Atualizando: a bandalheira da Copa e da Olimpíada

Em dezembro de 2010 e agosto de 2011, publiquei no blog História(s) do Sport textos apresentando razões pelas quais considero trágicas para o Brasil (e particularmente para o Rio de Janeiro), a realização da Copa do Mundo masculina de futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Sigo torcendo – com parcas esperanças de êxito – para que minhas críticas e análises se mostrem equivocadas.

Contudo, os acontecimentos condenáveis – dos quais os meus textos são nada menos que panoramas bastante parciais – seguem em ritmo alucinante. Por exemplo, é de deixar os cabelos em pé a matéria da Caros Amigos que está nas bancas (setembro/2011) sobre a construção do estádio do Corinthians. A chamada de capa e o título da reportagem dão uma ideia do teor: “Itaquerão – Dinheiro público para a Odebrecht” e “Itaquerão – Especulação imobiliária e ‘higienização’ às custas do Timão”. Um trecho:

” ‘Eu durmo com um olho aberto e outro fechado de preocupação, porque de uma hora pra outra eles podem chegar com a máquina e retirar todo mundo daqui sem dar nada pra gente. Esse é o medo dos moradorres desde quando saiu o boato do estádio do Corinthians.’ O relato de Diana do Nascimento, moradora há 16 anos da Viela da Paz, na verdade, fala pelas cerca de 380 famílias que vivem ali. O problema é que nos projetos do governo municipal para a região, a comunidade não existe e a casa onde Diana criou os filhos é o Parque Linear Rio Verde.

Embora as imagens dos projetos da Prefeitura sejam públicas, nenhum representante do poder público, até o momento, conversou com os moradores da Viela da Paz sobre a possibilidade de realocação das famílias.”

Apoio da mídia corporativa

Enquanto isso, sexta-feira passada (16/9), o Globo Esporte exibia um show – é complicado classificar aquilo de jornalismo – sobre as obras pelo Brasil, a partir do mote “faltam mil dias para a Copa”.

O apoio acrítico (em outras palavras, conivência) de boa parte da mídia corporativa, claro, tem seu preço. No fim de semana passado (17 e 18/9 ), a Rádio Tupi, cujo jornalismo esportivo tem momentos razoavelmente críticos em relação à bandalheira corrente, repetia à exaustão um comunicado – pago, é claro – do Consórcio Maracanã Rio 2014 (leia-se empreiteiras Delta, Andrade Gutierrez e Odebrecht) convocando os trabalhadores para voltarem ao trabalho. A base para o chamado era a decisão da Justiça do Trabalho, que considerara ilegal a greve mais recente. Fucei razoavelmente a internet, mas não consegui encontrar a íntegra do texto, fosse por escrito, fosse em arquivo de áudio. Como é típico do maravilhoso mundo da publicidade e das relações públicas, produz-se ficção como se fosse informação – e esconde-se logo depois. Se o objetivo era informar, por que divulgar, no site, apenas a primeira frase da nota – e não sua íntegra? A contradição em relação ao nome do documento – “nota de esclarecimento” – é autoexplicativa.

Travestido de comunicado sério, o teor da nota que ouvi no rádio convocava os trabalhadores a, ordeiramente, retornarem ao trabalho. Dizia ainda que a empresa cumpria tudo que fora combinado e fazia tudo direitinho. E finalizava sugerindo que os peões deveriam ajudar a manter uma boa imagem do Rio, do Brasil, da Copa e do estádio – algo a orgulhar a cidade e os brasileiros. Ou seja, danem-se as condições materiais de existência dos trabalhadores, desde que o Rio fique (supostamente) bem na fita no exterior. País, estado, cidade, estádio para os seus cidadãos, para o cotidiano, para o usufruto dos que pagam impostos e para a garantia de direitos? Mas, que nada…

Contudo, há jornalistas que se posicionam de maneira crítica. Uma lista dos veículos em que estas vozes têm razoável espaço foi dada pelo próprio presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, em perfil publicado recentemente na revisa Piauí. (Reproduzi o trecho no artigo que escrevi mês passado, mencionado no primeiro parágrafo.) Um deles é Jorge Kajuru, que abriu o verbo em entrevista à Radioagência NP publicada no Brasil de Fato. Um trecho:

A realização da Copa demanda um investimento financeiro muito alto. Grande parte vem por meio do financiamento do BNDES. Você é a favor de financiamento público em um evento, que como você disse, terá o lucro dividido em meios privados?

A Copa é no Brasil, mas não é para os brasileiros. É uma Copa para turistas. Quem vai pagar a conta é o brasileiro, vai sair do imposto. O BNDES já colocou R$ 4,8 bi na Copa. Até 2014 pode dobrar esse valor. O mais grave é que quando foi definido o Brasil como sede da Copa, ficou estabelecido de forma pública, para todos os brasileiros – nas palavras do então presidente Lula e do Ricardo Teixeira – que não se gastaria nenhum centavo público para Copa do Mundo, que todas as despesas seriam privadas. O governo e o Ricardo Teixeira mentiram, foram canalhas.

As articulações e acomodações de interesses entre esporte e política vão longe. Um exemplo é esta nota da coluna de Hamilton Octavio de Souza no Brasil de Fato (ed. 445, 8-14/9/2011):

Santa Ingenuidade – Até parece um conto de fadas: o Ministério dos Esportes repassou R$ 6,2 milhões ao sindicato dos dirigentes de futebol, o Sindafebol, para fazer o cadastramento nacional das torcidas dos clubes. O sindicato dos cartolas embolsou o dinheiro e não cuidou da contrapartida, mesmo porque não tem competência para tal serviço. Pergunta básica: por que o Ministério liberou o dinheiro sem ter a garantia de que o serviço seria realizado?”

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Uma resposta to “Atualizando: a bandalheira da Copa e da Olimpíada”

  1. Cristiane Bortoluzzo Says:

    Ingenuidade dos milhões de brasileiros que acreditaram (e seguem acreditando) que os megaeventos serão um grande negócio pro país. Ingenuidade ainda maior é ter alguma esperança de que os mortais como nós conseguirão assistir aos jogos do Brasil na Copa…
    É triste notar como o governo, os meios de comunicação e os empresários que estão lucrando com toda essa pouca-vergonha se utilizam de jargões baratos para convencer o povo que essa apropriação descarada de cifras impressionantes de dinheiro público será boa para a população… Isso sem falar de todas as remoções nas cidades-sede, a pretexto de preparar a infra-estrutura para os eventos… Encontraram a fórmula perfeita pra desviarem somas altíssimas de dinheiro sem serem questionados pela população, que ainda acha tudo maravilhoso!
    Estamos perdidos…

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