Por que voto em Marcelo Freixo para deputado estadual

A ideia de escrever esta declaração de voto me ocorreu há coisa de um ano e pouco, quando me deparei com uma daquelas frases/verdades que vêm à cabeça e não nos deixam sossegar: o Rio de Janeiro deve ao Marcelo uma votação à altura do que foi seu mandado e de sua coragem. Uma votação à altura de seu amor pelo Rio. Uma votação que, ao menos timidamente, demonstre publicamente reconhecimento pelo que fez e pelo que perdeu – em termos pessoais, familiares, políticos e econômicos – travando a luta que travou contra as milícias, comandando o mandato legislativo coletivo (no sentido pleno do termo) que comandou. Enfim, superando as dificuldades que superou, ao longo do mandato e da vida, para seguir fazendo políticas em prol de um mundo melhor, sem se deixar mover por espírito de vingança ou, como costuma dizer Paulo Passarinho, sem fazer política com o fígado.

Não, não vou fazer aqui uma biografia (tem algum jornalista aí fazendo isso? Caso contrário, deveria!), muito menos uma hagiografia do historiador e professor por ofício e deputado estadual por eleição. Tampouco será possível, em poucas linhas, sintetizar o trabalho destes quase quatro anos de mandato. Por quê? Não tenho tempo, não quero escrever um texto longo e Marcelo Freixo não é santo.

Cartaz da Campanha da Fraternidade de 1997

Sua trajetória pessoal é acompanhada da militância incansável pelos direitos humanos, por mais que a vida lhe tenha pregado peças e dado rasteiras. Conheci Marcelo em 1997, em uma palestra relativa à Campanha da Fraternidade daquele ano, cujo tema eram os encarcerados.

Depois tive a oportunidade de assistir a uma aula de História sua dentro do presídio Edgard Costa. Guardo, até hoje, lembranças marcantes deste dia. Uma delas: todos os alunos, sem exceção, pediram licença ao entrar em sala, antes do início da aula. Desde então, nunca vi isto se repetir, em qualquer outra sala de aula onde tenha estado – e olha que venho frequentando muitas desde criança.

Naquela época eu participava da equipe que fazia o jornal da paróquia que frequentava em Icaraí (Niterói), chamado Encontro. Junto com Fábio Cecchetti, entrevistei Marcelo sobre o tema. A longa entrevista, concedida de maneira informal – estávamos os três sentados no chão da sala do apartamento de Freixo, no Fonseca -, foi publicada praticamente na íntegra (fato raro quando se trata de veículo impresso). (Ainda guardo, em algum lugar, um exemplar do jornal. Como me mudei recentemente e é impossível encontrar a maior parte da papelada que tenho, fico devendo essa. Quando encontrar, a campanha eleitoral provavelmente terá terminado. Mas prometo escanear e colocar a entrevista aqui – e atualizar este texto, acrescentando uma nota entre colchetes ao final.)

Anos depois, em 2008, nova entrevista. Desta vez, para o livro que lancei reunindo parte das pessoas que criticaram publicamente a Chacina do Pan (ou Chacina do Alemão), realizada em 2007.

Freixo tem um longo histórico de atuação em defesa dos direitos humanos, especialmente no que diz respeito ao sistema penitenciário do Rio de Janeiro. Paralelamente, foi e é professor de história e militante da educação de qualidade como direito de todos.

*  *  *

Antes que alguém objete ou desconfie: não sou amigo dele. Estas linhas são traçadas única e exclusivamente por acreditar que seu mandato representa, individual e coletivamente, o que acredito que a política parlamentar pode e deve ser. Pessoalmente, não ganho nada com isso: quem ganha, caso seja reeleito, é a população fluminense.

Estou convicto de que, se este estado tem alguma saída, esta passa, necessariamente, por uma votação maciça em Marcelo Freixo.

Tempos atrás, fiz um apelo a pessoas conhecidas (e desconhecidas) de fora que vivem no Rio para que tranferissem seus títulos para cá. É impossível saber o resultado final de minha campanha particular pela atualização do local de voto – e da campanha eleitoral como um todo -, mas a boa notícia é que os três amigos que pretendiam mudar seus respectivos domicílios eleitorais por insistência minha (apenas passarão a votar onde vivem há pelo menos um ano) não só o fizeram, mas confirmaram, de forma unânime, seu voto em Freixo. Para eles, pessoas com trajetória, pensamento e prática  progressista oriundas de outras unidades da federação, Marcelo Freixo é o melhor candidato a deputado estadual do estado que escolheram para viver.

