Notas sobre o protesto de quinta-feira, 20 de junho de 2013, no Rio de Janeiro

Um tanto preguiçoso que sou, levei uma câmera para a passeata de quinta-feira. “Faço fotos, publico n´A Lenda e depois só boto as legendas”, pensei. “Vai dar bem menos trabalho do que escrever.” Acontece que não adianta, sou de texto. Então, abaixo vão algumas palavras.

São notas e impressões, que não tive tempo de reler várias vezes e editar de forma cuidadosa.

É impossível ter uma noção global, macro, completa do que aconteceu (e do que está acontecendo). Posso falar do que vi e do que ouvi de amigos que lá estiveram, além do que li e ouvi na internet. Boa parte disso vai com links ao longo desse texto. Outros eu indico ao final.

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Às 11h58 de ontem (21/6/2013), O Globo estampava, entre dezenas de chamadas, manchetes e fotos em seu site principal, apenas uma relativa à brutalidade policial:

O Globo Online, 21/6

O Globo Online, 21/6, 11h58

“Internet traz imagens de truculência policial”. Ao menos a manchete é sincera. As imagens de truculência estão na internet, sim. Graças ao esforço de militantes, mídia alternativa, repórteres, pessoas comuns com câmera ou celular. Mas não estão no jornalismo das Organizações Globo. Não estão nas transmissões ao vivo realizadas pelas emissoras (exceto a Band, registre-se), que privilegiam a ação de quem quebra edifícios e equipamentos públicos e privados (curiosamente pouco reprimidos pela polícia, como o massaranduba que atacou a Prefeitura de SP essa semana ou o que beijou o cavalo da PM fluminense), ao passo que, em dezenas de outras ruas próximas, os servidores públicos da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro espalhavam o terror e agrediam indiscriminadamente.

Não é que isso não tenha chegado ao conhecimento da redação. Basta ver a chamada que estava no ar à 0h10:

O Globo, 21/6/2013, 0h10.

O Globo, 21/6/2013, 0h10.

“Polícia caça manifestantes nas ruas do Rio em meio a saques e vandalismo após passeata”. Há várias leituras possíveis. Na verdade, o que houve foi uma caçada indiscriminada que vitimou todos que estavam nas ruas. A divisão entre “manifestantes”, “ladrões”, “vândalos” e “pedestres”, tão valorizada pelos meios de comunicação, foi inútil neste momento. Na verdade, inexistiu, do ponto de vista do procedimento policial: quem estava na rua foi reprimido pelo simples fato de estar na rua. Como dito por um dos debatedores do Programa Faixa Livre de hoje, “a polícia reprimindo indiscriminadamente quem estava na rua”; “a polícia tratou como inimigo quem estava nas ruas”.

Outro exemplo disso é o do repórter da Globonews que levou um tiro na testa. Como ele mesmo explicou em outro depoimento que vi no canal ontem (21/6), ele se colocara claramente separado dos manifestantes, por achar que assim estaria mais seguro. Talvez, a partir de agora, seja mais um a questionar a utilidade e a pertinência do discurso que separa militantes e vândalos, militantes e não militantes, seres humanos e bandidos. Quando a repressão criminosa vem que vem, ela atinge todos. Por isso precisamos de uma polícia que cumpra a lei também para todos.

Repito: essa ação policial, que pouco diferiu da maneira como atua, há décadas, nas periferias e favelas (ouça as músicas de Bezerra da Silva), mostra o quanto pode ser inútil a distinção entre “manifestante”, “militante”, “vândalo”, “pessoa”, “trabalhador” ou “transeunte”. Quando a repressão vem de forma indiscriminada, sobra pra todo mundo. Todos viram vítimas – potenciais ou efetivas – da repressão.

Esta visão já é algo consolidado entre muitos militantes de direitos humanos. Na Argentina, por exemplo, todos os presos, torturados, assassinados, estuprados, torturados são considerados vítimas do terrorismo de Estado da ditadura, não importando se a pessoa estava ou não envolvida com a luta contra a ditadura. Oxalá os episódios desta semana tenham permitido esse clique na cabeça de algumas pessoas aqui no Brasil.

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Esse comportamento da polícia, em si, seria bizarro e revelador de incompetência (da polícia) e de uma posição política violenta do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB). Mas não é só isso…

Se…

…como fez coro o jornalismo da mídia corporativa, havia 300 mil pessoas na manifestação…

…mas as estações do metrô, trem e barcas foram fechadas, e os ônibus deixaram de circular, como elas deveriam fazer para ir embora pra casa?

