Achado é roubado

Início de madrugada na Lapa. Vários meninos perambulam de um lado pro outro, pedem um dinheiro aqui, uma comida ali. Pequenos, ainda não chegaram à idade e ao tamanho que faz muitas pessoas olharem atravessado ou com medo. Um deles acha R$ 2 no chão, quase na minha frente. Fica alegríssimo, mostra pros coleguinhas, e tal. Saem andando e zanzando uns em volta dos outros, daquele jeito que só criança sabe fazer.

Chega um policial militar e pede um cachorro-quente na barraca ao lado de onde estou. Assim que faz o pedido, puxa R$ 4 do bolso, indicando a intenção de pagar. Espera sua vez de receber o sanduíche, após os clientes que já aguardavam.

O garoto que tinha achado os dois merréis volta chorando e cutuca o PM:

– Seu polícia, o moço roubou meu dinheiro. Foi ali, ó!

O policial olha para baixo (para o menino). Olha para a frente (na direção que o menino aponta). Olha para o lado (barraca de cachorro quente). Hesita. Repete a variação de olhares. “Fome não é fácil”, penso ao urubuservar a situação, como diria Chico Science. O garoto puxa seu braço e continua o choro, lágrimas escorrendo:

– Vamos lá… Ele roubou o dinheiro que eu achei, seu polícia.

O PM desiste de matar a fome e sai atrás da molecada, que o conduz na direção em que se mandou o provável ladrão.

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