Mídia gorda carioca, arbitragens e violência em campo

Entre os setores/editorias em que se divide a mídia gorda, um dos piores é, sem dúvida, o esportivo. A má qualidade e a inconseqüência (não, este blogue ainda não aderiu às mudanças ortográficas) de muitas posições e atitudes é gritante.

Desde a segunda metade dos anos 1980 (ou desde que me entendo por gente), e até recentemente, faltas violentas abundavam no futebol brasileiro. Dinho, Cocito, Luisinho, Nelson, Mancuso, Galeano, Lugano, Júnior Baiano são nomes de açougueiros que me vêm à cabeça sem pensar muito, sonolento numa manhã dominical, sem ajuda de mecanismos de busca. Muitos daqueles que estou esquecendo agora – e alguns dos que listei – celebrizaram a camisa 5 como algo a ser temido pelos adversários.

Pois bem, de um tempo para cá – um, talvez dois anos, quiçá um pouco mais – a arbitragem brasileira começou a ser menos leniente com a violência nos gramados. Acredito que isso está inserido num processo amplo de higienização (no mesmo sentido usado pelos historiadores para se referir às políticas em vigor em certas cidades brasileiras entre o final do século XIX e o início do século XX), que inclui: a expulsão dos pobres que querem assistir (cujo exemplo mais dramático e lamentável foi o fim da geral do Maracanã decretado pelo governo Rosinha Garotinho/PMDB) e trabalhar nos jogos, dentro e fora dos estádios; a adoção de um padrão politicamente correto nas transmissões esportivas da Rede Globo, com a condenação de quem fala palavrão (jogadores, técnicos, torcidas), tenta ganhar a qualquer custo etc.; aumento exponencial do preço dos ingressos (uma arquibancada do Brasileiro de 2006 custava R$ 15; hoje custa entre R$ 30 e R$ 40; o INPC acumulado de 2006/2007/2008 não chega a 15%); uso de câmeras para “flagrar” jogadores cometendo infrações e puni-los nos tribunais, algo pra lá de discutível, mas nunca discutido pela mídia gorda (para citar dois motivos: a) o número de câmeras utilizado na trasnmissão varia muito de jogo para jogo; b) são funcionários da emissora – especialmente o diretor de TV – que decidem o que vai ou não ao ar). Enfim, enquanto o Flamengo vai à falência e vende bons jogadores para o exterior sem que passem pelo time principal, a Rede Globo monopoliza e vampiriza o futebol brasileiro, tentando convertê-lo em um esporte politicamente correto e chato (o que é, senão isso, o Caio comentando?).

Feita essa contextualização apressada e incompleta, vou ao ponto: no meio disso tudo, a única coisa boa é que os juízes estão aplicando um pouco mais a regra no que diz respeito às faltas violentas. Ainda os considero coniventes com a violência – é mais fácil um jogador ganhar amarelo por reclamação ou por cavar uma falta do que dar um carrinho -, mas o grau desta conivência, aparentemente, se reduziu bastante nos últimos anos. E talvez – trata-se de uma hipótese – já tenha produzido algum impacto sobre a própria violência em campo, malgrado os pontapés que vemos.

*  *  *

Mas não estou aqui para falar da violência em si, nem dos juízes em si, mas sim do comportamento de comentaristas da mídia gorda. Aqueles mesmos que, durante mais de uma década, bradavam (e ainda bradam), jogo após jogo, que “o juiz tem que proteger quem quer jogar futebol”, que “a regra tem que ser aplicada para proteger o espetáculo”, que “o craque tem que ser preservado” etc.

Pois bem, agora os juízes  andam um pouco mais propensos a punir entradas violentas, inclusive dando cartão vermelho direto (sem passar pelo amarelo) e expulsando jogadores no primeiro tempo das partidas, medidas raríssimas até dois ou três anos atrás.

Aí o que fazem comentaristas, repórteres, narradores? Criticam os juízes por “excesso de rigor” ou, no caso do recente Vasco 2×0 Flamengo, por “excesso de rigor”, por “sair distribuindo cartões”, por “dar muitos cartões no início”, por “expulsar cinco jogadores “, por “prejudicar o espetáculo”. Ouvi tais achismos de variados especialistas, em diferentes emissoras de rádio e televisão.

