Rapidinhas em greve

Recomendo enfaticamente o texto “A greve como renovação do espaço público universitário” (pdf), de Cláudio Rezende Ribeiro, professor da UFRJ.

Estes novos espaços, por sua vez, abrigam novas práticas sociais. Critica-se, entende-se, questiona-se; a universidade passa a tomar conhecimento de si mesma, são debatidos o ensino, a pesquisa, as condições e relações de trabalho… Estudantes questionam a postura dos colegas e dos professores. Professores se reconhecem em diferentes saberes e embates, o conflito reaparece também, aliviando o silêncio anterior. Aos poucos as práticas reconquistam o rumo da autonomia universitária, possibilitando que, após a pausa, não haja um retorno à lógica anterior. A greve, aos poucos, mostra que sua conquista não se dará apenas com seu fim, mas com o resultado daquilo que o tempo ali construído coletivamente será capaz de produzir, isto é, uma renovação de idéia, da concepção do que é e do que pode ser uma universidade pública brasileira, só que agora informada pelo concreto, rompendo assim com o espaço da ilusão. O espaço público, lugar de realização da autonomia, volta a ser vislumbrado.

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Outra excelente reflexão: “O erro de diagnóstico da Unifesp“, do professor Henry Burnett. Como é característico de alguns bons textos, analisa a partir de uma perspectiva particular, mas acaba servindo para pensar outras situações e realidades. Pelo que leio, a Unifesp é muito diferente da Unirio. Mas certas passagens me soaram bastante familiares. Por exemplo, esta:

Apesar de uma verba de milhões, até onde sabemos liberada há anos, o novo prédio nunca passa de uma maquete branquinha que adorna a entrada – sempre supostos entraves burocráticos barrando as licitações.

Quando saio do Estado, colegas de outras instituições me tratam com muito respeito. Demorei a entender. Para meu desgosto, vim a saber que isso era fruto da ideia de que éramos privilegiados por trabalhar na Unifesp, “centro de excelência”. E eu invejando seus campi arborizados onde tudo funciona, até a internet…

Na minha sala, há três caixas de livros, parte de uma doação dos professores Paulo e Otília Arantes. Não temos onde colocar. Estavam ameaçados por goteiras. Dividimos o acervo nas nossas salas, sem esperança. Meu sentimento maior é vergonha.

Imagem retirada daqui.

No meu caso, os livros que comprei com verba (pública) de um projeto de pesquisa estão trancados dentro de um armário, acessíveis apenas a mim. Até que a prestação de contas da compra seja aprovada, preciso mantê-los reféns. Uma ótima aplicação de dinheiro estatal, não? Destino mais melancólico é o da impressora, também atochada no armário porque não tenho mesa onde pô-la.

Aliás, a Unirio sequer me forneceu o armário para entulhar o material – armário deveria ser uma contrapartida típica e básica da universidade, não? Tive que separar quase R$ 800 do projeto para comprá-lo. Enquanto o elaborava, jurava que o item seria cortado na avaliação pela agência de fomento, sob a alegação de que “armário entra na contrapartida da universidade”. Não foi. Pelo visto, as agências de fomento sabem bem o que esperar das universidades: nada.

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Elio Gaspari publicou, no domingo (17/6), importante texto sobre a maneira pela qual o Governo Dilma Rousseff (PT) vem lidando com a greve dos professores das instituições federais de ensino superior (Ifes). Um trecho:

Depois de um mês, com um prejuízo de R$ 1 bilhão para a Viúva, a perda de aulas para cerca de 600 mil estudantes, o governo reuniu-se com os grevistas. Na melhor técnica da marquetagem, a comissária Miriam e o ministro Aloizio Mercadante (tão frequente nas cenas de comitivas presidenciais) não apareceram na fotografia.

O governo apresentou a promessa de um plano de carreira semelhante ao do Ministério da Ciência e Tecnologia, e informou que oficializará a proposta nesta terça-feira.

Aí na segunda (18/6) o governo suspende a reunião de terça e diz que é por causa da Rio+20. (Aqui entrariam palavrões, mas deixa quieto.)

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Algumas fotos que fiz na passeata que se seguiu ao ato público de ontem (20/6), no Centro, juntando-se à marcha da Cúpula dos Povos.

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Iniciativa fundamental do mandato do vereador Eliomar Coelho (PSOL): homenagear os pesquisadores que foram processados pela empresa TCKSA. Tá ficando bizarro isso de empresas processarem pesquisadores porque seus trabalhos produzem resultados sobre o mundo, e não sobre o mundo apresentado pelo marketing, pela publicidade e pelas relações públicas das próprias corporações. Intimidação pura via poder econômico.

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