Lembranças

Hoje caminhei por Icaraí e senti algo inédito: saudade. Faz três anos e meio que saí de Niterói. Volto lá com frequência, por diversas razões: família, amigos, passeios, UFF.

Nunca, em todo esse tempo, sentira saudade. Caminhei algumas quadras por pedaços de quarteirões onde vivi desde que me entendo por gente até poucos anos atrás. Morei em três apartamentos diferentes, situados quase em linha reta (dois deles na mesma rua). Menos de 400 metros separam o primeiro do terceiro. Três quadras entre a praia e a Gavião Peixoto.

Senti saudade de andar por ali quando moleque, quando adolescente, quando jovem, quando adulto. A pé, de bicicleta, de ônibus, de carro, de carona. De mãos dadas com namoradas antigas e recentes. De cabeça baixa por uma desiluão amorosa. Amuado com problemas familiares. Vendo tudo colorido e bonito na rua por conta de uma paixão. Pedalando para chegar à faculdade.

(É… Desde domingo ando assim, meio melancólico. Tenho lembrado de muitas coisas, ficado triste, pensativo. Nem sempre as boas lembranças do passado me deixam feliz. “Foundations”, “Juxtaposed with You”, “Fluorescent Adolescent”: realmente a seleção musical que andei escolhendo no Winamp não tá ajudando.)

No roteiro não planejado de hoje, um ponto, em particular, mexeu comigo: a banca do Beto. Com 10 anos de idade, pegava semanalmente a revista Placar lá. Às vezes, uns pacotes de figurinha, um gibi do Chico Bento ou Pato Donald, um Jornal dos Sports no dia seguinte a uma vitória do Mengão, uma revista Bizz, uma Set. Tudo fiado. Pegava com o Beto, pagava com o Magrão, ou vice-versa. Nunca anotaram nada. Nunca cobraram nada. Nunca reclamaram de nada. E olha que eram tempos de inflação galopante (não que ela tenha acabado com o Plano Real, como dizem por aí; mas caiu muito). Pagava da mesada, sem falta e sem muito atraso.

Passei lá hoje. A banca cresceu. Faz uns anos que andou 15 metros (pro outro lado da rua, na mesma esquina). Agora tem computador, lê o preço dos produtos no código de barras, carrega créditos em celular. Beto e Magrão trabalharam duro.

Olhei pra dentro. Lá estava o Beto. O mesmo sorriso, a mesma simplicidade, educação e simpatia de sempre. O Magrão continua à noite, me disse. Falou também que o trânsito em Niterói está impossível (no que concorda com todas as pessoas que conheço e vivem lá) e que continuam subindo prédios em todas as ruas à volta.

Fiquei lá uns 15 minutos. Conversa sobre trivialidades, entrecortada pelos fregueses que chegavam. Mais da metade deles era tratada pelo nome. Em quase todos os casos, simpatia de parte a parte.

Passei só pra dar um alô, vi uma Rolling Stone com Mano Brown na capa, comprei pra ver o que ele anda dizendo.

Saí caminhando pela Álvares com a cabeça cheia de lembranças, memórias, reminiscências, sentimentos confusos e difíceis de definir. Hoje foi diferente ir a Niterói.

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11 Respostas to “Lembranças”

  1. Maurício Caleiro Says:

    Lindo post, me deixou com um nó na garganta e uma puta saudades do tempo que morei em Niterói.

  2. rodrigoviellas Says:

    Saudades do tempo de comer no Compão, de jogar golzinho de praia em icaraí, de babar pelas meninas no calçadão, de rir com o índio correndo de tanga, de contemplar o pôr-do-sol em Itapuca, de viver Niterói.

    Imagino que a Moreira César esteja toda decorada com luzes de natal, bem como os prédios da praia de Icaraí. A Bombolândia ainda deve ficar aberta até tarde da noite e a brisa do mar ainda dá cheiro ao bairro.

    Prá lá não volto, mas Niterói nunca vai sair de mim.

  3. Jacomo Says:

    Porra, assim vertem as lágrimas!
    Eu que não tenho metade dessa ligação com Nikiti visualizei tudo, inclusive meu último grande amor, ali pertinho do campo de são bento. A cidade canta, encantra, apavora e atormenta. Abraços.

  4. Joao Paulo Says:

    Porra eu que já sou saudosista……. faltou falar das peladas no finais de tarde na praia de icaraí , começavam as 17:00 mas só chegavamos em casa ás 23:00 depois muito conversar sobre a vida sentado na areia.
    E dos sucos no ponto jovem? Acho que esse jeito provinciano é faz com as pessoas gostem ou sem lembnrem sempre daqui , por mais cosmopolita que sejam. Abraços

  5. Marina Says:

    Niterói é “longe pra caramba”. Mas mesmo assim achei o post lindo.

  6. Roberta Says:

    Lindo post Rafa, fiquei só lágrimas… Lembrei do dia que conheci Niterói, do pôr-do-sol do parque da cidade, o mais lindo que já vi na vida.

    Beijos.

  7. Vivi Says:

    Irmão,

    Não sei escrever tão bem como todos os que já postaram mensagens aqui, mas também não pude deixar de chorar!!!

    E de lembrar do tempo que vivíamos juntos, quase que inseparáveis… das nossas alegrias e sofrimentos…. do pouco de você que está em mim e, assim acredito, do pouco de mim que está em você.

    Niterói não é a mesma sem você! Mas sempre estaremos (ela, eu e Rodrigo) de braços abertos esperando sua volta, mesmo que seja apenas uma visita.

    Muito orgulho deste escritor querido! Parabéns pelo artigo.

  8. Rafael Fortes Says:

    Agora quem ficou feliz e emocionado fui eu: com os comentários e com quem apareceu por aqui! ; )

    Obrigado, pessoal!

  9. Rogério Says:

    Muito bom o texto. Minha identificação foi completa. Morei em Niterói de 1976 a 1990. Hoje quando estou lá, a cidade me alegra da mesma forma que a você – melancolicamente. Acho que isso é a idade, meu caro. Abração.

  10. Simone Arruda Says:

    Lindo texto, Rafael.
    Você conseguiu traduzir em palavras sensações e sentimentos que muitos de nós temos ao recordarmos de tempos idos, nos quais a vida não era tão urgente…

    Parabéns!

  11. Uma música | A Lenda Says:

    […] por uma mistura de influências: o pessoal com quem comecei a andar na escola; as revistas de surfe compradas na Banca do Beto; o irmão mais velho de um dos amigos do prédio, que ouvia a Fluminense FM enquanto jogávamos […]

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