Não vou discutir aqui, caso a caso, cada cartão amarelo e vermelho aplicado pelo árbitro da partida – até porque os pretensos especialistas que fizeram tais generalizações não o fizeram (tivessem feito, talvez não falassem tanta besteira) -, mas apenas tentar desconstruir as falácias que são repetidas:

a) “Excesso de rigor”

Essa é a única que, em certos casos, pode ser verdadeira. Ainda assim, seria preciso analisar lance a lance e lembrar, sempre, que há uma série de elementos subjetivos envolvidos no futebol, que cada partida é uma partida, que a televisão é bastante limitada e não capta – nem pode captar – uma série de informações relevantes sobre o jogo (ao contrário do que o discurso publicitário e mentiroso do “levamos a você todos os detalhes” diz ao torcedor), que o ponto de vista do comentarista é apenas um em meio a vários possíveis etc. Enfim, rever a apologia mentirosa da objetividade feita pelo jornalismo da mídia gorda.

De qualquer forma, “excesso de rigor” se mede em relação aos lances concretos ocorridos no jogo, e não por suposição, a partir do número de cartões aplicados na partida. Numa briga generalizada, por exemplo, a expulsão de quatro atletas pode significar não excesso, mas falta de rigor.

b) “Sair distribuindo cartões”, “dar muitos cartões no início” e “expulsar cinco jogadores”

Pergunta óbvia (mas que a mídia gorda, que nunca questiona a si mesma, não faz): existe número mínimo e máximo de cartões? O número de cartões que “deve” ser aplicado em uma partida é absoluto ou relativo? Em outras palavras: o juiz entra em campo com um número na cabeça – “vou aplicar 4 amarelos e dois vermelhos” – independentemente do que aconteça em campo? Ou deve distribuir amarelos e vermelhos a partir das faltas e lances do jogo? A função do juiz é cumprir a regra, ou o quê? Ora, se os jogadores batem desde a saída, o que cabe a ele senão “sair distribuindo cartões”? Incorre em erro quem aplica a regra desde o primeiro minuto? A partir de quanto tempo de jogo, então, o juiz está autorizado pelos comentaristas a aplicar cartões?

Do jeito que os especialistas falam, parece que defendem a existência de um limite absoluto de cartões. Parece também que os comentaristas gostariam de atribuir a si mesmos a tarefa de determinar tal limite. Comentam em termos absolutos, sem se aterem ao que ocorreu na partida… Avaliam a arbitragem pelo número de cartões aplicados, e não pela correção na aplicação de cada punição. Parecem não entender (ou não saber) que uma arbitragem pode ser ótima ou péssima distribuindo três ou quinze cartões. Ignoram o óbvio ululante (bênção, Nelson Rodrigues): o número absoluto nada importa. O que vale é a relação entre as punições e o que houve em campo.

c) “Prejudicar o espetáculo”

Primeiro: a função do juiz é aplicar a regra. Só isso. Não é função de ninguém “preservar o espetáculo”. Como a mídia gorda esportiva costuma atribuir essa tarefa (e muitas outras) a si mesma, acaba querendo cagar regra para os outros (jogadores, técnicos, torcedores, dirigentes, árbitros). Repetindo: a função do juiz é cumprir a regra, e não “preservar o espetáculo”. Lição básica de introdução à epistemologia: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Segundo: desde quando aplicar a regra significa “prejudicar o espetáculo”? Desde quando expulsar jogador “prejudica o espetáculo”? Desde quando expulsar jogador que dá pontapé “prejudica o espetáculo”? Dizer que a expulsão de jogador que bate “prejudica o espetáculo” não é uma contradição com a afirmação de que é preciso “proteger o craque”?

Terceiro: num futebol cada vez mais corrido, em que 11 jogadores de cada lado tornam o jogo praticamente impossível pela falta de espaço, as partidas quase sempre melhoram quando há expulsões. A afirmativa de que aplicar cartões de acordo com a regra e expulsar jogadores “prejudica o espetáculo”, portanto, carece de fundamento.

*  *  *

Não escrevi esse texto a partir de um jogo apenas, mas por ter observado uma certa tendência na mídia gorda esportiva carioca (seria interessante ouvir impressões a respeito de outros estados e cidades). Ontem mesmo um jogador do Resende deu uma entrada assassina e levou “cartão vermelho direto” no primeiro tempo, corretamente. O que fez o “comentarista de arbitragem” da Rede Globo? Passou o resto do jogo criticando o juiz pelo “excesso de rigor”, afinal o jogador expulso não acertou o adversário com as travas da chuteira, mas com a barriga (o atingido conseguiu evitar que o carrinho o partisse ao meio).

