O trem enferrujado do secretário

Em 2010, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), se reelegeu logo no primeiro turno, com 66% dos votos válidos.

Desde o inicinho do mandato, seu secretário de Transportes é o implacável Julio Lopes, que ex-deputado pelo Partido Progressista (PP). Quer dizer, colega de Francisco Dornelles, Eurico Miranda, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Severino Cavalcanti, Pedro Henry, Missionário José Olímpio e Paulo Maluf. Trata-se do partido ao qual já pertenceu o candidato à prefeitura de São Paulo e ex-repórter do medonho telejornal Aqui Agora, Celso Russomano, bandeado para o PSD (o novo PMDB criado por Gilberto Kassab). É, a meu ver, a agremiação mais à direita do espectro político brasileiro (pois, anos atrás, o Prona juntou-se ao não menos bizarro PL para formar o PR, atualmente liderado por Anthony Garotinho e congêneres). Companhias de legenda à parte, o  histórico de problemas no setor em terras fluminenses, nos últimos anos, é inacreditável. Sem esforço, sou capaz de lembrar de um punhado de casos:

1) Barcas à deriva na Baía de Guanabara;

2) Plataforma de atracação das barcas afundou na Ilha de Paquetá, jogando na água e ameaçando de morte trabalhadores;

3) Chibatadas nos passageiros da SuperVia;

4) Trem com maquinista fantasma;

5) Trem que bate em pilastra;

6) Barcas, enfim, que sequer cumprem o contrato de concessão que lhes deu o direito de singrarem a Baía de Guanabara, mas passaram a cobrar mais de quem leva volumes pesados ou maiores, como compras de supermercado;

7) Seguidos acidentes e problemas com os bondes de Santa Teresa;

8) Privatizações (mesmo que em esfera federal, contam com apoio do governo estadual);

9) Centenas (Milhares? Dezenas de milhares? O céu é o limite!) de casos de mau funcionamento de trens, ônibus, metrô etc. e de adoecimento dos que neles trabalham, apesar dos aumentos constantes (não raro, acima da inflação) e o alto valor das tarifas.

Trata-se de rápido exercício de memória, e não de pesquisa sistematizada. Calcule o que sairia se tal pesquisa fosse feita, ou se os usuários do transporte fosse ouvidos num estudo de recepção bem-feito…

Pois bem, as observações que dão origem a este texto não são sistematizadas, mas, ao que parece, as ações do governo do estado para favorecer as empresas são. O anúncio de que as barcas deixariam de funcionar de madrugada, por exemplo, foi feito junto com o da isenção de ICMS para os bilhetes de passagem vendidos pela Barcas S/A:

A concessionária terá uma economia de R$ 3 milhões por ano com a isenção do ICMS. Este valor será aplicado para melhorar a qualidade do serviço, conforme afirmou o secretário, que ainda lembrou que empresas como a SuperVia não pagam a taxa.

Ou seja, a população é prejudicada por uma medida que dificulta o direito de ir e vir e favorece a empresa e, em compensação… Não há compensação. Vem outra medida para aumentar os lucros da concessionária e esvaziar os cofres públicos. Se a estimativa estiver correta, R$ 3 milhões a menos significam, em tese, menos investimento em saúde e educação, ou margem menor para aumentar os salários miseráveis de boa parte dos funcionários públicos concursados que trabalham para o governo do estado, como os policiais militares e professores. E margem lucro superior para a empresa. Sequer entra na pauta uma decorrência óbvia e que beneficiaria o passageiro: reduzir proporcionalmente o preço da passagem.

Será coincidência haver empresa de ônibus entre os novos donos da concessionária que opera a Barcas S/A? Aliás, já são donos da Ponte Rio-Niterói (que beleza!). Não se discute a propriedade ou limites de razoabilidade para ela. As concessões são repassadas de uma empresa a outra, como se fossem propriedade particular… E por aí vai.

O panorama do transporte sob responsabilidade do atual governo do PMDB é tão ruim que o insuspeito (para isso, já que apoia esta gestão) jornal O Globo Online afirma que “Gestão de Júlio Lopes tem sido pontuada por problemas” – praticamente o máximo que a mídia corporativa pode falar a respeito, sem contrariar o projeto político de que participa e que lhe rende, entre outros frutos, gordas receitas publicitárias.

Pois bem, segundo matéria do jornal O Dia que pingou tempo atrás na caixa postal, a novidade é que alguns trens recentemente comprados da China já chegaram enferrujados ao Rio. Imagino como estarão daqui a dois, quatro ou dez anos. Poderia ter sido o assunto principal de todos os veículos da mídia corporativa sediados na cidade. Poderia ter rendido matéria investigativa especial com muitos minutos de duração em jornais da noite ou “revistas eletrônicas” dominicais. Só que não.

Já que, ao que parece, o governador nunca demitirá o secretário de Transportes, que tal o Ministério Público fazer algo? Não seria o caso de investigar o tema, as articulações políticas, os financiamentos de campanha, as transações financeiras? Polícia Federal? Alguém?

Enquanto isso, segue atualíssima a rima do Pensador.

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