Sobre doping e problemas estruturais

Reproduzo abaixo texto que publiquei no blogue coletivo História(s) do Sport, vinculado ao grupo de pesquisa Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer.

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Sobre doping e problemas estruturais

10/02/2013

Por Rafael Fortes

E então o ciclista Lance Armstrong confessou que se dopava. Tentei ver os vídeos no site oficial da apresentadora Oprah Winfrey, a quem ele concedeu a entrevista, mas, no meu computador, rodam devagar e cheios de erros. Consegui ver trechos em outros endereços e li matérias em veículos de comunicação.

Embora considere errado o uso de doping, não vou bancar o fariseu e gastar linhas para condenar Armstrong, como fizeram jornalistas, colunistas, cronistas, escritores e/ou biógrafos com espaço cativo nas corporações de mídia. O que me motivou a abordar o tema foram duas coisas ditas por ele: que louva os “quatro ou cinco” ciclistas de ponta que não se dopavam. E que se dopar fazia parte do trabalho.

À parte um possível objetivo do ex-atleta de generalizar o mar de lama para minimizar seu comportamento individual, penso que são afirmações mais sérias e menos superficiais do que, à primeira vista, podem parecer.

A questão que levanto é: se tanta gente se dopa, é razoável tratar o esporte de alto rendimento como  algo limpo?

Pelo tema e pelo teor da opinião que apresento neste texto, convém fazer ressalvas antes de prosseguir. Lá vão: não estou afirmando que há doping generalizado em todas as competições de todas as modalidades, mesmo no alto rendimento. Há modalidades que dependem muito de técnica. Outras, de jogo coletivo. Além disso, a maior ou menor presença de doping está relacionada a numerosos fatores, inclusive econômicos e culturais. De qualquer forma, há modalidades em que músculos, explosão, força e velocidade são cruciais a ponto de o uso de substâncias (hoje) proibidas ser relativamente comum.

Então, se o uso é generalizado, será que a política mais adequada, mais razoável, mais realista e mais eficaz é insistir na proibição pura e simples? E em manter essa política sem discuti-la? Por quê?

O comportamento do “senso comum” do esporte (atletas, jornalistas, pesquisadores etc.) e da sociedade tende a ser não assumir o problema e não discuti-lo a sério. Trata-se como  episódico algo que, talvez, possa ser classificado como estrutural.

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Creio que ocorre, com relação ao doping no esporte, um comportamento coletivo até certo ponto parecido com o que se passa com o aborto e as drogas no Brasil.

O aborto é generalizado na sociedade brasileira e causa a morte de muitas mulheres, além de processos judiciais, depressão, conflitos familiares, prisões, traumas, sofrimento. Contudo, não conseguimos discuti-lo e tratá-lo como um tema de saúde pública e sem moralismo. Não o discutimos nos meios de comunicação. Sequer o debatemos e votamos no Congresso Nacional. Provavelmente a proibição causa mais males do que a prática de interrupção da gestação em si. Mas seguimos em frente, e o problema fica para as mulheres, as famílias e, frequentemente, o Sistema Único de Saúde (SUS). Os planos de saúde privados agradecem.

E com as drogas? Para boa parte dos que se debruçam sobre o tema, está claro que a proibição causa muito mais males que o uso em si. A ineficácia da proibição está aí, para todos verem: o uso de drogas ilícitas é generalizado, sejam as das ruas ou as das farmácias. Se as pessoas vão utilizá-las de qualquer maneira, não seria mais razoável permitir e regulamentar o uso, como se faz com álcool e cigarros? Cobrar impostos (altos), limitar danos a terceiros, tentar coibir a venda para menores, economizar com polícia e Judiciário (e liberá-los para se concentrarem em outros delitos) etc.

No caso específico da maconha, recentemente foram produzidos e lançados no Brasil dois excelentes documentários discutindo a proibição: Cortina de Fumaça e Quebrando o Tabu. Contudo, alguém os viu na televisão? Quantas vezes o tema foi debatido em horário nobre nas emissoras de rádio e TV, as mesmas que vivem defendendo a “liberdade de expressão”? Quantos projetos relativos a drogas foram apresentados, defendidos, atacados e votados em plenário no Congresso nos últimos anos?

Em vez de legalizar e regulamentar este negócio altamente lucrativo e popular, nossa sociedade insiste em canalizar para grupos criminosos o dinheiro que nele circula. Boa parte desta enorme soma de recursos é empregada para corromper a polícia e comprar armas – duas atividades criminosas que alimentam o círculo vicioso da violência. Sinceramente, ao pensar de forma racional no tema, tendo em vista o interesse coletivo, não consigo enxergar lógica nisso.

Disse e repito: não estou defendendo o uso de doping no esporte. Da mesma forma que, em sã consciência, ninguém defende o uso de bebidas alcoólicas, de cigarro, de drogas, ou o aborto. O que defendo é que o doping, tal qual o aborto e o uso de drogas, é um problema amplo e que diz respeito a toda a sociedade, que precisa discuti-lo de maneira a encaminhar coberturas midiáticas, leis, políticas, e práticas melhores, mais eficazes e mais racionais que as hoje empregadas, porque a proibição pura e simples não está funcionando. Defendo, assim, que tais temas:
a) Sejam debatidos de forma pública, realista, racional e constante. Para tanto, será necessário colocá-los no rádio e na televisão, em programas que abram espaço para os distintos pontos de vista.
b) Sejam debatidos sem moralismo.
Silenciar sobre o assunto não diminui o problema. Crucificar um eventual culpado como bode expiatório, tampouco.
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Por fim, cabe lembrar que Armstrong é um atleta exemplar no sentido de render manchetes e audiência: primeiro, quando venceu numerosas provas. E agora, já ex-atleta, novamente produz manchetes e atrai audiências ávidas, babando de raiva, para ouvir sua confissão. As corporações de mídia agradecem: ganharam ao torná-lo um mito e lucram de novo ao destruírem o mito. E ainda há quem coloque os jornalistas e biógrafos no papel de vítimas

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Observação: este texto se deve, em parte, a longas conversas com Pablo Laignier e com Victor Andrade de Melo sobre o esporte, o Rio e o Brasil. A responsabilidade sobre as opiniões aqui expressas, claro, é minha.
[Original aqui.]
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