Contribuições indiretas de amigas e amigos (5)

Chegam notícias. Pessoas conhecidas têm conhecidos/amigos/parentes no avião da Air France que desapareceu. Penso nas famílias das vítimas. Me solidarizo com o sofrimento de quem conheço.

Troco mensagens com um amigo cujo irmão perdeu um amigo de infância no voo.

Eu:

“Com a classe média/alta ínfima do Brasil, sempre tem um conhecido de um conhecido nesses acidentes. Uma prima de um amigo tava no avião também. Ele esteve com ela num aniversário sábado, antes de vir pra minha casa. Deu dicas sobre o que conhecer nos destinos que ela visitaria na Europa.

Paradoxalmente, a polícia mata 1.300 pessoas num ano no Rio (quantos aviões dá isso?) e não tem um conhecido de um conhecido nosso entre as vítimas. Afinal, são todos pobres. Pior: não se trata de fenômeno acidental da natureza, mas de construção proposital da política (com legitimação da mídia gorda e de setores da sociedade).

É isso: a natureza é muito mais forte que a gente, sejam os grandes fenômenos, sejam os minúsculos vírus. A vida é curta e a gente tem que aproveitá-la: para nós mesmos e para aqueles de quem gostamos.”

Ele:

“É verdade. Tem toda razão. A polícia é muito, muito mais fatal do que qualquer fenômeno da natureza.

O pior é que, de forma egoísta, em certos momentos, a gente tende a se abalar mais com essas tragédias que são mais próximas da gente. Esse vôo, por exemplo, tinha grande probabilidade de ter algum amigo, conhecido, amigo de amigo… como, de fato, tinha.

Além disso, pensamos sempre que poderia ser a gente. Porque somos nós, classe média (além dos ricos), que viajamos.

Casei e viajei pra Europa exatamente como um casal de Niterói que viajava em lua-de-mel nesse vôo.”

Enquanto isso, a mídia gorda segue explorando os detalhes sórdidos e mórbidos do acidente.

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Uma resposta to “Contribuições indiretas de amigas e amigos (5)”

  1. Wellington Campos Says:

    Olá, Rafael.

    Concordo com a ideia de que nos sensibilizamos com aquilo que está mais próximos de nossa realidade. Podemos viajar como aqueles passgeiros, nossos amigos trabalham em empresas cujos funcionários estavam naquele voo, além de outras proximidades adicionais.

    Sem querer entrar no mérito da truculência/postura da polícia carioca, comparemos esta tragédia a outro fenômeno da natureza, para dizer que estamos na mesma base. Há muito pouco tempo as chuvas no Piauí causaram muito dano, as pessoas só agora começam a voltar para suas casas, e sabemos que o risco de epidemias está muito elevado nesta situação. Por que isso não nos causa a mesma comoção? Um voo que sai daqui do Rio é capaz de mobilizar mais do que as chuvas que quase pararam dois estados (PI e MA)? E a falta de chuva que prejudicou a safra no Sul, e pode causar efeitos sensíveis na economia do país?

    Creio que seja natural nos comovermos com a queda do voo 447, mas de forma equitativa deveríamos dar atenção às questões do país como um todo, em especial àquelas que atingem os menos favorecidos que nós.

    Abraço.

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