Engenhão, pra quê?

Escrever, às vezes, é difícil. Por exemplo, quando se precisa transformar raiva e indignação em um texto racional, bem explicado, com argumentação lógica e coerente.

Eis que o prefeito Eduardo Paes (PMDB) fechou o Engenhão. Para começar a discussão, recomendo a leitura deste excelente texto de Lúcio de Castro, figura pensante e rara no jornalismo sobre futebol no Brasil. O documentário indicado por ele, infelizmente, não está mais disponível na íntegra no Youtube (em português, ao menos). Consegui ver apenas a primeira de quatro partes.

Segundo o documentário, o estádio contaria com “um dos sistemas de cobertura mais avançados do mundo”. Expressões como “cobertura extremamente complexa” e “cobertura, que é bastante complexa” aparecem na fala do narrador. Aqui começo a perguntar: numa cidade em que faltam milhares de vagas em creches (e creche é atribuição da Prefeitura), justifica-se gastar dinheiro público para fazer uma cobertura desse tipo? Não podia ser uma menos cara, menos complexa?

Em dado momento, um engenheiro fala:

– Nós estamos com um cronograma muito apertado, né? Então a única coisa que eu posso ter certeza é que o prazo vai ser cumprido.

Exercitando a lógica: se só há certeza sobre o quando, é porque há dúvidas sobre todo o resto, inclusive o como, né?

Adiante, há uma sequência narrativa muito interessante. Primeiro, a obra é interrompida por um conflito entre empresa vencedora da licitação e Prefeitura. Segundo, se informa que o custo da obra foi multiplicado por cinco. Imediatamente depois, a Odebrecht resolve assumi-la. O bom e velho efeito Tostines me permite indagar: a empreiteira assumiu porque o custo se multiplicou ou o custo se multiplicou porque a empreiteira assumiu?

Mais perguntas

Desde quando os problemas que levaram ao fechamento existem? E desde quando se sabe deles (Botafogo, empreiteiras, Prefeitura etc.)? Quem responde pelas vidas que estiveram sob risco nos últimos dias, semanas, meses, anos, jogos, shows? Aqueles que frequentaram o estádio – trabalhadores (vendedores, faxineiros, seguranças, profissionais de saúde, policiais, atletas, jornalistas, bilheteiros etc.) torcedores, fãs, turistas – e que tiveram suas vidas sob risco devem listar quem como réus em processos em busca de indenização? A Odebrecht? Os prefeitos? A Prefeitura? O clube mandante de cada jogo? O Botafogo? Os responsáveis pela obra?

E o pessoal que mora em volta do estádio, está correndo risco? Se passar um vendaval pela cidade, aquela cobertura pode voar? Até onde?

“Importa que essa obra seja um símbolo para o nosso país”, declara um engenheiro em dado momento. De fato, o é, mas não pelos motivos positivos que ele expõe.

“Este será mais que um estádio. Será um ícone.” – afirma, corretamente, o narrador.

(Já escrevi um punhado de textos e comentários, neste blogue e no História(s) do Sport, criticando a maneira como os megaeventos vêm sendo organizados no Brasil. A construção do Engenhão é uma parte importante de um problema amplo. Quem quiser saber o que penso sobre esse problema, é só jogar palavras como Pan, Olimpíada, Rio de Janeiro, orçamento, megaeventos etc. nos mecanismos de busca deste blogue e de meu particular, A Lenda.)

O novo parece velho

Como costuma dizer um amigo, o Engenhão é um “estádio vintage”. Ou seja, é novo, mas parece velho. Três exemplos:

a) O estádio não tem lata de lixo. Isso mesmo: pode parecer bizarro ao (à) leitor(a) que não frequenta(va) esta grande obra de engenharia, mas a grande maioria dos espaços por onde os torcedores circulam ou onde ficam não tem latas de lixo.

b) O nome do Engenhão é Estádio Olímpico João Havelange. Mas a abertura da Olimpíada não será nele. Será no Maracanã, que não é olímpico. Parece piada, né? Mas é sério.

c) O estádio foi projetado para receber 45.000 torcedores, mas ninguém pensou em construir banheiros públicos na parte externa. Ou seja, a Prefeitura (Cesar Maia) achou que ninguém iria ter vontade de fazer xixi antes de entrar nos jogos. E a Prefeitura (Eduardo Paes) bota a Guarda Municipal para vigiar e prender quem urina na rua. Mas, óbvio, não dá alternativas (banheiros de alvenaria, banheiros químicos etc.). A face repressora do Estado está sempre presente. Oferecer alternativa às pessoas, usar parâmetros mínimos de racionalidade, ouvir, dialogar, aí é mais difícil.

Impacto para os clubes

Outro dia (28/3) à noite eu ouvia no rádio estimativas, apresentadas pelo presidente do Botafogo, de que o clube deixará de ganhar R$ 30 milhões este ano devido ao fechamento do estádio. Isso por baixo – ainda não se sabe, por exemplo, quanto tempo durará a interdição. Aí foi inevitável lembrar de certos colegas acadêmicos que anunciam aos quatro ventos os benefícios – o “legado”, termo revestido, na fala deles, de sentido altamente positivo – dos Jogos Pan-Americanos de 2007, todos muito animados com a Copa e as Olimpíadas. Mais ainda, dos entusiastas do Pan na universidade, mas que são também… apaixonados pelo Botafogo. O que estarão pensando agora? Tecerão mais e mais loas ao evento e a seu “legado”?

Não, o parágrafo acima não é (apenas) um texto em tom vingativo escrito por um flamenguista. Afinal, o Flamengo também saiu prejudicado na história. Basta dizer que, justo naquela semana, o clube lançou seu programa de torcedor. Ao contrário do que andam dizendo por aí, não é programa sócio-torcedor porque, apesar de estarmos em 2013, o Flamengo ainda não conseguiu juntar as duas coisas… (Quem sabe em 2033 chegamos lá.). Particularmente, achei o programa confuso, mal-feito, ruim (por numerosos motivos).

E, confesso, há muito tempo não espero nada diferente vindo das diretorias que se revezam na administração da Gávea. Não aderi e não aderiria a ele, de qualquer maneira. Mas a questão que fica é: se o cartão-ingresso vale apenas para o Engenhão, que utilidade terá nos próximos meses? A vantagem de acesso aos jogos transformou-se, no mínimo, num vale-viagem para Volta Redonda. Muito vantajoso, claro.

Preservar vidas?

É pouco provável que uma medida dessa magnitude – anunciada com tanto estardalhaço – tenha motivações exclusivamente técnicas. E salvar vidas está longe de ser uma prioridade da atual gestão da Prefeitura – basta olhar o desmonte do funcionalismo público na área da Saúde. Pode ser, como têm comentado algumas pessoas (inclusive uma que deixou comentário na primeira parte do vídeo do documentário), que se trate de expor o ex-prefeito (e ex-aliado) Cesar Maia. Pode ser isso e muitas outras coisas.

Se, de fato, há risco de queda da cobertura do estádio, cabe a precaução e a interdição.

Seja como for, retomemos Lúcio de Castro: agora o estádio honra seu nome.

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