Também ontem,  Uruguai 2×0 Paraguai, pelas Eliminatórias, foi uma carnificina. Pra quem gosta de futebol com umas porradinhas, um partidaço! Até no gol que marcou de cabeça, Lugano fez uma falta claríssima no zagueiro. Houve troca discreta de socos e cotoveladas em uma jogada de bola parada (lá estava a câmera para “flagrar” – fosse no Brasil, um excitado promotor de tribunal esportivo pediria os vídeos à emissora e a condenação dos atletas a 1.359 dias sem trabalhar, contrariando a CLT). Voadoras e carrinhos por trás foram pelo menos quatro – e olha que só vi o segundo tempo (ao contrário dos comentaristas do Troca de Passes, eu não minto comentando sobre 43930349 jogos que acontecem simultaneamente, como se tivesse assistido a todos; aproveito para destacar o Felipe Awi André Loffredo, que merece todos os elogios pela honestidade. Perguntado insistentemente e obrigado a comentar sobre jogos do RS, SP, RJ, MG e Eliminatórias da Europa e da América do Sul, volta e meia começava sua falar por uma ressalva um tanto constrangida: “eu não consegui acompanhar todos os jogos”). Na maior parte deles, o juiz sequer marcou falta. Em duas ocasiões, deu um amarelinho discreto. Os especialistas que faziam a transmissão não criticaram o árbitro nem defenderam que “tem que ficar em campo quem quer jogar e tem que ser expulso quem quer bater”. O árbitro? Carlos Eugênio Simon – de longe, e há muitos anos, o juiz brasileiro mais conivente com a violência. Talvez justamente por isso seja o preferido da mídia gorda (sobretudo da Rede Globo).

*  *  *

Antes que alguém reclame: eu acho a arbitragem brasileira muito ruim – e acho a mídia gorda esportiva e os dirigentes de clubes e entidades esportivas, na média, tão ruins quanto os árbitros. Não tenho a pretensão de apontar soluções. Mas acho que, no que diz respeito a esse ponto – violência -, ela melhorou bastante nos últimos anos. Já a mídia gorda, como se percebe, não segue a mesma rota (não há nada tão ruim que não possa piorar).

Antes que alguém reclame (2): não sou, de forma alguma, contra faltas, entradas violentas etc. Acho que isso faz parte do futebol, faz parte da cultura de certos clubes e países e é ingrediente inevitável (e indispensável) em certos jogos decisivos, clássicos e outras situações (quando um time bate sem parar, por exemplo, é normal que um jogador do adversário revide com ao menos uma falta violenta). Os que me conhecem sabem que nutro particular simpatia pelo futebol dos países do Cone Sul e de suas seleções, bem como pelo Grêmio. Mas acho, também, que aos juízes cabe simplesmente fazer cumprir a regra. Bater faz parte do jogo, assim como ser expulso pela agressão.

*  *  *

Em tempo: outro dia escrevi que nem todo jogador de futebol é vaca de presépio. Pelas atitudes tomadas ontem, Juan (em campo) e Viola (dentro e fora de campo) justificaram sua inclusão nesse pequeno e notável rol. A entrevista do segundo à Rede Globo na saída para o intervalo foi um dos episódios mais engraçados do ano. Um resumo do que disse está aqui.

[Editado em 29/3/2009]

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Uma resposta to “Mídia gorda carioca, arbitragens e violência em campo”

  1. Leo Lagden Says:

    É impressionante a “ruindade” desses comentaristas.
    Outro dia assistindo a uma partida do campeonato Inglês, o time do Liverpool estava ganhando de 5 x 0 de um time menor e ao final da partida, o centroavante do Liverpool invadiu a área, driblou o goleiro e foi derubado.
    Pênalti marcado e goleiro expulso, como manda a regra. O comentarista da ESPN manda a seguinte pérola: “O juiz tinha que levar em conta que o jogo já está decidido e poderia não ter expulsado o goleiro.”

    Quer dizer que a regra só vale em determinados momentos?

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