), em que o leitor Paulo C aplica espirituosamente e à risca o raciocínio tortuoso da Folha de S. Paulo para esculhambar os admiráveis professores uspianos.

Vale ainda conferir o breve compêndio de horrores praticados pela Folha durante o período da ditadura apresentado por Alipio Freire.

E o texto “Por que a Folha não publica cartas de Ivan Seixas?“, de Rodrigo Vianna (via Carta Maior). Na mídia gorda brasileira, vozes que apresentam contestação de fundo são silenciadas. Nem mesmo na seção de cartas pode haver pluralidade. Muito menos o atual ombudsman (aliás, ninguém mais propício que o atual ocupante para receber um cargo com nome em inglês), que está mais para relações públicas do chefe, se digna a responder a Ivan Seixas.

Futebol, Política e Cachaça, como sempre, trouxe uma perspectiva irreverente (e não menos crítica) sobre o episódio.

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Uma resposta to “Para não deixar passar em branco”

  1. Privatização dos serviços públicos no Rio, CUT/RJ e amnésia seletiva « A Lenda Says:

    […] forma, parece cada vez mais válida a pergunta que venho fazendo insistentemente (exemplos: 1 , 2): o que partidos como PT, PSB e PCdoB fazem na […]

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