Rapidinhas

Depois de passar duas semanas praticamente falando de Rio+20 (como se as universidades federais não estivessem em greve e a única preocupação e frente de atuação política e pública dos cientistas brasileiros no momento fosse o meio ambiente), o Jornal da Ciência, editado pela SBPC, tem publicado uma ou duas notícias por dia sobre o assunto. Hoje, surpreendentemente, reproduziu texto que critica o governo atual: “O ABC das greves“, do professor Sidney Jard (UFABC). Um trecho:

O resultado é que atualmente, descontada a inflação, os professores iniciantes recebem, comparativamente, menos do que recebiam no final do primeiro mandato de outro ilustre Fernando, que também parece ter-se esquecido dos ensinamentos clássicos da sociologia durante o exercício do poder, ao menos no que se refere às condições externas que cingem a prática acadêmica.

Assim, de Fernando a Fernando e de descaso em descaso, chegamos à atual situação da profissão docente nas universidades federais: uma das carreiras do serviço público de maior reconhecimento social e de menor remuneração salarial. Retrato escandalosamente weberiano da proletarização do trabalho científico.

*  *  *

No mesmo JC, outro texto do Estadão, com o reverso da mesma moeda:

O plenário do Senado aprovou ontem (27) a troca de uma dívida de R$ 15 bilhões das universidades particulares por 560 mil bolsas no Programa Universidade para Todos (ProUni). O projeto agora segue para a sanção da presidente Dilma Rousseff.

A proposta foi incluída na Câmara em uma medida provisória (…)

Ou seja, trata-se de iniciativa do Governo Dilma Rousseff (PT). Estamos num governo do Partido dos Trabalhadores. Os cargos de ministro estão distribuídos por várias siglas que compõem a base governista no Congresso, mas o Ministério da Educação segue nas mãos do PT. No momento, é comandado por um de seus próceres, o doutor (pois defendeu doutorado), ex-senador e sempre possível candidato ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante.

Questão 1:

Tem proposta para o ensino federal público e para os que nele trabalham?

Resposta correta: Não.

Questão 2:

Tem dinheiro a rodo para as empresas particulares – várias delas já pertencentes a holdings multinacionais – que exploram o ramo da educação superior (aproveitando o libera-geral da desregulação promovida na gestão de Paulo Renato Souza e mantida nos nove anos e meio de governo petista)?

Resposta correta: Sim.

*  *  *

(Pra não dizer que não falei de flores…)

E aí, num dia de semana banal e sem cor, chego ao fim de um livro de Mario Benedetti e esbarro com essa fala de uma personagem:

“Usted la conoció, usted la quería, y estará atormentado. Yo sé cómo se siente. Siente que su corazón es una cosa enorme que empieza en el estómago y acaba en la garganta. Se siente desgraciado, y feliz de sentirse desgraciado. Yo sé qué horrible es eso.”

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