Rapidinhas políticas

Abaixo está o vídeo do programa do PSOL veiculado recentemente na TV. Bem feito e com discussões importantes – destaque para a dívida pública e a MP 458 – , a meu ver peca em dois pontos. Primeiro, a ênfase nas denúncias de corrupção. Denunciar e combater a corrupção é importante, mas elegê-la ponto central me parece problemático. Quanto mais se centra o foco na corrupção, menos se discute política. Além disso, tal postura me parece semelhante à que o PT adotava até algum tempo atrás: reivindicar para si uma espécie de “monopólio da ética”.

Segundo, a utilização da revista Veja como evidência de que as denúncias em relação ao governo Yeda Crusius (PSDB/RS) se mostraram verdadeiras. Ora, toda e qualquer legitimação de um (suposto) caráter jornalístico e de veracidade presente em Veja presta um desserviço ao bom jornalismo e à conscientização do público.

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Por falar em dívida pública, eis um trecho da entrevista com Maria Lucia Fattorelli, da Auditoria Cidadã da Dívida, na Caros Amigos de julho:

“Em 2008, mais de 30% do orçamento federal brasileiro foi destinado ao pagamento da dívida, enquanto os gastos com saúde foram de 4,81%, com educação, 2,57%, e com reforma agrária, 0,27%.”

E muita gente de esquerda por aí segue destacando as diferenças “de fundo” entre a política econômica de Lula e de FHC.

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Da senadora Marina Silva (PT/AC), na mesma edição, sobre a MP 458, iniciativa do Governo Lula (PT) que favorece o roubo de terras e outros crimes na Amazônia:

Marina Silva – “Ela [MP 458] já veio com problemas na sua origem. Está se pedindo que faça três vetos, inclusive o que possibilite a vistoria para separar o joio do trigo. […] Ninguém pode dizer que esses 67 milhões de hectares são apenas para aqueles que foram estimulados por políticas públicas no passado. Existe um processo de ocupação ilegal e criminosa nos últimos 15, 20 anos, desde que o Brasil tem uma legislação que proíbe essa forma de ocupação. Estou na expectativa de que seja vetado, embora não resolva a natureza dos problemas que já havia na origem. Mas vai ser um atenuante. Para as pessoas sentirem que não se está simplesmente anistiando aqueles que desrespeitaram a lei, usaram de violência e que até ceifaram vidas.

[…]

Tatiana Merlino – E como fica o presidente Lula diante desse cenário? Recentemente ele declarou que as ONGs estavam mentindo, não estavam dizendo a verdade que a MP 458 ia abrir as portas da grilagem da Amazônia. Como ele fica diante desse cenário, dessa investida?

[Marina Silva:] As ONGs e eu mesma dizemos que essa medida provisória, se não tiverem os cuidados necessários, vai favorecer a grilagem. Ela favorece a grilagem quando não assegura a questão da vistoria acima de 100 hectares, até os 4 módulos fiscais. Porque existem também os laranjas para os 400 hectares. Ela favoreceu a grilagem quando não fez o recorte para regularizar as posses até 4 módulos fiscais. Se tivesse feito esse recorte, beneficiaria 81,1% das posses e utilizaria uma área de terra de cerca de 7 milhões de hectares. Por ter ido até os médios e grandes é que ela vai para 67 milhões de hectares.”

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Para não dizer que não falei de falcatruas do PSDB, matéria da Fórum relata as iniciativas de investigação, por parte do Ministério Público de São Paulo, de diversos crimes cometidos por Organizações Sociais (OSs) que administram museus. Como se trata de bandidagem oriunda de privatizações promovidas por governos de direita, a mídia gorda, que os apoia, não dá manchete escandalosa na primeira página (muito menos atribui a responsabilidade ao partido que chefiava o Executivo, promoveu as privatizações e indicou os administradores dos museus).

É a institucionalização da farra privada com recursos públicos. Eis uma pequena parte da orgia:

Um restaurante, uma livraria e serviços de delivery e de estacionamento funcionavam no MIS [Museu da Imagem e do Som] sem licitação e sem autorização de uso pelo estado. Outras irregularidades foram apontadas, como a tentativa de diretores de remover parte do acervo para fora do museu, o aluguel de filmes por um funcionário que se apropriava do dinheiro, o desaparecimento e o roubo de vídeos, projetores, DVDs e outros equipamentos, e ainda a realização de ‘noitadas’ no MIS.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, governo do estado e Prefeitura, ambos chefiados por ex-tucanos agora no PMDB, propõem justamente as Organizações Sociais como forma de privatizar (e recebem apoio e votos de vereadores de PSB, PDT e PT).

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Pra fechar, um trecho da sempre espirituosa e crítica coluna de Luiz Ricardo Leitão no Brasil de Fato. Desta vez, o professor discorre sobre os imigrantes do Terceiro Mundo, incluindo os brasileiros Jean Charles (cuja trágica história virou filme) e Kaká. Cada vez tenho menos paciência com a atribuição de tudo que acontece no mundo e na vida a desígnios divinos, sobrenaturais etc. Mas há discursos e discursos. Neste caso, confesso que fiquei assustado com o conteúdo da pregação:

Perdido no Paraíso, Kaká é uma ilustração singular deste fenômeno típico da era neoliberal pós-moderna: a exportação de seitas religiosas em meio a mais um ciclo de crise aguda do capitalismo global. Relembro, a respeito, as recentes declarações de Caroline Celico, esposa do jogador, agora convertida na ‘pastora Carol’ da Igreja Renascer (dirigida pela bispa Sônia Hernandes, que esteve presa nos EUA por crimes fiscais). A iluminada criatura, encarregada de abrir uma nova franquia da Renascer em Madri, atribuiu a Deus a ida do marido para a Espanha: ‘Como pode no meio da crise alguém ter dinheiro? O dinheiro do mundo tem que estar em algum lugar. E Deus colocou esse dinheiro na mão de quem? Do Real Madrid, para contratar o Kaká. Foi uma grande bênção.’ A jovem ‘pregadora’, que louva a beleza dos jovens de sua ‘Igreja’ (‘A gente é diferente mesmo. Vocês derrubam o inferno só com a beleza. Amém.’), decerto nem ouviu falar de Jean Charles, a quem o estranho Deus de Carol não logrou proteger.

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