Duas observações empíricas e uma leitura fundamental

Por essas coincidências da vida, sábado fui a duas festas de casamento. Uma em Niterói, outra no Rio. De todos os convidados e convidadas – homens e mulheres; velhos, adultos, adolescentes e crianças -, notei apenas um que usava uma camisa em que se podia ler algo.

“Mas o cara vai a festa de casamento e fica reparando nas roupas dos outros?”, talvez você esteja pensando. É que se tratava de uma camisa da marca Hang Loose, vestida por um adolescente. Mesmo num lugar e situação de lazer, lá estava meu objeto de estudo, presente. Por essas e outras que argumento, em meus trabalhos, sobre a importância do surfe e de sua indústria no imaginário infanto-juvenil e jovem, especialmente no Grande Rio.

*  *  *

Domingo, caminhada pela Avenida Atlântica, em Copacabana, onde ocorria a Parada do Orgulho LGBT. Paro em uma transversal e tento comprar uma cerveja.

– Tem latão?

O camelô, com o isopor dentro de um carrinho de supermercado, responde que sim, mas passa direto. Está nervoso. Vou atrás.

A cada cinco segundos, ele pára e olha para trás, na direção da praia. Lá estão três guardas municipais, cuja função, aparentemente, é reprimir o comércio “ilegal” (segundo a visão da Prefeitura) e zelar para que apenas os camelôs credenciados (segundo disse um dos guardas à minha namorada, que foi interpelá-los) possam trabalhar. Não vi camelô de cerveja algum na Atlântica – credenciado ou não.

Em uma situação constrangedora, tanto eu (comprador) quanto o camelô (vendedor) nos comportávamos como se estivéssemos fazendo algo ilícito. Por alguns minutos, me senti na pele de quem lida com drogas ilícitas na rua – e foi uma sensação muito ruim. Ele desabafou:

– Isso é culpa do senhor Eduardo Paes. Não quer deixar as pessoas trabalharem.

Milhares de pessoas desfilavam, dançavam, se divertiam e/ou militavam na orla. Boa parte delas, como é comum em eventos populares no Rio, ávida por beber cerveja. Os restaurantes e quiosques estavam lotados – contrariando, portanto, a previsível e cansativa argumentação de que o camelô “tira o movimento do comerciante legal”. Aliás, fico pensando em quantas notas fiscais os quiosques e restaurantes emitiram ao longo do movimentado dia; quantas notas fiscais de venda de coco cada quiosque emitiu…

Mas eu dizia que havia milhares de pessoas com latinhas na mão – e querendo mais. Público com o desejo de comprar – e, claro, querendo se deslocar o mínimo possível para fazê-lo. Camelôs querendo vender. E os funcionários públicos da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, por ordem do prefeito Duda Fascistinha, na ingrata situação de atrapalhar o negócio. Tudo isso numa sociedade em que grassam o desemprego e a pouca oferta de oportunidades de trabalho formal. E em que, mesmo assim, as pessoas buscam trabalhar, buscam um sustento.

Vi também passarem alguns catadores de latinhas de alumínio. Equilibravam na cabeça sacos plásticos enormes. Para conseguir um troco, trabalhavam limpando a rua e contribuindo decisivamente para a preservação do meio ambiente – e para que o Brasil ostente o título de campeão mundial de reciclagem de alumínio. Isso, ao menos, a Prefeitura ainda deixa.

(O texto indicado a seguir ajuda a compreender de que maneira este fato aparentemente isolado se insere numa política higienista de larga escala, aplicada a partir da integração, no Rio de Janeiro, das esferas municipal, estadual e federal.)

*  *  *

Por fim, a leitura: “Se o mundo fosse nosso outra vez: Rock in Rio como laboratório urbano“, de Cláudio Ribeiro (professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro), publicado no blogue do Laboratório de Direito e Urbanismo (PROURB/FAU/UFRJ). Trata-se de uma análise do projeto de cidade que vem sendo implantado, a ferro e fogo, pela Prefeitura do Rio – o mesmo tipo de projeto sobre o qual comentei segunda-feira. Um projeto em que o poder público entra com o dinheiro, as leis de exceção, a repressão, a preocupação com os turistas e com a imagem do Rio no exterior e o investimento para legitimar tudo isso como se fosse um bem para a cidade, o estado e o país (este investimento inclui altas somas para comprar o apoio da mídia hegemônica, via publicidade e outros esquemas). E grandes empresários embolsam o lucro.

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