Pérolas do mundo científico: os congressos e as línguas aceitas

A decisão sobre qual ou quais línguas são aceitas para apresentação de trabalhos em congressos é sempre difícil, especialmente em eventos internacionais. O etnocentrismo atroz que vigora em boa parte do mundo científico tende a puxar tudo pro inglês. Nos países da América Latina e Península Ibérica, o português e/ou o espanhol volta e meia entram como línguas oficiais. Mas não quero me estender. Apenas lembrei disso ao ler o parágrafo que segue, da chamada de trabalhos de um congresso que será realizado em Aveiro, Portugal. Pra facilitar, botei em cores, articuladas com meus comentários:

As línguas oficiais do Congresso serão o Português, Espanhol e o Inglês, mas os congressistas poderão usar a língua que entenderem. Em qualquer dos casos, a Comissão Organizadora solicita aos participantes que enviem uma versão dos seus textos em Inglês para que seja projetada durante a apresentação ao Congresso, possibilitando assim a compreensão mais generalizada das comunicações.”

Ou seja, se eu entendi certo, as três alternativas são verdadeiras:
1) Pode três línguas
2) Pode qualquer língua
3) Tem que ser em inglês

Tão Portugal… Tão Brasil.

A arrumação é a seguinte: todo mundo que fala espanhol e português tem que fazer sua apresentação também em inglês, para que os acadêmicos limitados que são monoglotas do inglês não percam nada. Em contrapartida, os monoglotas anglófonos… Não, não tem contrapartida. Os monoglotas anglófonos podem preparar suas apresentações em inglês (e fazer tudo em inglês), de maneira que quem não domina este idioma fique a ver navios. Tudo em nome da internacionalização. O pior é ser num congresso realizado em Portugal (onde se fala português)!

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4 Respostas to “Pérolas do mundo científico: os congressos e as línguas aceitas”

  1. David Hathaway Says:

    Os organizadores ou não têm orçamento para a interpretação simultânea, ou não confiam nos intérpretes disponíveis pelo preço que eles se dispõem a pagar pelo serviço.

  2. Rafael Fortes Says:

    Caro David,

    Provavelmente é verdade o que diz, mas creio que não está aí o cerne da questão.

    Um abraço, Rafael

  3. Trabalhos sobre surfe na EASS 2013 | História(s) do Sport Says:

    […] sobre o quão limitadora e imperialista considero essa imposição do inglês. (Abordei o tema aqui e aqui, por exemplo; recomendo ainda este texto de Maurício Drumond.) No […]

  4. Rapidinhas acadêmicas | A Lenda Says:

    […] no caso brasileiro, é a tara pela publicação em inglês (já abordei brevemente o tema aqui e aqui). Um degrau acima, quando se reproduz a tara no âmbito das ciências […]

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