Um bom relato sobre crimes políticos no Brasil contemporâneo

Há alguns anos (estou ficando velho), divulguei que o livro Plantados no chão: assassinatos políticos no Brasil hoje, de Natalia Viana, estava disponível para download no próprio site da Conrad editora. (O endereço não funciona mais, mas o PDF pode ser achado com facilidade online.) Lembro que, na época, essa decisão de botar o livro na íntegra na internet foi um motivo pra eu comprá-lo. O outro, principal, era o interesse pelo conteúdo.

Pois bem, este mês finalmente consegui lê-lo.Trata-se de trabalho jornalístico pesado, e dos bons. É daquelas obras que, ao ler, tenho a sensação (e a pretensão) de que todo brasileiro deveria lê-la, pois permite conhecer um pouquinho mais a sociedade em que vivemos. E também porque é muito bem escrito: narrativa ágil, fluida, interessante, clara.

Contudo, o panorama apresentado é aterrador. E, ainda mais grave, ao se considerar que o período em questão (2003-2006) está no século XXI, sob vigência de um regime democrático e sob o primeiro governo de Luis Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). Contudo, diversos elementos que configuram a realidade que permite tamanha quantidade e qualidade (há casos escabrosos, inacreditáveis, dignos dos piores filmes ficcionais de terror) de assassinatos parecem remeter a séculos passados. Às vezes, tive a sensação de recuo no tempo: décadas ou séculos. Quem reivindica direitos já expressos na lei tem a vida abreviada por tal motivo. Na boa, pode haver sentido nisso?

O trecho a seguir está na abertura dos anexos e antecede uma lista com fichas técnicas de “oitenta casos de assassinato”, catalogados e descritos a partir de dados levantados pela autora com “a colaboração da jornalista Marilise Oliveira”. É neste país que estamos, na segunda década [metade] do século XXI:

“A tarefa mais complicada foi levantar a situação judicial de cada um deles, já que muitas vezes as organizações que denunciam os crimes não acompanham seu desenvolvimento na justiça. Muitas vezes tivemos que pedir para que fizessem esse trabalho – e mais uma vez agradecemos a colaboração de todos. Ao longo da pesquisa, percebemos que em muitos casos há situações semelhantes que apontam para certos padrões. Primeiro, o dado inconteste de que a ampla maioria desses assassinatos ocorre no campo, em virtude da questão agrária. Segundo, o fato de que muitas das vítimas já estavam sofrendo ameaças e algumas haviam inclusive denunciado a situação – e em muitos casos, observa Marilise, o assassino ou mandante é conhecido por todos da comunidade. Terceiro, a lentidão e muitas vezes a ineficácia das investigações policiais diminui na mesma proporção da repercussão que o assassinato alcança nacionalmente. Quarto, o fato de que geralmente a hipótese de crime político é afastada, sendo muitas vezes aventada a possibilidade de desavença, vingança ou crime passional. Por fim, ainda há a lentidão da justiça, o número extremamente pequeno de assassinos que são capturados e presos e o insignificante número de mandantes punidos.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: