Avaliação de risco e avaliação científica: faces da mesma moeda

O artigo “O charlatanismo econômico por trás das agências de risco“, de J. Carlos de Assis, é uma leitura útil para compreendermos a pauta de economia da mídia corporativa. O texto tem muitos méritos. O principal deles, expor claramente o que são as tais “agências de risco”, cujos prognósticos em relação à economia do Brasil o jornalismo das corporações de mídia adora reproduzir.

Creio que faltou apenas ressaltar que, em vários países – o Brasil, por exemplo -, a redução da ingerência do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a política econômica não se deu apenas porque o país pagou o que devia. Ocorreu, também, porque as determinações foram internalizadas e seguem sendo cumpridas pelas equipes econômicas, mesmo o país não deva satisfação e dinheiro ao Fundo (deve cada vez mais aos detentores de títulos da dívida pública, muitos deles estrangeiros). E que seja governado pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Metas de inflação, redução ou eliminação de impostos sobre capital especulativo, superavit primário, cortes no orçamento, desvinculação de receitas da União (DRU), taxas de juros entre as mais altas do mundo, prioridade do uso de dinheiro público para pagamento de juros e serviço da dívida, tá tudo aí, firme e forte. (Antes que alguém reclame: sim, eu considero o Bolsa-Família um tremendo avanço.)

Por fora do texto, outro ponto positivo: creio que ele serve também para se pensar a condução das decisões relativas à política científica. Afinal, a avaliação da produção científica brasileira e muitas decisões relativas a investimentos (inclusive para comprar os próprios relatórios, sistemas e rankings de avaliação) é feita a partir do que dizem empresas privadas com sede nos países centrais do capitalismo.

Que estas empresas sobrevalozirem tudo que é escrito em inglês (e desvalorizem o que é escrito em todos os demais idiomas), por exemplo, eu entendo. Trata-se de uma mistura de etnocentrismo, estratégia (mercadológica, econômica e de poder), limitação intelectual etc. Que agências estatais de fomento e entidades científicas brasileiras adotem linear e acriticamente tais modelos e parâmetros… é de chorar.

Nas palavras do autor:

as agências de risco assumiram crescentemente um papel ideológico, infelizmente corroborado, no caso de países, por governos que pagam, eles próprios, pela avaliação. Com isso, o país abre mão de soberania economia [econômica] em favor do mercado.

Como se pode perceber, ele está falando das agências de risco. É só pegar a discussão, tirar economia, botar ciência, e temos o mesmo cenário.

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Uma resposta to “Avaliação de risco e avaliação científica: faces da mesma moeda”

  1. Rapidinhas acadêmicas | A Lenda Says:

    […] ainda, no caso brasileiro, é a tara pela publicação em inglês (já abordei brevemente o tema aqui e aqui). Um degrau acima, quando se reproduz a tara no âmbito das ciências […]

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