Breve debate a seis mãos sobre as greves e o governo do PT

A historinha abaixo reproduz três textos, escritos por três funcionários públicos federais. Publico com a autorização dos outros dois.

*  *  *

Alguns dias atrás, li o desabafo de um amigo, José Coutinho Neto, policial federal:

“Os nascidos no Colubandê tradicionalmente não se vergam a ameaças, tampouco a arbitrariedades.

Isto posto, informo aos amigos que eu e a maioria dos grevistas do Aeroporto Internacional de Guarulhos fomos ‘transferidos’ para São Paulo capital, o que, na prática, me impede de continuar a viver perto de meus familiares, amigos e no bairro que tanto amo.

Impede, ainda, que eu continue a cursar o Bacharelado em Segurança Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde ingressei única e exclusivamente com o intuito de me tornar um servidor mais qualificado na minha área de atuação profissional.

Na certeza de ter feito e continuar fazendo o bom combate, ao lado dos companheiros da minha categoria, e na fé de que medidas que remetem aos anos mais negros de nossa história recente não terão êxito num momento de liberdade democrática, continuaremos na nossa luta pelo fim das perseguições covardes e pela reestruturação de nossa carreira.

Afinal… ‘Não Tá Morto quem Peleja!’

Vamos em Frente!”

Compartilhado numa rede social, assim o introduzi, ao reproduzilo-o em meu perfil:

“Eis o tipo de coisa que acontece com um servidor público no governo Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT). O sujeito, trabalhador sério, competente e altamente qualificado, exerce o direito de greve e é punido com uma transferência.

Os amigos que defenderam a existência de diferença significativa entre PT e PSDB quando se tratava de pedir voto em segundo turno pra presidente (ou estão fazendo o mesmo agora, no segundo turno da prefeitura de SP), evidentemente, devem se sentir à vontade para comentar. Alguém?”

Em ocasiões anteriores, salvo em uma, falei sozinho ao tentar debater política com simpatizantes do PT fora dos períodos eleitorais.

Como eu já suspeitava, não houve resposta. Contudo, mandei a mesma mensagem a um amigo, também professor universitário. Nela, além dos textos acima, eu acrescentava que este episódio, para mim, fora a gota d´água, e que nunca mais votaria no PT num segundo turno de eleição. Uma das razões para ele ter meu respeito é que nunca se furtou ao debate sobre política, mesmo quando provocado por mim a partir de situações espinhosas concretas, como neste caso. Chama-se Victor Andrade de Melo e é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eis sua resposta:

“Amigo Rafael,

Sem palavras frente a qualquer tipo de perseguição política. Solidarizo-me com o colega e com sua indignação. Trata-se de algo inaceitável, o direito de greve é inalienável e ponto final. Em qualquer ordem política devemos lutar pela observância desse direito.

Mas talvez seja prudente separarmos alhos de bugalhos. Façamos uma simulação, pensando no último segundo turno da eleição presidencial. Ganhou a Dilma. Se ganhasse o Serra, seria diferente? Ou poderia ser pior, pelo que conhecemos da experiência pregressa do PSDB? No que se refere à greve dos professores, por exemplo, a história nos induz a pensar que seria bem pior! Mais ainda, seria melhor ou pior em relação a outros aspectos do país, como assistência social, por exemplo?

Não é deixando de votar no PT no segundo turno que se vai conseguir fazer algo para sanar tamanha injustiça com o colega. Ao não votar em ninguém, lembremos, podemos contribuir para entrar alguém pior!

Não se faz omelete sem quebrar ovos. Democracia é bem isso (o que obviamente não justifica corrupções, desmandos, descalabros). No primeiro turno escolhemos o que achamos melhor, o que queremos. No segundo, escolhemos o que não queremos de jeito nenhum (e assim votamos no oponente). É óbvio que respeito quem vota em branco ou nulo, mas muitas vezes esse é um argumento de desculpa e isenção: depois, muitos falam: ‘Viu aí? Por isso não votei nele!’ Fácil falar isso quando o seu candidato perde.

Votei na Dilma no primeiro e segundo turno e, por enquanto, não estou arrependido. Ela fez, sim, um monte de coisa com as quais não concordo, mas também fez coisas interessantes em vários campos (além disso, tenho claro que, com o Serra, seria horroroso). Mais ainda, não via ninguém melhor do que ela naquele quadro. Mais ainda, espero que ela dê uma boa melhorada nesses dois últimos anos (com o Lula foi assim). Se eu achar que não foi o que eu esperava, na próxima eleição avaliarei outras propostas. Mas saberei que qualquer candidato que seja, ao chegar ao poder, fará concessões e terá fragilidades, porque assim é a democracia, são os humanos e é a sociedade como um todo, cheia de tensões, ambiguidades, falhas, contradições.

De toda forma, isso não é desculpa para a perseguição (se é que assim o foi; isso é, creio que tenha sido, mas seria legal ouvir todos os lados, pois pode haver critérios técnicos embasando a decisão). Também não é desculpa para a corrupção. Esses fatos devem ser denunciados e contra eles devemos lutar. Isso é, o fato de existirem contradições e ambiguidades não significa que devemos aceitá-las naturalmente (e por isso faço coro com a indignação), mas também significa que devemos ter um olhar mais generoso para as tergiversações que todos têm em sua vida em sociedade, ainda mais considerando a complexidade de governar um país como o nosso.

Bem, pelo menos eu acho assim, do meu ponto de vista romântico-pragmático (se é que isso é possível).

Um abração, Victor.”

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