Privatização dos serviços públicos no Rio, CUT/RJ e amnésia seletiva

Reproduzo abaixo notícia da Agência Petroleira de Notícias. A segunda metade da matéria da APN é composta por uma nota da CUT/RJ. A nota deve ser lida, a meu ver, à luz da posição política assumida durante a campanha do segundo turno das eleições municipais de 2008, quando a Central Única dos Trabalhadores do Rio de Janeiro declarou seu apoio ao ex-tucano e então candidato Eduardo Paes (PMDB):

Em seu discurso, a presidente da CUT-RJ, Neuza Luzia Pinto, falou da intenção do candidato adversário de recolocar em cena no Rio um projeto já derrotado duas vezes pelo povo brasileiro. ‘Quando Gabeira fala em choque de capitalismo, o que ele quer dizer de fato é que pretende retomar o caminho das privatizações. Não podemos fechar os olhos diante de  dois projetos antagônicos: o do Eduardo Paes representa a possibilidade de avanços para a classe trabalhadora, o outro traz o retrocesso. Por isso, a CUT não pode deixar de ter posição’, reafirmou.

O trecho acima foi publicado no sítio da entidade e reproduzido por mim em texto criticando tal posição. Parece, porém, que a direção da Central que em tese representa e defende os trabalhadores anda sofrendo de amnésia. Saiu do ar, do sítio da entidade, a notícia em que aparecia a passagem acima, intitulada “Ato reúne CUT e mais cinco centrais em apoio a Eduardo Paes”,  que constava no endereço http://www.cutrj.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=447, onde hoje há uma nota sobre o ataque de Israel a Gaza.

Só sobrou o instantâneo produzido pelo WordPress, que resultou na imagem abaixo:

imagem-cut

Fui fuçar a página da entidade e descobri que a amnésia não cobre apenas uma notícia, mas um período relativamente longo e mais… é seletiva! Entre esta notícia, publicada em 10 de setembro de 2008, e esta, publicada em 10 de dezembro de 2008, não há nada. Ou seja, se acreditarmos na sequencia numérica que está no ar neste momento, no sítio da CUT/RJ, a entidade não se pronunciou durante o importante período de eleições municipais para o primeiro e segundo turnos na capital… Mas, como mostra a declaração acima, ela se posicionou, sim. E de forma bem diferente daquela de agora.

Falta apenas (apenas?) assumir a mudança camaleônica e dar uma explicação pública e convincente aos trabalhadores de sua base e à sociedade.

Seria bom também que viesse a público dar uma explicação o vereador do PSB que é médico,  “decidiu entrar para a vida política (…) com o objetivo de lutar pela saúde no município do Rio de Janeiro” e foi, junto com seu colega de partido, o primeiro vereador eleito a apoiar Eduardo Paes para o segundo turno.

De qualquer forma, parece cada vez mais válida a pergunta que venho fazendo insistentemente (exemplos: 1 , 2): o que partidos como PT, PSB e PCdoB fazem na prefeitura?

Em tempo: procurei no sítio da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro o registro da votação do projeto, para reproduzir aqui os nomes dos vereadores que se posicionaram contra e a favor, mas não o encontrei. Justamente a informação que considero mais relevante…

*  *  *

“Privatização dos serviços públicos avança no Rio, com aprovação das OSs

Fonte: Agência Petroleira de Notícias (www.apn.org.br)

Manifestantes da saúde e da educação protestaram veementemente, mas não conseguiram impedir que a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro aprovasse, na noite desta quarta, 29,  por 37 votos a 11, o projeto-de-lei que permite à prefeitura contratar as chamadas “Organizações Sociais” – “OSs” – para gerir órgãos públicos  nas áreas de saúde, educação, cultura, meio ambiente, esporte, ciência e tecnologia. Com isso, avança o processo de privatização de serviços públicos essenciais para a população e o município se desobriga dessa responsabilidade.

A proposta encaminhada pelo Prefeito Eduardo Paes recebeu emendas, mas que não trouxeram alterações substanciais ao projeto original. Houve protestos de sindicalistas e representantes de movimentos sociais que lotaram as galerias e checaram a cerca o prédio da Câmara. A polícia foi chamada para reprimir os manifestantes. A matéria ainda será submetida a uma segunda votação na Câmara. Logo após a votação, a CUT-RJ emitiu a seguinte nota oficial, que reproduzimos:


Projeto das OSs :”lobo em pele de cordeiro”

A justificativa oficial para a criação no âmbito do município do Rio das organizações sociais (OSs), para gerir unidades de saúde, educação, cultura, meio ambiente, etc, é a modernização e a racionalização da gestão.

Ledo engano. Ao se omitir de sua obrigação constitucional de garantir o acesso universal a serviços públicos essenciais, o Executivo municipal não só abre caminho para a precarização desses serviços, como também institucionaliza a promiscuidade entre os interesses público e privado na esfera pública.

Vale destacar que as OSs são irmãs siamesas das fundações de direito privado que os governos do estado e federal insistem em  implantar, a despeito das posições frontalmente contrárias da Conferência Nacional de Saúde, do movimento sindical dos servidores, da CUT e de outras centrais, de parlamentares, de partidos do campo democrático-popular e de especialistas em gestão pública que rejeitam o ideário neoliberal.

A CUT-RJ, fiel à sua longa trajetória de luta em prol da valorização dos servidores e do serviço público, alerta  para o dano irreparável que a eventual aprovação do projeto das OSs pode causar aos milhões de cariocas que demandam os serviços públicos da prefeitura e conclama o movimento sindical e popular a pressionar os vereadores pela rejeição do projeto.”

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5 Respostas to “Privatização dos serviços públicos no Rio, CUT/RJ e amnésia seletiva”

  1. Leo Lagden Says:

    Sabe qual a possibilidade de informações deste tipo ser veiculada na “Mídia Gorda”???
    A mesma que o Obina ser considerado o melhor do mundo e artilheiro da Copa do Ano que vem.
    É a política se superando cada vez mais neste pobre país!

  2. Lista da votação das Organizações Sociais na Câmara Municipal « A Lenda Says:

    […] Em relação ao que eu disse anteriormente, cabe registrar que o vereador Dr. Carlos Eduardo (PSB) votou contra o projeto. Ainda que seu […]

  3. Rapidinhas políticas « A Lenda Says:

    […] no Rio de Janeiro, governo do estado e Prefeitura, ambos chefiados por ex-tucanos agora no PMDB, propõem justamente as Organizações Sociais como forma de privatizar (e recebem apoio e votos de vereadores de PSB, PDT e […]

  4. Saúde: bandalheira tem limite « A Lenda Says:

    […] as OSs foram aprovadas na Câmara Municipal, critiquei, inclusive cobrando a postura dos representantes de partidos ditos de […]

  5. Carnê de IPTU 2007: Jogos Pan-Americanos, Cidade Olímpica e o Rio do PMDB | A Lenda Says:

    […] campanha de 2008, a CUT-RJ apoiou-o; a então presidente da entidade afirmou que o projeto “do Eduardo Paes representa a possibilidade de avanços para a classe trabalhadora“. Com lideranças com tal capacidade de avaliação política, não surpreende que a classe […]

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