Filipeta da campanha de 2006. Os números seguem os mesmos. Meus votos, para deputados, também.

*  *  *

Numa unidade da federação em que “mais da metade dos 7o deputados estaduais (…) responde a processo na Justiça” (os métodos e critérios para elaboração da conta são pra lá de discutíveis, mas ainda assim é público e notório que há diversos criminosos na Alerj – a dúvida é apenas em relação ao percentual: 10%? 20%? 30%? 40%? 50%?), um deputado que luta pelos ideais de igualdade, liberdade e fraternidade – e pela construção do socialismo – é, ao mesmo tempo, um luxo e uma necessidade. Freixo batalha não apenas através de retórica, mas sobretudo de ações concretas para tornar o mandato parlamentar uma ação criativa e a serviço das mudanças necessárias em nossa sociedade. Por iniciativa dele, deputados e deputadas estaduais criminosos perderam seus mandatos.

Contudo, ao contrário de alguns – inclusive no PSOL e na esquerda de um modo geral -, ele se nega a fazer política privilegiando a gritaria moralista e reivindicando para si um suposto monopólio da ética. Trabalha, no dia-a-dia, por um Rio de Janeiro melhor e justo para a maioria de sua população. Isto, a meu ver, é o principal.

*  *  *

Duvida? Veja a síntese da ação parlamentar durante este quadriênio. Poderia ser melhor. Infelizmente, diversas iniciativas não foram à frente – como a de abrir uma CPI para investigar as falcatruas na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.

Entre as lutas abraçadas pelo mandato que prosperaram, cito duas:

1) Contra as milícias

A necessidade do combate às milícias foi reconhecida pelo relator da ONU (Organização das Nações Unidas) para execuções sumárias, Philip Alston.

Neste vídeo, o deputado explica a luta. A proposta foi apresentada logo no início da legislatura, mas não obteve o número necessário de assinaturas. Após o episódio em que uma equipe de reportagem do jornal O Dia foi torturada por uma milícia, finalmente criou-se um clima favorável à criação da CPI. Os resultados da comissão se fazem sentir até hoje – seja na investigação e prisão de centenas de criminosos (a maioria, funcionários públicos da área de segurança pública), seja nas ameaças ao deputado.

2) A favor do funk

Freixo é autor da lei que derruba restrições injustificáveis para a realização de bailes funk, assim como da lei que institui o funk como cultura.

A iniciativa representa não apenas uma luta justa e necessária, mas a reconciliação da esquerda – ou, ao menos, de parte dela – com lutas que representam efetivamente avanço para as camadas populares, indepentementemente de juízos estéticos ou de valor. Freixo abraçou esta luta, apesar de parte da esquerda torcer o nariz para o funk e manifestações culturais semelhantes.

Aliás, o jingle da campanha 2010 é um pancadão. Nada mais justo. Nada melhor. Ouça!

*  *  *

Veja a lista com boa parte da repercussão midiática do mandato Marcelo Freixo/PSOL (2006-2010). Exemplo: a matéria “Campanha sob escolta“, da revista Istoé.

Confira também o simpático vídeo em que artistas declaram apoio à campanha:

*  *  *

Verso da filipeta de 2006.

Afirmo, com convicção, que o voto em Marcelo Freixo em 2006 foi o melhor e mais importante em minha vida eleitoral, iniciada em 1994. Considero sua eleição o que houve de melhor no resultado eleitoral de 2006 – inclusive porque tive muitas dúvidas sobre se a coligação PSOL/PSTU/PCB alcançaria o coeficiente eleitoral. Alcançou. Por ser o mais votado entre os candidatos dos três partidos, Freixo, com 13 mil votos, entrou na ALERJ.

Houve quem questionasse a legitimidade do mandato, argumentando que candidatos com votação superior a 30 mil não se elegeram. Ora, trata-se de ignorância ou má-fé (ou ambas).  Afinal, as regras para a formação dos legislativos são as mesmas há tempos. São de conhecimento de todos (ou, ao menos, deveriam ser) e aceitas por todos os partidos.

