Sobre dribles, mediocridade e o fim dos estaduais

Recebo a mensagem abaixo de uma amiga:

“O que vc acha? Será que vai chegar um dia em que driblar vai ser proibido no futebol? O futebol está tão chato, será que vão conseguir deixá-lo ainda pior?”

A resposta, com pequenos ajustes:

“É o fim da picada, né?

Tipo, eu acho que o Juan tá na dele, foi driblado, deu uma porrada no cara e partiu pra cima dele depois. Leva vermelho, pega 2 a 4 jogos de suspensão e a vida segue…

O que aconteceu é do jogo mesmo, o Flamengo tava levando um calor do Botafogo, o Maicosuel tá voando o campeonato todo e o cara foi tentar intimidar, do tipo: “Porra, vai driblar lá pela ponta esquerda! Aqui pelo meu lado, não, seu filho da puta!”  O único grande problema que eu vi no lance foi ele não ter levado vermelho (Domingos e Diego Souza foram expulsos por muito menos…).

Toda essa discussão sobre “driblar” não tem razão de existir. É típica da mediocridade/indigência (intelectual, inclusive) que abunda no meio do futebol: técnicos, jogadores, jornalistas e dirigentes, salvo raras exceções. Não é por acaso que os clubes estão falidos, há uma bandidagem sem tamanho no meio do esporte, Globo/CBF/COB fazem o que querem etc.

O COI visita o Rio de Janeiro essa semana e seus representantes vão andar de metrô justamente no Primeiro de maio – feriado! Existe definição melhor para isso do que farsa? Por esses e outros motivos, vão sair daqui achando que o metrô é confortável e presta um serviço decente à população. Na semana em que ocorre a visita, a mídia gorda vai discutir esse assunto? Claro que não! Vai discutir “o drible no futebol”. É o fim da picada…

Me fez lembrar a definição de um jornalista estadunidense, Danny Schechter, num livro bem interessante, com o auto-explicativo título The More You Watch, The Less You Know. Ele se refere aos canais da mídia gorda televisiva dos EUA como “weapons of mass distraction”, ou seja, armas de distração de massa.

Temos uma mídia gorda e vendida cuja preocupação única, primeira e última, é o lucro. Ou seja, atrair audiência e “chamar o evento” (como se fala na redação da TV Globo no Rio de Janeiro). O jornalismo, a verdade e o interesse público que se danem. É nesse ambiente que jornalistas cuja prioridade ao analisar o esporte é fazer fofoca e falar mal dos outros são alçados à condição de colunistas de jornal impresso, comentaristas de televisão a cabo e diretores de redação de jornais de segunda categoria.

Cá entre nós, esse estadual foi uma coisa medonha. Teve um jogador jogando bola (o Maicosuel), o resto… Explica pra mim o que são certos jogadores do meio-campo do Flamengo? A atitude de peladeiro de certo jogador nos dois  gols que o time levou domingo? O retrato do Estadual foi aquele Flamengo 1×0 no Botafogo da final da Taça Rio. Se não fosse o garoto fazer o gol contra, coitado, os times iam jogar 200 minutos e nada ia acontecer… ”

Há quem proponha o fim do campeonato estadual. No caso do Campeonato Fluminense, considero a proposta equivocada. O Estadual do Rio já acabou faz tempo. O que sobrevive e se renova a cada ano é a rivalidade entre os clubes e seus torcedores.

O período de janeiro a abril é dedicado a conquistas, emoções e gozação, enquanto não chega o campeonato que realmente vale – o Brasileiro. Neste, durante o tempo em que vigorar a fórmula de pontos corridos e os times cariocas tiverem estes dirigentes que aí estão e os do passado recente (com raras exceções), estamos  condenados a fazer figuração e assistir à disputa do título entre paulistas, belo-horizontinos e porto-alegrenses.

A mídia gorda (salvo raras exceções individuais), de sua parte, contribui diariamente para manter e piorar esse estado de coisas.

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Uma resposta to “Sobre dribles, mediocridade e o fim dos estaduais”

  1. Pat Says:

    Concordo com tudo que vc escreveu! E como apaixonada por futebol, acho que tudo está cada vez mais chato. A mídia gorda com sua cobertura medíocre é certamente uma das grandes responsáveis por isso. Quanto ao Maicosuel, uma pena o moleque ter se machucado. Além de fazer muita falta no Bota, era um dos poucos que dava gosto de ver jogar nesse campeonato boboca.

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