Já faz quase 30 anos, por Victor Melo

O texto abaixo foi escrito por Victor Melo, professor e camarada, num domingo à noite. Não um qualquer, mas 6 de dezembro de 2009, dia em que o Flamengo sagrou-se hexacampeão brasileiro de futebol. Dei uma pequena editada.

*  *  *

Já faz quase 30 anos…

por Victor Melo

O menino jogava bola, naquelas tarde intermináveis que só os subúrbios têm, quando o pai lhe convocou para assumir sua responsabilidade, ainda que muito novo fosse:

– Vem, vai começar o jogo!

Assustado, o menino se rende, embora pairasse a dúvida entre o jogo que se desenrolava a finalizar o fim de semana e o jogo que, pelas ondas do rádio, chegaria a seu conhecimento. Na verdade, não tinha clareza do que aquele chamado significava, mas como negar ao pai pedido tão profundo? Mesmo duvidoso, foi (mais tarde, descobriria que isso seria algo comum em sua vida…).

Ao chegar à casa, lá encontrara o pai na sua postura tradicional das tardes de domingo, vestido para a guerra tal qual um São Jorge pagão (ou, mais acertadamente, como um Ogum, como era a tradição que professava o velho, herança que passou para toda a família). A cena era a de sempre, tal como os filmes de velho oeste e de kung fu, que tanto via nos “poeiras” do bairro adjacente: a vitrola (tempos em que não existiam os 3 x 1) emanava a verde luz, o pai enlouquecido andava qual leão de zoológico, o ar era tenso, a face denunciava: o jogo começara.

Não qualquer jogo, era O jogo, o jogo da vida, saberia depois o menino quase frustrado. No meio da semana, em Belo Horizonte, as coisas não foram lá muito bem. O pai, viajando a trabalho, ligara e acalmara o coração do garoto, que de fato não estava agitado:

– Tranquilize-se, nada tira nosso título, seremos campeões!

O filho tranquilo estava, tranquilizado ficara: não havia nenhuma questão que lhe perturbasse naquela vida de quem pouco tem e nada quer – a não ser olhar com admiração “os atlas” que indicavam que o mundo era tão grande!

Não sabe por que – só saberia depois – sentira algo estranho naquela tarde de domingo: o clube do pai, seu clube, disputaria sua primeira final de um campeonato brasileiro de futebol.

O pai foi categórico:

– Demoraste. Não sabes que és meu amuleto?

O filho, brigão sabe-se lá por que, no possível de sua maturidade à época, não gostava disso. Mas, dessa vez, assumiu sua postura: amuleto era, amuleto seria!

E que jogo foi! O tal de Rei da equipe oposta problemas causou, mas ao fim, como previra o profeta e poeta (da vida) pai, lá se configurava o que todos os deuses do universo já sabiam: vitória. Faz quase 30 anos…

O pai, contudo… O pai, não; os que detém os caminhos traíram o menino… Que lástima! Levaram o pai! Que grande sacanagem! Que grande putaria! Sem mais nem porque, levaram aquele que instituíra no menino o amor incondicional. Por quê? Por quê? Que houve?

Com o coração derrubado, tombado, caído, que restou ao menino? Seguir –  destino de todos mesmo, depois descobriria o cara. Do futebol, se afastara: que graça tinha torcer sem o pai?

Mas a vida, ah, a vida! Um dia o filho virou pai, e como pai, que chegou a negar ser, lembrou do pai, que seria avô se vivo estivesse. No seu peito ainda guardava a sensação de vingança, vingança de não sabe o que, vingança do que não podia controlar. Guardou no peito este sentimento: um dia, se vingaria! Ah. esse dia chegaria! Não sabia como, não sabia quando, mas lá estava no seu interior, guardada, a certeza de que um dia chegaria o dia da vingança. Ah, sim, chegaria, com certeza!

E naquele domingo, percebera que chegara o dia. Sem falar para ninguém, arquitetou no seu coração a tão sonhada vingança, hoje seria o dia. Frio, impassível, escolheu minuciosamente onde veria o jogo. Estaria acompanhado do filho, seu amuleto, como o fora do pai. Filho que, numa homenagem surda (não muda, pois ela grita), tinha o nome do pai; hoje seria o dia da honra.

E lá foi ele, quieto, impávido, contendo-se, a ninguém falando, nem ao filho, que aos dois anos nada tem a ver com isso. A vingança era sua. Hoje, diria à vida que, apesar de tudo, se superou, celebrou, bebeu, cantou, sofreu. Hoje era o dia, o dia tão esperado. O filho, pequeno, alheio e alegre assistia, brincava: ele não tinha nada com isso, a vingança era de um, não de outro. Mas ele fazia parte, era seu amuleto, tinha que estar por perto, como estivera do pai, que avô seria.

Viu o jogo num silencio interior atroz: ninguém sabia de sua dor, nem precisava saber, era sua, só sua, uma joia sua. Tratava-se de algo que tinha que resolver consigo, e tinha que ter perto o filho, a homenagem surda, o redentor, o que o fez reencontrar a vida que estacionara faz quase 30 anos.

É lógico que nada disso foi fácil, o jogo não foi fácil, a vida nunca é fácil mesmo. Mas, ao fim: vingança! Seu pai estava vingado! Ele estava vingado! O filho do filho do pai vivera o mesmo ritual: fomos campeões!

E naqueles minutos, e naqueles instantes, percebeu-se que a vida é também um jogo de futebol. Percebeu-se que noventa minutos podem sintetizar a vida de um, ainda que nada diga respeito a outro; percebeu-se (ou percebeu) que é por isso que a vida segue e sempre há um jogo depois do outro, um campeonato depois do outro, vitória e derrotas que se sucedem. Tudo resumido em um simples jogo de futebol.

E isso já estava se esperando faz quase 30 anos…

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Uma resposta to “Já faz quase 30 anos, por Victor Melo”

  1. “É o novo ground”: o Clube de Regatas do Flamengo « Rio, Cidade "Sportiva" Says:

    […] minha memória e minha história. Já escrevi algumas coisas sobre isso, disponíveis no blog A Lenda, do amigo Rafael Fortes, e no sítio do Sport, laboratório que […]

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