Chibatadas nos trabalhadores

Certa vez, voltava do trabalho de trem, na companhia de Jorge Sapia, querido amigo, também professor, argentino e sobrevivente da ditadura de lá. Conversávamos sobre as roletas das estações de trem do Rio de Janeiro, e ele me disse algo que nunca esqueci:

– São iguais a um campo de concentração. Aquelas roletas falam. Elas dizem que os passageiros desse transporte são perigosos.

De fato, de acordo com essa observação, podemos olhar para as roletas do transporte público no Rio de Janeiro e perceber que os passageiros mais perigosos, para o poder público e as empresas concessionárias, são os dos trens. Em seguida vêm os dos ônibus. Os menos perigosos são os do metrô.

(Catei nos mecanismos de busca uma foto das roletas, mas não consegui encontrar. Tentarei fazer uma foto e publicar aqui, hoje ou amanhã.)

Lembrei do amigo professor agora, quando recebo, do Rodrigo Viellas, este atalho: http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1085610-5606,00.html

O vídeo nele contido fala por si.

Dá o que pensar para quem estuda/estudou escravidão.

Dá o que pensar, também, sobre a eficiência e o sucesso das privatizações realizadas pelo PSDB/PFL nos anos 1990, nos governos federal e estadual, e mantidas pelo PT/PSB/PCdoB/PMDB. A Supervia, nome-fantasia da empresa que abocanhou o sistema de transporte de passageiros por trens do Grande Rio, é um exemplo desta privataria.

Dá o que pensar sobre o jornalismo da mídia gorda, que defendeu e defende, com unhas e dentes, a privatização. A Supervia, aliás, é anunciante de órgãos de comunicação, como a Rádio Tupi AM. Quando até este jornalismo acha que a situação passou do limite e resolve noticiá-la, é porque as coisas estão muito, muito mal (e, na realidade, muito, muito piores).

Dá o que pensar, ainda, sobre as implicações que os preços cobrados pelas concessionárias de serviços públicos e o serviço prestado por elas têm em relação ao direito constitucional de ir e vir.

[Editado às 11h16]

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7 Respostas to “Chibatadas nos trabalhadores”

  1. Leo Lagden Says:

    O que falta no Rio de Janeiro? Muros segregadores, poderes paralelos e agora chibatadas…Daqui a pouco irão instalar troncos no Largo da Carioca.
    Ainda temos que ver o governo do Estado emprestar dinheiro à Supervia. Assim é mole pegar uma concessão pública.

    É o seguinte ditado: Nada está tão ruim que não possa piorar!

  2. Glauco Says:

    As justificativas do diretor de marketing são absurdas, de um nonsense macabro e revoltante. Isso é inaceitável em uma democracia.

  3. Jurandir Paulo Says:

    Perfeito, Rafael. A discussão que tentei entrar é o fato das empresas de ônibus definirem o planejamento do transporte de massas no Rio. É máfia, das mais notórias. Compram corações e mentes. Já foi tentada mais de uma vez criar uma CPI no estado para apurar sua ação, nunca aconteceu. O transporte ferroviário, que já foi muito maior, vive hoje seu ocaso, e privatizado. Cadê a eficiência da iniciativa privada, tão defendida? Só existe a da borduna!

  4. Wellington Campos Says:

    Dá o que pensar sobre o fato de uma empresa concessionária não cumprir os requisitos legais ditados pela Lei específica. Cordialidade e eficiência não figuram em lista de opcionais.

    Dá o que pensar sobre um representante do poder público agindo como um feitor.

    Dá o que pensar na falta de mobilização social em situações absurdas como essa.

  5. Roletas nas estações de trem do Rio « A Lenda Says:

    […] nas estações de trem do Rio By Rafael Fortes No episódio das chibatadas nos trabalhadores, citei um comentário de um professor amigo afirmando que as roletas dos trens do Rio de Janeiro […]

  6. O trem enferrujado do secretário « A Lenda Says:

    […] Chibatadas nos passageiros da […]

  7. Uma música | A Lenda Says:

    […] Não canso de me impressionar com arte/música. Fazer um troço bonitos desses falando dos medonhos trens da Central do Brasil/Supervia. […]

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