Achados e recordações musicais – parte 1

“Eu hoje joguei tanta coisa fora / Eu vi o meu passado passar por mim / Cartas e fotografias, gente que foi embora / A casa fica bem melhor assim”

“Tendo a Lua” (Os Grãos, 1991) é uma das músicas mais bonitas dos Paralamas – que, como quem lê esse blogue com frequência sabe, são minha banda brasileira preferida.

Desde dezembro do ano passado venho fazendo mudanças na casa. Semanas atrás houve uma leva importante, que incluiu mexer em CDs e em anotações e papéis. Esse tipo de situação sempre traz três consequências:

a) uma alergia danada, devido à poeira

b) uma tremenda curiosidade sobre o que vou encontrar

c) uma sensação de que, se for parar para mexer nos achados, perderei muito tempo em devaneios

Dessa vez, encontrei dois conjuntos de papéis relacionados a música. O primeiro são capas para fita cassete – recortadas separadamente, aparecem juntas na imagem ao lado. São três capas promocionais do Guaraná Antarctica: “Chocolate com guaraná”, “Bife à milanesa com guaraná” e “Chips com guaraná”. Não sei em que revista vieram (creio que foi assim que chegaram até mim, na época), mas é provável que tenha sido Bizz. Lembro que a Fluir também chegou a trazer encartado esse tipo de brinde para o leitor.

Como se trata do maravilhoso mundo da publicidade, os itens para anotar estão em inglês: “date”, “source”, “type” etc. O uso das fitas como suporte para gravar sons está superado, mas o deslumbramento e a mente colonizada, que vêm de muito mais tempo, permanecem fortes.

Cada capa era dobrada em dois lugares, para ser encaixada na caixinha de plástico das fitas. O que aparece acima é a face voltada para fora. Por dentro, linhas para escrever o nome das músicas – era um drama fazer caber o nome das bandas e canções no pouco espaço disponível.

Entre a segunda metade dos anos 1980 e a primeira dos anos 1990 – quando eu tinha entre 8 e 18 anos, aproximadamente -, era comum revistas voltadas para o público juvenil trazerem brindes. Set (revista de cinema) anexava fichas de filmes para o leitor colecionar, como se fossem figurinhas (ou os cards dos Estados Unidos). Não lembro direito, mas talvez Bizz (revista de música, depois Showbizz) fizesse algo semelhante com discos. Fluir (revista de surfe) encartou adesivo, chaveiro que boiava (útil para leitores que entrassem no mar e esquecessem de tirar as chaves do bolso) e raspador de parafina, além das já citadas capas de fita K7. Como não surfava (pegava onda de bodyboard todo fim de semana aos 10, 11 anos, mas depois a frequência rareou), nunca usei o raspador. O adesivo, claro, foi pra janela do quarto. O chaveiro coincidiu com a época em que meus pais me deram, pela primeira vez, uma cópia da chave de casa. Tinha uns 10 anos e, achando que tava tirando mó onda, taquei a chave no brinde – salvo engano, a cor era amarelo cheguei, como se dizia na época. Com a mesma convicção, usava as capas de fita cassete de Fluir nas fitas que gravava.

Eis um tema que, aliado a uma boa questão, daria um estudo interessante de mestrado: pensar o papel desses objetos na vida cotidiana dos leitores e seu uso pelas revistas como estratégia de aproximação e promoção. Isso no cenário da década de 1980, período de redescoberta do público juvenil pelas empresas de comunicação, e também de segmentação.

(Caso você, leitor(a), resolva levar adiante a ideia, agradeço a gentileza de dar o crédito pela ideia quando o trabalho estiver pronto e publicado. Esse tipo de honestidade é bem-vindo no mundo acadêmico.)

Em breve, publico o texto sobre a segunda papelada.

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