Minicrônicas de boteco (2)

Tem dias que, de noite, é foda. Assim dizem alguns no Rio de Janeiro. Ontem foi um. Rodada trágica do Brasileiro: derrota do Flamengo (jogando mal à beça) naquele Triângulo das Bermudas do futebol rubro-negro chamado Curitiba e vitória do Vasco, com exibição de gala de Dedé e briga com o Corinthians pelo título.

Mas aí, mesmo em meio ao horror (estar num bar cheio de vascaínos felizes celebrando a vitória), perto do finzinho do jogo, a cena redentora. Mas, peraí, deixa eu descrever rapidamente o personagem. O garotinho, camisa do Vasco, via o jogo e roía as unhas. Chegara com o pai, obviamente vascaíno. Em meio a adultos que se valiam de cerveja para aguentar a pressão, tomou dois copos de guaravita, dados por um “tio” (que, talvez, fosse tio mesmo, sem aspas). O pai deste garoto era quem comandava os gritos e cânticos dos vascaínos ensandecidos, após cada gol ou boa jogada.

Em outra mesa, a menos de três metros, uma “vovó”. Senhora, cabelo grisalho mais para branco do que para preto, tomava sua cervejinha, fumava e torcia desesperadamente pelo Botafogo. Usava a camisa do time do coração. Fez figa (e deu certo) no pênalti perdido por Diego Souza.

Eis que, no finzinho do jogo, vem a cena, arrebatadora. O garoto se dirige até a vovó, que olha para ele. Ela abre os braços e ambos se abraçam. Um abraço daqueles: carinhoso, amplo, bonito mesmo. Eu viro para o pai e falo assim, em tom de elogio:

– Rapaz, assim o seu filho vai fazer todo mundo chorar aqui no bar.

Respondeu quem, naquele momento, provavelmente era o pai mais orgulhoso do mundo:

– Ele é muito carinhoso. Ele virou pra mim e falou, meio preocupado: “papai, tá todo mundo aqui comemorando, gritando, mas, olha só, a tia ali é botafoguense”. Falei pra ele: “ué, vai lá e dá um abraço nela, então”. Esse moleque ontem tava no hospital, passei o dia com ele lá, internado.

Pê da vida com a rodada, logo depois fui embora pra casa. Mas aquele menino, aquele abraço me fizeram achar que esse mundo tem jeito.

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2 Respostas to “Minicrônicas de boteco (2)”

  1. André Alexandre Says:

    Caro Rafa:

    Bem legal. Li o post e, automaticamente, imaginei a cena. Se todo mundo fosse pelo menos um pouquinho assim…

    Um abraço,

    André Alexandre

  2. luiz Says:

    com certeza o mundo seria bem melhor de se viver está faltando solidariedade humana entre as pessoas um simples gesto é muito util para quem precisa faz a diferença.essa cena nao sai da cabeça,nosso mundo de correria nos faz esquecer esses pequenos gestos, um forte abraço caro rafael fortees ,obrigado pela sua atenção

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