Rapidinhas

Tomei conhecimento da Plataforma para um novo marco regulatório das comunicações. Não só endosso as propostas (tenho problemas apenas com uma) como considero-as fundamentais para melhorar nossa frágil democracia.

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Da coluna Fatos em Foco, de Hamilton Octavio de Souza, no Brasil de Fato (ed. 15-21/12/2011):

“A Comissão Pastoral da Terra denuncia a ação truculenta da parceria Estado-Eike Batista, que está desapropriando e despejando na marra centenas de famílias que vivem no município de São João da Barra (RJ), em áreas que serão usadas pelo polo industrial ligado ao Porto de Açu, do empresário brasileiro. Mais uma vez a opção a favor da concentração econômica esmaga a opção de bem estar social e a agricultura familiar de muitos.”

O assunto já foi tema de reportagem de página inteira no jornal, meses atrás. As informações apresentadas na ocasião foram de arrepiar os cabelos.

Sem minimizar a truculência e os absurdos de Pinheirinho e da USP, promovido pelo governo tucano paulista, episódios com algum grau de semelhança acontecem diariamente em vários estados do Brasil, inclusive naqueles em que o Partido dos Trabalhadores ocupa a chefia do Executivo (como a Bahia) ou é governo (como o Rio de Janeiro). Nestes casos, boa parte das vozes progressistas que sempre criticam (com toda razão) o governo paulista se calam. Outros criticam, mas não apontam, nos textos e reportagens, os partidos envolvidos.

Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, o secretário municipal de Habitação é ninguém mais, ninguém menos do que Jorge Bittar, prócer do PT fluminense. Ou seja, uma prefeitura que viola sistemática e amplamente o direito à moradia, as leis brasileiras e as convenções internacionais das quais o país é signatário o faz com apoio e chancela do PT. As remoções relativas à Copa do Mundo, à Olimpíada, ao Porto Maravilha e outras obras cujo objetivo é usar a cidade para produzir lucro para as empresas do ramo imobiliário são feitas não só com conivência, mas com o apoio e participação decisivas do PT, de seus líderes e governos (por exemplo, com farto financiamento pelo governo federal).

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O trecho acima estava escrito há um tempo, esperando revisão, para eu soltar essas rapidinhas. Já havia até me esquecido dele. Aí ontem li uma matéria do Brasil de Fato, em edição (26/1 a 1/2) anterior à privatização de aeroportos feita pelo governo Dilma Rousseff (PT), sobre o tema. A reportagem de página inteira (com uma coordenada na parte inferior direita) não cita, em momento algum, termos como governo Dilma Rousseff, Partido dos Trabalhadores ou PT. Apenas aparecem, na coordenada, os nomes de FHC e Collor. O título, “Acordo com a Infraero garante estabilidade“, sugere que o processo atual é menos pior do que os anteriores.

Não sei não, mas jornalismo de esquerda (alternativo, popular, de esquerda, altermundista ou como se quiser chamá-lo), a meu ver, não é apenas repetir as práticas daquele (mal)feito pela mídia corporativa, trocando o conteúdo por outro contrário (trocar um pólo por outro). Trata-se também de fazer diferente. E essa edição do Brasil de Fato está horrorosa neste aspecto: são dois pesos e duas medidas para todo lado, pois a extensa cobertura do horror em Pinheirinho identifica e responsabiliza, insistentemente, o PSDB (e é óbvio que o governador de São Paulo teve papel preponderante na história, e o jornal deve informar isso), a começar pela chamada de capa.

Já na matéria sobre as privatizações, um leitor distraído poderia achar que não há governo, governante ou partido responsável por elas. Onde estão as vozes do governo Dilma Rousseff, do Ministério dos Transportes, dos partidos responsáveis pelo Executivo federal (PT ) e por esta pasta (PR), do Banco Nacional de Deselvolvimento Econômico e Social e da Agência Nacional de Aviação Civil? Denunciar o uso de dinheiro público para as privatizações é correto. Denunciar o uso deste dinheiro para financiar a compra por estrangeiros é correto. Associar o caso a outras privatizações e apontar os possíveis (prováveis!) problemas é correto.

Agora, não dar nome aos bois, não apontar os responsáveis, não mencionar sequer o governo que tomou a medida…

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A revista Rio Pesquisa, da Faperj, trouxe matéria muito interessante sobre uma pesquisa realizada pela professora Claude Cohen, da UFF (Universidade Federal Fluminense), a respeito da desigualdade energética e do custo da eletricidade para moradores de comunidades do Rio de Janeiro (aqui, a edição completa em pdf). A presença ou ausência de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e de gatos estão entre os fatores levados em consideração. Uma das conclusões é de que o custo da energia é muito alto para o orçamento de parte das famílias. Não é de se espantar, tendo em vista que os consumidores residenciais brasileiros pagam uma tarifa exorbitante, a qual se explica, em parte, pelas privatizações (olha elas aí de novo!). Uma das conclusões aponta a necessidade de tarifas sociais, ou seja, de subsídios.

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Uma resposta to “Rapidinhas”

  1. Carnê de IPTU 2007: Jogos Pan-Americanos, Cidade Olímpica e o Rio do PMDB | A Lenda Says:

    […] de cantinho do secretário.“) e o bilionário que ganhou o Maracanã, a Marina da Glória, o Porto do Açu e vários outros […]

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