Uma reportagem canalha, uma reflexão brilhante

Amigo divulga no Facebook texto sobre uma matéria da Globo. Leio o artigo, vejo a matéria. Trata-se – o texto – de “Flagrantes preparados do Jornal Hoje levantam sérias questões éticas“, publicado no blogue Roteiro de Cinema News, de Fernando Marés de Souza.

É daquelas ocasiões em que me sinto revoltado pelo ocorrido (a matéria “jornalística” cometida pelo Jornal Hoje, da Rede Globo), mas de alma lavada por ler uma reflexão não só excelente, mas daquelas que eu gostaria de ter escrito.

Já abordei os métodos de reportagem utilizados pela mídia corporativa brasileira em pelo menos duas ocasiões. Pela falta de tempo, infelizmente não posso escrever muito sobre o caso no momento. Quem quiser saber o que penso, além dos links na primeira frase deste parágrafo, pode ler esta sequência de textos (1, 2, 3) aqui n’A Lenda. Transposta para o universo acadêmico, ela deu origem a um artigo publicado  em 2010 na revista eletrônica E-Compós.

Fico com duas observações:

1) Ao menos, todos os suspeitos de conduta condenável do ponto de vista ético, legal e profissional estão identificados. Uns, com o rosto, agindo ao volante. Outros, com os nomes lidos pelo apresentador no início da matéria, ou identificados com créditos ao longo da mesma. Por fim, os responsáveis, cujo nome aparece ao final deste e de outros telejornais da emissora.

2) Ao final da “matéria” (confesso que fiquei na dúvida se o mais adequado era usar aspas ou itálico para problematizar o uso do termo…), o apresentador diz: “nós selecionamos 10 vídeos que melhor ilustram essa conduta dos manobristas.” Antes, o texto em off  já informara que, dos 65 manobristas, 19 vasculharam o carro ou pegaram algo. Em outras palavras, isto significa que 46 não o fizeram! Salvo engano meu, nenhum destes aparece na reportagem. Nem uma moralzinha para a patroa, os filhos ou a mãe verem que o fulano de tal, manobrista, é exemplo de conduta segundo os parâmetros do jornalismo da TV Globo. Afinal, ela não está aí para dar espaço para mano trabalhador algum – o imenso contingente das classes populares que formam a população brasileira. Já para condenar, execrar, esculachar…

Encerramento mezzo-preguiçoso, mezzo-didático: fica para o(a) leitor(a) a tarefa de fazer os cálculos percentuais (19/65 contra 46/65) e ver com quantos exemplos, ocorrências e ilustrações se faz o jornalismo canalha – como muito bem definiu José Arbex Jr. – da mídia corporativa brasileira.

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2 Respostas to “Uma reportagem canalha, uma reflexão brilhante”

  1. pablo dias fortes Says:

    Valeu pela dica, Rafael. O texto é realmente muito interessante e bastante revelador da “etiqueta” (sim, me recuso a usar o substantivo “ética”!) jornalística da globo.

    A propósito, compartilho aqui contigo um texto que escrevi no ano passado. Segue o link:
    http://www.redehumanizasus.net/9222-por-uma-clinica-da-midia-brasileira-a-proposito-da-polemica-em-torno-do-pndh

    Grande abraço!
    Pablo

  2. Rapidinhas « A Lenda Says:

    […] caixa de comentários da entrada anterior (sobre a reportagem pilantra do Jornal Hoje) para este apanhado de curtas: vale […]

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