Estamos em 2011, e não no século X ou XVII. Estamos?

Foi no que fiquei pensando ao ler a boa matéria de Roney Rodrigues na Caros Amigos de março: “Os contrastes da indústria da cana”. Um trecho:

“O trabalho nos canaviais é repetitivo e exaustivo. A cada minuto, o boia-fria é submetido a 17 flexões de tronco e aplica 54 golpes de facão e leva nas mãos cerca de 15 kg, por uma distância de 1,5 a 3 metros, até completar as 12 toneladas cortadas. Ao todo, são nove quilômetros trilhados diariamente. Os joelhos ficam o tempo todo semiflexionados, o que ocasiona extensão da coluna cervical. Perde-se 8 litros de água e a hidratação não é suficiente. Também não dispõem de local adequado para as refeições, que são acondicionadas e servidas em recipientes improvisados. Muitas vezes, o alimento fermenta ou azeda, porém, como o trabalho consome muita energia, eles acabam consumindo a comida mesmo estragada.

Isso não é Valdevino quem diz, mas um estudo feito pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (…)”

Outro:

“Essa maratona diária tras [sic] uma série de prejuízos ao boia-fria, como mal-estar e dores em todo o corpo, provocados pela sobrecarga de trabalho, perda de líquido, câimbras intensas associadas ao vômito, além de doenças adquiridas em médio prazo, como hérnia de disco e de esôfago, acidente vascular cerebral, câncer de pele e desequilíbrio nos indicadores de urina em decorrência da fuligem da cana, que contém agrotóxicos. São reclamações frequentes. Além disso, os locais onde residem apresentam constantes irregularidades: espaço pequeno, instalações hidráulicas e elétricas deterioradas, colchões, banheiros e chuveiros insuficientes e de péssima qualidade, instalação de fogões e armários em locais impróprios. Em algumas pensões, se amontoam mais de 30 peões.”

O corte de cana, como se sabe, é atividade degradante e precisa acabar (esse ponto é discutido no final da matéria). O setor é um dos campeões de flagrantes de trabalho em condições análogas à escravidão. O aumento da produção de álcool está entre as razões para o grande aumento dos preços de alimentos observado nos últimos dois ou três anos no Brasil.

Os trechos citados referem-se a trabalho no interior de São Paulo, estado mais rico da federação. A reportagem informa que o trabalhador mencionado viaja anualmente do Piauí para São Paulo. Seu trabalho enriquece fazendeiros –  cujos filhos, criados com as benesses e o conforto da mais-valia extraída pelos pais, talvez estejam entre os que gostam de vociferar, inclusive via internet, que São Paulo é o motor do Brasil (experimente jogar a expressão em um mecanismo de busca) e que nordestino tem que morrer (como nos tristes episódios pós-eleições 2010, que suscitaram boas respostas, como esta).

Por fim, vale lembrar que, enquanto esteve na presidência, o ex-retirante pernambucano Lula (PT) referiu-se aos usineiros de cana como “heróis“.

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Uma resposta to “Estamos em 2011, e não no século X ou XVII. Estamos?”

  1. Cristiane Says:

    Rafa,
    a título de curiosidade, os preços do álcool anidro ( que se usa na mistura com a gasolina ) subiram em plena safra. Segundo a Unica ( associação formada pelos usineiros ), a explicação é simples: aumento da demanda, a velha lei da oferta e da procura.
    Vale lembrar que a produção de álcool é subsidiada pelo governo.
    Será que esse aumento no preço do álcool será revertido em melhores salários (se é que se pode chamar de salário) e condições de trabalho para os cortadores de cana? Ou alguém aí ainda duvida que o que efetivamente acontecerá será apenas um aumento na margem de lucro dos usineiros?

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