Durante estes quase quatro anos, acompanhei tão de perto quanto pude o mandato, inclusive informando e divulgando, aqui n’A Lenda, uma série de iniciativas. É só jogar “Marcelo Freixo” na busca da coluna da direita e ler os resultados.

Este ano, o PSOL, assim como a maioria dos partidos, disputa a eleição fluminense sem coligação. Com isso, a disputa será ferrenha e a conquista de uma vaga e a manutenção de Freixo na ALERJ, bastante difícil. Além disso, ele tem seu direito de ir e vir – e possibilidade de fazer campanha – cerceado pelas milícias, que o ameaçam de morte. Em diversos bairros da cidade, seus eleitores não podem declarar voto, botar adesivo no peito ou no carro, conversar a respeito, convencer amigos, colegas de trabalho, familiares e vizinhos. Estamos no Rio de Janeiro, mas nem parece.

*  *  *

Se nenhum dos motivos anteriores foi suficiente para convencer você, leitor, espero que este seja: a reeleição é fundamental não apenas para o trabalho continuar, mas para dar legitimidade à lutas realizadas – sobretudo à contra as milícias. Mais: uma votação monumental manda um recado – em alto e bom som – aos milicianos, dizendo-lhes que apoiamos o mandato Marcelo Freixo e a luta contra este crime terrível e de enormes proporções (sobretudo para as populações que vivem sob seu jugo). Uma votação maciça lhes dirá que nos recusamos a aceitar que criminosos empregados pelo Estado tomem para si e façam o que bem entendem com parcelas do território carioca e fluminese. Tal votação gritará que nos recusamos a aceitar que aqueles que trabalham pelo cumprimendo da lei, pelo bem e pelo interesse público sejam ameaçados de morte e tenham direitos básicos tolhidos (vale lembrar que, além de Freixo, são vários os ameaçados, incluindo membros dos Ministério Público, Judiciário e polícias).

*  *  *

Se você está se perguntando (ou querendo me perguntar) “por que esse cara escreveu esse texto?”, respondo:

Vivendo onde vivo, sabendo o que sei e vendo o que vi nos últimos anos, estranho seria se não o escrevesse.

Considero nobre o ato de votar. Nobre e sério. De certa forma, a decisão e o ato de escolher um candidato e lhe dar um voto ajudam a decidir o que será a vida no Rio de Janeiro nos próximos quatro anos.

E aí, que vida você quer para você, para os outros e para o Rio?

Para quem ainda não desistiu de acreditar no estado do Rio como um lugar decente, justo e livre, bom para todos e tranquilo para se viver, recomendo e peço o voto em Marcelo Freixo. Número 50123.

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13 Respostas to “Por que voto em Marcelo Freixo para deputado estadual”

  1. Vinícius Môro Says:

    Boto fé que Marcelo Freixo terá uma excelente votação, talvez não à altura do seu mandato, pois para isso teria que ser o mais bem votado. Quem sabe?
    Não votarei nele. Voto com o meu partido, PMDB. Mas faço questão de registrar a importância da reeleição de um político como o Freixo, que graças ao nosso sistema eleitoral (proporcional) pôde ser eleito em 2006 com apenas 13 mil votos.
    Pois é. Se por um lado esse sistema apresenta alguns exageros como o “fenômeno Enéas” (Eleições 2002). Por outro, permite que partidos minoritários possam também eleger seus representantes.
    Mas espero mais. Espero pode assistir já nessas eleições ao “fenômeno Freixo”, e que sua votação faça o PSOL aumentar sua bancada na ALERJ.
    Rafael, parabéns pela iniciativa.
    Não posso terminar sem mandar um abração aos meus amigos do PSOL de Maricá, Dudu e André Tertuliano.

  2. Leo Lagden Says:

    Caro Rafael,

    A esperança é a última que morre. Dessa maneira encaro cada eleição que venha a se realizar nesse país tão maltratado pela classe política.
    O voto para o Freixo é certo, assim como o Chico Alencar.
    Ainda tenho a esperança de que as coisas irão melhorar e a quantidade de coisas absurdas que vemos diariamente, muitas vezes legitimada em nome de uma pseudo-democracia, acabam por nos chocar.

    Mas…vamos fazendo a nossa parte!
    Abs do amigo.

