Escolhas vocabulares para minimizar o horror

Um pequeno comentário sobre a matéria de ontem (15/6, segunda-feira) veiculada pelo Jornal Hoje (TV Globo) tratando dos atentados – a bomba, inclusive – cometidos contra pessoas que saíam da Parada do Orgulho LGBT, em São Paulo. Na verdade, a reportagem não usou, em momento algum, termos como terrorismo e atentado, e ainda se referiu aos agressores de uma das vítimas – espancada no meio da rua – como “cinco rapazes”. E se o crime fosse cometido por jovens pobres armados de pele escura e moradores de favelas do Rio de Janeiro? Seriam definidos/classificados como “rapazes”?

Este é o caráter enviesado, preconceituoso e classista que orienta, perpassa e predomina no jornalismo das Organizações Globo em geral e da Rede Globo, em particular (salvo raras exceções). Nesse jornalismo, uma matéria sobre a prisão de uma pessoa por tráfico internacional de drogas internacional não utiliza uma vez sequer a palavra traficante para caracterizá-lo, apesar de garantir que em sua bagagem havia mais de 15 mil comprimidos de ecstasy, além de maconha e haxixe. Refere-se a ele como “estudante de publicidade“, “jovem“, “passageiro” etc.

Acredito que tamanha preocupação e delicadeza – que contrastam vivamente com a esmagadora maioria das matérias sobre o demonizado tráfico de drogas -, se expliquem pela classe social a que pertente a pessoa presa. Mas, quando se trata de pobres, são “traficantes” e “monstros” irrecuperáveis – ameaças que precisam ser eliminadas.

*  *  *

Todo apoio ao movimento LGBT, a suas manifestações e reivindicações e ao direito de fazê-las em público.

Todo apoio ao PLC 122/06, cujo objetivo é fazer da homofobia crime.

À polícia paulista cabe o óbvio: investigar o ocorrido até encontrar os responsáveis. A batalha para exigir que ela vá até o fim é árdua, uma vez que tais crimes são regra no Brasil – sem que isso incomode o Estado, a maior parte dos políticos e, claro, a mídia gorda, homofóbica e inconstitucional (ou, como denominou Adriana Facina, “mídia proibidona“).

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Uma resposta to “Escolhas vocabulares para minimizar o horror”

  1. Ricardo Cabral Says:

    Nem dá para chamar de novilíngua, de tão velha que é essa prática em Pindorama. Ainda bem que alguns notam essa prática e registram o absurdo que é. Parabéns, pena que seja por destoar do que parece naturalizado…

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