Pacotão de leituras recentes sobre o campo brasileiro

Por conta de uma série de afazeres, levei mais de uma semana compondo o que vai abaixo. Neste período, uma série de acontecimentos e desdobramentos ocorreram. Mantive as indicações mais ou menos em sequência cronológica.

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Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária, abril de 2009. Foto: Camila Bonassa. Disponível em: http://www.mst.org.br/node/7551

Enquanto o Governo Federal, apesar das declarações de semanas atrás do presidente, não edita a portaria revisando os índices de produtividade utilizados pelo INCRA – datam de 1975! – e a bancada ruralista esperneia, a Justiça segue fazendo sua parte na luta contra a reforma agrária e o cumprimento da Constituição Federal. Desta vez, em Minas Gerais, condenou dirigentes do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL).

Já no interior paulista, uma empresa produtora de suco de laranja invade e planta em terras públicas, polui o meio-ambiente e, denunciada e combatida pelo MST, vai ao Judiciário pedir reintegração de posse (seria mais adequado falar de reintegração do produto de roubo…). Adivinha o que a Justiça decidirá?

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Na Caros Amigos de agosto, João Pedro Stedile apresenta o panorama atual:

“Estamos em 2009, a um ano do final do governo. Temos 90 mil famílias acampadas, apenas do MST, e o pior, a maioria delas estão debaixo das lonas há 6 anos. Temos Estados em que foram assentadas menos de mil famílias, em seis anos! Até hoje não foi assinada a portaria que atualiza os índices de produtividade. Nos assentamentos, avançou-se no programa de luz para todos, e se construíram algumas moradias. Mas o programa de moradia está parado, com poucos recursos: destina apenas 12 mil reais por casa! A assistência técnica é uma vergonha, pois foi terceirizada, e em cada região e Estado, cada um faz de um jeito, quando os convênios não são embargados pelo TCU.”

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Duas entrevistas elucidadoras a respeito do campo brasileiro e do Governo Lula: Roberto Malvezzi (CPT) e Marina Santos (MST) conversam com Paulo Passarinho no Programa Faixa Livre.

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Além de ouvir Marina Santos, vale ler Maurício Caleiro, num dos melhores artigos que li em semanas, sobre as razões para se odiar tanto o MST. Um pedaço:

Quantos de nós já se perguntaram como é viver sob lonas e gravetos – em condições piores do que nas piores favelas -, à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeito a ataques noturnos repentinos dos tanto que os detestam? Quantos já permaneceram num acampamento do MST por mais do que um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida?

Poucos, muito poucos, não é mesmo? Até porque nem a sobrancelha erótica do Bonner nem o olhar-chicote da Fátima jamais se interessaram pelo desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, nem pelas crianças de 3,4 anos que amanhecem coberta de hematomas dos chutes desferidos pelos jagunços invasores, ao lado do corpo de seus pais, assassinados covardemente pelas costas e cujo sangue avermelha o rio.

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No plenário da Câmara dos Deputados, Ivan Valente (PSOL/SP) falou e disse sobre a insistência da bancada ruralista em criar nova CPI para investigar o MST: “Aqui queremos dizer claramente: somos radicalmente contrários a este tipo de CPI, porque o que ela visa é criminalizar o movimento social (…)“.

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Quer se solidarizar com o MST? Leia e assine o manifesto.

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Lembrei da cobertura mentirosa do episódio da Cutrale feita pela mídia gorda ao ler esta resposta de Virgínia Fontes, em entrevista na Caros Amigos de setembro (mas a resposta vai muito além disso, claro):

“Lucia Rodrigues – O professor Paulo Arantes acha que nós caminhamos para a fascistização. Como vê essa consideração?

Virgínia Fontes – Essa fascistização está presente, ela está latente, se isso se desdobra para uma fascistização, e se a gente tem condições de lutar contra isso, é outro cenário. Você pega a televisão brasileira, é uma televisão que o tempo todo atua criminalizando setores populares de maneira absolutamente falsificada. É uma falsificação brutal do que vem a ser as lutas populares, tanto no caso das mulheres, do racismo, quanto no caso dos sindicatos e do conjunto de luta de classes. Essa falsificação abre espaço para um protofascismo que vai se expressando, aglomerando, amalgamando coisas contraditórias e fazendo uma espécie de defesa de todos, a partir do esmagamento de qualquer contestação. Isso é latente, não só no Brasil, está latente-larvar nos Estados Unidos e na Europa. O risco de fascismo é um risco presente.”

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Uma resposta to “Pacotão de leituras recentes sobre o campo brasileiro”

  1. “Responsabilidade social” (27) « A Lenda Says:

    […] social” (27) By Rafael Fortes Outro dia critiquei decisões judiciais que criminalizam os movimentos sociais. Mas convém não generalizar. Na […]

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