Por que os F-16 israelenses sobre Beirute não são manchete? [artigo traduzido]

Moe Ali Nayel, The Electronic Intifada, Beirut, 24/5/2013

Ultimamente, um som vindo dos céus de Beirute tem trazido lembranças desagradáveis: o estrondo distante de aviões de caça israelenses é ouvido por quem está deitado na cama, à noite.

Esse ruído carrega consigo as imagens e memórias da última guerra que Israel travou no Líbano, a guerra de 33 dias no verão de 2006. Mesmo enquanto escrevo este texto em meu escritório, perto do centro da cidade, o funesto e prolongado barulho dos aviões de caça de Israel, anunciando suas incursões ilegais no espaço aéreo libanês, pode ser ouvido sobre a capital.

Mas este comportamento de ameaçar o Líbano não existe, ou ao menos é nisso que as corporações de mídia do Ocidente querem que acreditemos. Embora as ferramentas de compartilhamento de informação da internet tenham quebrado o monopólio da mídia mainstream, ainda há um longo caminho à frente. A política israelense de esbulho conta com apoio quase incondicional nas salas de redação de Nova Iorque, Londres e Paris – um enviesamento ainda não percebido pela maioria da audiência ocidental que alegam servir.

Em 25 de abril, esses editores garantiram que uma matéria ocupasse as capas: notícias de um suposto veículo aéreo não tripulado (VANT), ou drone, que voou do Líbano para a Palestina histórica, com as respectivas reportagens e comentários tratando informação dada pelo governo de Israel e pelas fontes militares como prova definitiva do incidente.

A Força Aérea de Israel disse que derrubou um VANT a várias milhas da costa norte, na altura da cidade de Haifa, após ele haver entrado o espaço aéreo israelense, vindo do Líbano. O vice-ministro da Defesa de Israel, Danny Danon, acusou o Hisbolá de enviar o drone: “Estamos falando de outra tentativa do Hisbolá de mandar um drone não tripulado ao território israelense”, disse à rádio do Exército (“Israel shoots down Lebanese drone,” DefenseNews, 25 April 2013).

Pouco após o pronunciamento israelense, o Hisbolá publicou uma declaração negando que se tratasse disso (“Hezbollah denies responsibility for drone shot down by Israel,” Al-Akhbar English, 26 April 2013).

Isto contrasta com o que ocorrera em outubro do ano passado, quando Israel disse que havia derrubado um drone no Neguev (Naqab). Naquele caso, o Hisbolá orgulhosamente reivindicou o drone como seu e celebrou o feito como uma demonstração de capacidade tecnológica (“Hezbollah admits launching drone over Israel,” BBC).

Por sua vez, um porta-voz da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil) anunciou, após o pronunciamento israelense de 25 de abril: “Tomamos conhecimento pela mídia que a Força Aérea de Israel derrubou um drone e estamos investigando estas notícias.”

Como parte de seu mandato para manter a paz, a Unifil tem radares ao longo da costa para monitorar todo o espaço aéreo do Líbano, e, poucas horas antes, Andrea Tenenti, porta-voz da Unifil, dissera que a força da ONU (Organização das Nações Unidas) não podia confirmar que um drone havia voado a partir de sua área de operações no sul do Líbano (“Israel shoots down drone off Haifa, Hizbullah denies responsibility,” Naharnet, 25 April 2013).

Fatos inconvenientes

Então o Hisbolá negou responsabilidade e a Unifil não pôde confirmar que um drone voou do sul do Líbano para o espaço aéreo controlado por Israel… mas nada desses fatos inconvenientes se meterem no caminho de uma boa reportagem. Essa mais nova ameaça a Israel bombou nas páginas de grandes veículos da mídia ocidental como Los Angeles Times, The Washington Post, France 24, The Daily Telegraph e BBC, que obedientemente relataram as preocupações a respeito da abertura de uma brecha na segurança de Israel.

Pobre Israel: um dos exércitos mais fortes do mundo, sentado sobre um arsenal nuclear.

Essas notícias demonstram o enviesamento sistemático da mídia corporativa ocidental quando se trata de Israel. Enquanto todas as matérias falavam da violação, pelo Hisbolá, das “fronteiras” e da soberania de Israel e de uma consequente ameaça aos civis israelenses, nenhuma mencionou as violações diárias, por Israel, da soberania do Líbano, e a ameaça que elas representam para os cidadãos libaneses. Sem isso, um leitor poderia facilmente confundir o agressor com a vítima.

Em seguida, houve a busca unilateral de “fatos” para sustentar o noticiário e a pressa em realizar um julgamento. Em 26 de abril – um dia após o alegado drone ser abatido -, o próprio governo israelense começou a mudar sua narrativa para uma acusação mais ambígua ao Irã, em vez de diretamente culpar o Hisbolá (“Israel points finger at Iran over drone from Lebanon,” The Daily Telegraph, 27 April 2013).

Enquanto isso, uma reportagem de 8 de maio no jornal diário libanês As-Safir dizia que, na verdade, um drone israelense fora interceptado por membros da resistência en rout para o Líbano.

De acordo com fontes não identificadas próximas ao Hisbolá e a círculos diplomáticos ocidentais citadas pelo jornal, quando a Força Aérea de Israel percebeu que seu VANT estava fora de controle, derrubou-o sobre o Mediterrâneo. Essa sugestão parece, no mínimo, plausível, quando colocada ao lado da posição da Unifil e da negação do Hisbolá.

Mas levá-la em consideração ou suitá-la [acompanhá-la, no jargão jornalístico] daí em diante significaria entender árabe, o que poucos jornalistas estrangeiros conseguem.

Terror diário

Israel inflige diariamente diferentes métodos de terror ao Líbano: F-16s e F-15s simulam ataques e drones espreitam nossos céus – todos violando a Resolução 1701 da ONU. Cidadãos libaneses são sequestrados perto da fronteira, minas terrestres e bombas de fragmentação israelenses seguem à espera de vítimas em solo libanês. Isto sem mencionar a contínua ocupação, pelo exército de Israel, de partes do Líbano.

Enquanto a ONU ocasionalmente condena estes atos de agressão por parte de Israel, o fato de eles persistirem, sem qualquer diminuição, nos recorda que, no Líbano, a responsabilização e a lei internacional acabam em nossa fronteira sul. Ao que parece, o mesmo ocorre com o jornalismo objetivo, dado que, no último mês [abril], as violações do espaço aéreo libanês por Israel intensificaram-se bastante, mas nada disso entrou na imprensa ocidental.

Como jornalista, tenho tentado emplacar notícias em veículos da mídia mainstream sobre as constantes violações da soberania libanesa por Israel. De vez em quando, tenho a sorte de encontrar um editor que se dá ao trabalho de responder, apenas para dizer que a notícia é irrelevante.

O ditado diz que jornalismo de verdade é publicar aquilo que incomoda alguém; todo o resto é relações públicas. Ao publicar as alegações de Israel como fatos e ignorar a realidade presente no Líbano e na Palestina, os jornalistas do mainstream mostram quão bem treinados são na arte de RP (relações públicas).

Moe Ali Nayel é jornalista freelance residente em Beirute, Líbano. Siga-o no Twitter:  @MoeAliN.

[Artigo publicado n’A Intifada Eletrônica. Tradução: Rafael Fortes.]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: