Sobre a “rivalidade” entre Nelsinho e Luxemburgo e um certo jornalismo

O jornalismo esportivo realizado pela mídia gorda vai muito mal. Essa constatação, polêmica para alguns, me parece óbvia para quem acompanha tal jornalismo no dia-a-dia e mantém alguma capacidade de criticar a mídia.

Por exemplo, ontem (terça) à noite, o telejornal Sportv News, veiculado às pressas no intervalo de um suculento Chivas x Lanús pela Taça Libertadores da América, levou ao ar uma “matéria” cujo objetivo real era “chamar” (no jargão das redações da mídia gorda, significa “promover” ou “fazer jabá de”) a partida a ser transmitida pela própria Sportv hoje (quarta), entre Palmeiras e Sport Recife.

Pois bem, o “mote” da matéria era uma (suposta) rivalidade entre os treinadores Vanderlei Luxemburgo (Palmeiras) e Nelsinho Baptista (Sport Recife) em finais. Por “mote”, quero dizer que, no “telejornalismo” esportivo das emissoras das Organizações Globo, o “repórter” muitas vezes não fala sobre o que presenciou ou “o que aconteceu”, mas já parte para a realização da “reportagem” pautado pelo que deve/vai ser dito – independentemente deste “dito” ter acontecido ou não.

Como eu vinha dizendo, a tal “reportagem” “chamando” o jogo de hoje era focada na rivalidade entre Nelsinho e Luxemburgo. Isso apesar de ambos dizerem, nas “sonoras” (no jargão jornalístico, pequenos extratos de falas dos entrevistados incluídas na matéria), que tal rivalidade não existe. Apesar, ainda, de as estatísticas apresentadas pelo diligente repórter levarem em conta, apenas, finais disputadas pelos dois técnicos. A matéria, apesar de citar demoradamente tais confrontos – que supostamente teriam criado a tal rivalidade existente apenas na mente do repórter e na tela da Sportv -, esqueceu que o jogo de hoje não faz parte da fase mata-mata da Libertadores e sequer decide, matematicamente, a classificação ou eliminação de qualquer uma das equipes em relação às oitavas-de-final. Que dirá lembrar que o jogo não é uma final…

Em suma, um bom exemplo de uma das vertentes do que denomino jornalismo de ficção:

a) inventa uma realidade que é negada pelos próprios entrevistados;

b) mantém a invenção, apesar da carência evidente de dados que a sustentem.

c) figura, para o historiador desavisado, como lente para o real – quando, no máximo (e na verdade), constitui não mais que a vontade do jornalista e de sua chefia, expressa e decidida na famigerada “reunião de pauta” (onde se determina o que vai “acontecer” e/ou virar notícia, independentemente de acontecer/existir de fato).

Anúncios

Tags: , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: