Rapidinhas da reinauguração do Maracanã

Mesa-redonda vespertina da rádio de maior audiência na cobertura de futebol no Rio de Janeiro. AM na veia.

O objetivo, creio, é apresentar uma cobertura supostamente jornalística e crítica, disfarçando o oba-oba. Vale dizer que a Prefeitura do Rio e, principalmente, o governo do estado (Sérgio Cabral Filho/PMDB) são anunciantes de peso da emissora, que, por sua vez, os apoia.

Situação 1

A repórter informa sobre a chegada de metrô ao estádio. Lá pelas tantas, avisa:

– A chegada pela Supervia [leia-se trens] deve ser feita pela estação São Cristóvão. A estação Maracanã está fechada.

Ou seja, a estação que fica em frente ao estádio – bastava atravessar uma passarela sobre a Avenida Radial Oeste, antes das obras de R$ 1,2 bilhão trazerem o conforto – não serve para quem vem de trem. Quem usa esta forma de transporte tem que descer lá longe e vir andando uns 20-30 minutos no sol, pra ficar todo mundo dourado na televisão.

Situação 2

O apresentador da mesa-redonda, considerado bem-informado e inteligente pelos colegas de rádio, pergunta quanto vai custar o ingresso do estádio nos jogos dos clubes. Quer arena “popular”:

– O ingresso vai custar R$ 20?

Os colegas contestam que não, que custará mais do que isso. O apresentador esbraveja, reclamando que o “futebol tem que ser popular” – que, se for assim, “o Maracanã não vai ser popular”.

Não sei em que mundo o âncora vive. Há pelo menos dois anos o ingresso para uma partida do Flamengo, no Estadual ou no Brasileiro, custa R$ 40. Antes disso (e também há anos), custava R$ 30.

Vai ver, ele vive no mundo da lua e das transmissões pela televisão, assistidas do conforto de casa.

Vai ver, vive no maravilhoso mundo das credenciais para jornalistas, que entram sem pagar em qualquer jogo e esquecem que o futebol no estádio, há alguns anos, deixou de ser programa popular e virou diversão para classe média e ricos.

Vai ver, o apresentador se esqueceu que a geral do Maracanã – setor efetivamente popular – foi extinta numa reforma realizada durante o governo Rosinha Garotinho (PMDB), quando o responsável pelo estádio era um deputado estadual eleito pelo PMDB e recentemente eleito para presidir a Mangueira (sim, a escola de samba) – político este  sempre elogiado e tratado por “amigo” ou “meu amigo” quando é entrevistado pelo jornalismo desta emissora de rádio. (Eu falei jornalismo?)

Situação 3

O locutor afirma que “a FIFA prevê 8 minutos para saída do público após a partida” e pergunta aos repórteres como será a saída. Faz isso várias vezes ao longo da tarde, mas os repórteres respondem sobre outros assuntos. Ninguém insiste.

Situação 4

O apresentador fala que conta com “a participação de Carlos Alberto e Zagallo, nossos convidados”. O que se ouve são intervenções espalhadas, respondendo perguntas feitas previamente (não se sabe se para o programa, em entrevista coletiva etc.).

Situação 5

Um repórter fala: “Um elogio: eu nunca vi tamanha organização em um evento no Rio de Janeiro.”

Enquanto isso, moradores do entorno do Maracanã (meu caso) ficam quase em prisão domiciliar hoje e quando houver eventos da FIFA. Mas cinco helicópteros sobrevoam o estádio para dizer que está tudo lindo e maravilhoso.

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