  3. Lay Says:

    Eu tb voto no Freixo. Aliás, vai ser eleito fácil. Se bobear um dos deputados estaduais mais votados. Pode anotar! ;)

  4. Luana Says:

    Eu já ia votar nele, mas estava querendo fundamentar o meu voto.

    Há dias atrás andei pelo site dele e tomei a decisão.

    Seu texto, Rafa, me emocionou e me deu a certeza. E vamo que vamo.

  5. Fabiana Says:

    Meu voto já era do Marcelo Freixo e após uma passada pelo seu blog e pela grata surpresa de um texto tão verdadeiro e inspirador, fez com que minha convicção se transformasse em certeza.
    São canditados como Marcelo Freixo e Chico Alencar que desejo, não só para o meu Estado, mas para o país inteiro.
    Acredito e entendo todas as dificuldades que o partido esteja enfrentando, mas destaco a coragem e persistência com que os candidatos do PSOL estão lutando nessa eleição por uma divulgação de ideais tão nobres.
    Excelente texto para a divulgação , tanto para dar um norte aos desavisados quanto uma afirmação de um trabalho sério , seriamente retratado pelo dono do blog.

  6. Heloisa Vieira Says:

    Caro Rafael,

    Não vamos perder a esperança! Fiquei feliz com o seu texto. O Marcelo é também o meu candidato. Infelizmente ouvi, hoje, em Niterói,alguém dizer: “não quero saber de votar em ninguém, não acredito em político” Aproveitei para dizer que tenho, cada vez mais, orgulho de meus candidatos: Marcelo e Chico Alencar.

    Heloisa

  7. Christiane Says:

    Olá!
    Já tinha indicações para votar no Marcelo Freixo (voto sempre no Chico para Federal). Agradeço as informações para reforçar o meu voto.

  8. renata moraes Says:

    Rafael

    outro dia um “cabo eleitoral” do Freixo (acho que eles não são do mesmo nível dos outros cabos eleitorais por isso as aspas) me abordou num samba e ofereceu o panfleto da campanha. disse que nao era para ele se preocupar que com certeza o Freixo seria reeleito pq acredito que quem votou nele uma vez vai confirmar o voto nas próximas eleições, e assim por diante. ele me disse que não era bem assim, que na outra eleição havia a candidatura da Heloísa Helena que deu uma divulgação maior ao partido e que a eleição para ele não está ganha. nesse dia fiquei com medo. faço minha campanha de boca de urna entre os amigos para esses dois candidatos do PSOL e espero que ganhem com folga. no entanto, mesmo se não tivesse votado nele e nem lido o seu texto apenas um argumento me faria votar nos dois: eles não exploram a força de trabalho de pessoas que ficam sob o sol durante o dia segurando faixas e tomando conta de cartazes de candidatos hipócritas que dizem querer melhorar a vida da população mas exploram, mesmo assim, pobres coitados por uma pequena diária….nao vejo isso sendo feito por parte da candidatura deles e não voto em candidato que faça isso….

    até a vitória…
    parabéns pelo texto Rafael….

  9. Rafael Fortes Says:

    Obrigado a todos que comentaram.

    Estou na torcida pela reeleição, que será bem difícil, pelas razões que apontei no texto e pelos pontos que a Renata destacou.

    Abraços e beijos!

  10. Rapidinhas pré-eleitorais « A Lenda Says:

    […] declarei meu voto em Marcelo Freixo (PSOL) para deputado estadual no Rio de Janeiro. Eis os meus votos […]

  11. Meus votos em 5 de outubro | A Lenda Says:

    […] estadual: Marcelo Freixo (PSOL) – 50123 (Em agosto de 2010, expus os motivos pelos quais iria votar – e votei – […]

  12. Rapidinhas | A Lenda Says:

    […] um dos textos mais lidos do blogue tem sido uma declaração de voto que escrevi em 2010: “Por que voto em Marcelo Freixo para deputado estadual“. Nunca me arrependi: nem do texto, nem do voto (naquela eleição e em posteriores). Em […]

  13. Meu voto hoje | A Lenda Says:

    […] é dia de votar em Marcelo Freixo (PSOL) para prefeito do Rio. Em 2010, fiz uma extensa exposição de motivos pelos quais dei o meu voto para reeleger o então deputado estadual que finalizava seu primeiro […]

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