O Imperador, a favela e o ódio de classe

Além do título de Campeão Brasileiro de 2010 2009 (obrigado pela correção, Nixon!) a volta de Adriano ao Flamengo – dure quanto durar e tenha que desdobramentos tiver – terá deixado, na minha opinião, pelo menos uma grande contribuição para o clube e sua torcida. Não falo da elevação da autoestima da torcida pelas vitórias, gols e artilharia do Brasileiro, das cifras envolvendo venda de camisas etc.

Refiro-me ao fato de que, à parte os problemas pessoais que a crônica esportiva (e geral) adora explorar, Adriano colocou a favela e a associação da torcida do Flamengo com a mesma em primeiro plano.

(Não o conheço pessoalmente, nem tenho quaisquer elementos para escrever sobre sua conduta – acreditar no que diz a mídia gorda é que eu não vou. E, mesmo que tivesse condições, não escreveria. Inclusive me incomoda que, só de olhar as manchetes nas bancas de jornal, eu volta e meia seja “informado” sobre onde o atacante vai – ou, para usar um termo frequente nas chamadas, “se esconde” ou “se refugia”.)

Sempre ouvi as torcidas de Vasco, Botafogo e Fluminense (principalmente a última) gritarem “ela, ela, ela/Silêncio na favela!” em clássicos contra meu time. Em alguns jogos do Brasileiro do ano passado, pela primeira vez, ouvi a torcida rubro-negra – parte dela – gritar “Favela, favela, favela/Festa na favela” (no ritmo do refrão de “Sorte Grande”, adotada há alguns anos para comemorar gols e vitórias). Isso aconteceu raras vezes (vale dizer que não estive presente em diversos jogos), durou pouco tempo e a música não foi cantada pela maioria dos presentes na arquibancada – cujo ingresso mais barato de inteira para adulto custava R$ 30. Ainda assim, fiquei bastante impressionado com a manifestação da torcida, assumindo – mesmo que de forma tímida e parcial – uma alcunha que os adversários lhe impõem pejorativamente. Some-se a isso uma bandeira de uma das torcidas organizadas (não lembro qual) com o rosto do jogador e, ao fundo, alguns barracos.

Não sei se a torcida assumirá de vez e em massa o grito de “favela” como seu, mas só o fato de alguns terem tomado a iniciativa de fazê-lo já me alegra. Mas acho que a presença de Adriano no Flamengo serviu e serve para explicitar preconceitos – inclusive os de muitos jornalistas da mídia gorda esportiva, reacionária e moralista – que se acham os últimos bastiões dos valores morais e não aceitam o fato de o jogador ir à favela. No fundo, lhes é intolerável que alguém ganhe fama e dinheiro e não vire as costas para os hábitos, pessoas, lugares, gostos, amizades, diversões de antes da fama/riqueza.

O Futepoca traz hoje um exemplo, retirado de uma mesa-redonda de ontem à noite. Os bafafás em torno do Imperador acabam por revelar o preconceito e o ódio de classe que permeiam a visão de mundo de certos jornalistas esportivos – para não falar de um moralismo obtuso e fora de época. Num país em que os preconceitos são ferrenhos, mas, paradoxalmente, tendem a ser escondidos sob o tapete, a exploração da vida pessoal do Imperador e os juízos morais sobre ela podem revelar muito sobre nossa sociedade, sobre nossos preconceitos e sobre as visões de mundo de certos jornalismos e jornalistas.

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2 Respostas to “O Imperador, a favela e o ódio de classe”

  1. A tônica do mês na mídia gorda: “Vamos malhar os jogadores do Flamengo porque eles frequentam favelas” « A Lenda Says:

    […] jogadores do Flamengo porque eles frequentam favelas” By Rafael Fortes Semana passada escrevi um texto discutindo o ódio de classe que impregna certas críticas de jornalistas da mídia gorda ao […]

  2. Jornalismo e livre associação. Livre? | A Lenda Says:

    […] primeiro lugar, pela imensa quantidade de preconceitos e ódio de classe presentes nas falas de muitos jornalistas que cobrem futebol, ao longo dos anos, ao tratarem do […]

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