Digamos que 100 mil tenham escapado correndo na direção da Leopoldina, Estácio e Praça da Bandeira (como foi o meu caso). Os 200 mil que tiveram que descer de volta a av. Presidente Vargas faziam como pra ir embora pra casa? Voar de carona num dos muitos helicópteros que sobrevoavam a região? Nadar até Niterói?

A falta de transporte público para voltar para casa – que vitimou todos que precisavam, não importando se estavam ou não na manifestação – na quinta à noite foi a cereja do bolo das manifestações que começaram porque… o transporte público é ruim (e caro).

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Para saber que o secretário estadual de Segurança Pública “admite possíveis abusos da polícia durante protesto no Rio“, é preciso olhar a ditabranda Folha de S. Paulo. No site do house organ da Casa Branca que a família Marinho coloca diariamente nas bancas da cidade para consumo da classe média e dos ricos, nada disso.

Para saber que houve comportamento inadequado (para dizer o mínimo) da polícia até no principal hospital público que atendia os feridos, é preciso ir lá no final das matérias.

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No caro e ineficiente metrô carioca, placas e placas de propaganda dizendo que tudo vai bem: gente sorridente abraçando bola de futebol em cartazes do Ministério do Turismo; gente sorridente em propagandas da Previdência Social; cartazes nas cores nacionais informando sobre a Copa das Confederações (inclusive mandando os torcedores para estações relativamente longe do Maracanã, enquanto há uma em frente ao estádio…)

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Incomodou-me a presença da direita, embora os signos para reconhecê-la às vezes sejam mais complexos que para identificar setores da esquerda.

Em São Paulo, o jornalista Luiz Carlos Azenha relatou ataques a militantes de partidos e organizações de esquerda, incluindo a tomada de bandeiras, posteriormente queimadas. Isto é fascismo.

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Um bom cartaz que vi: “Feliciano, me arruma um atestado? Acordei meio sapata hoje.”

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Ontem saiu a notícia de um pronunciamento do senador Cristovam Buarque (PDT/DF) defendendo o fim dos partidos. Embora eu sempre o tenha considerado um bem-intencionado, não votei nele para presidente em 2006. O tom da campanha, de que tudo se resolve pela educação, não me agradou. Nem a repetição desse bordão no senso comum, que observo com frequência.

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Aldo Rebelo, ministro do Esporte, declarou dias atrás que “não vamos tolerar que este tipo de movimento ameace a realização destes eventos“. Uma pena. Vamos continuar jogando fora em obras inúteis e privatizantes bilhões de reais que fazem falta para a garantia de direitos básicos, inclusive a prática esportiva na escola pública.

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Enquanto muitos presentes nas passeatas de Rio, São Paulo e Belém (e provavelmente de outras cidades; tenho certezas sobre essas três) reivindicavam o fim dos partidos, fiquei orgulhoso de ver o candidato a vereador em quem votei no meio da passeata. Imagino que o que aconteceu comigo tenha sido algo raro entre os milhares de presentes – isto, claro, no caso de quem lembra/sabe em que candidato e partido votou menos de um ano atrás.

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Impressionante como a mídia corporativa – rádios Tupi e Globo e O Globo, por exemplo – apresenta as manifestações como sendo “contra a corrupção” e, às vezes, “contra o governo Dilma Rousseff”. Quinta, durante parte da noite, as falas dos radialistas da Globo rufavam os tambores do golpe.

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Para entender o papel da mídia nisso tudo, como sempre, é útil recorrer ao professor Venício A. de Lima:

Desnecessário lembrar que a grande mídia ainda exerce, na prática, o controle do acesso ao debate público, vale dizer, das vozes que se expressam e são ouvidas. Além disso, a cultura política que vem sendo construída e consolidada no Brasil, pelo menos desde que a televisão se transformou em “mídia de massa” hegemônica, tem sido de desqualificação permanente da política e dos políticos. E é no contexto dessa cultura política que as novas gerações estão sendo formadas – mesmo não se utilizando diretamente da velha mídia.

Que o jornalismo das corporações de mídia não tem afeição à democracia representativa eu já sabia, ao menos desde a minha dissertação de mestrado, após haver analisado a cobertura do Plano Cruzado (1986) nas revistas Istoé e Veja. Cito um trecho longo:

“Agindo como bastiões da reforma, as revistas se colocavam numa posição de dizer o que era certo e errado em relação a tudo e a todos – até mesmo ao próprio governo, que, não custa lembrar, era quem efetivamente havia planejado, executado, e a quem cabia gerir, da forma que lhe conviesse, o Plano.  A propósito, dentro das normas institucionais, caberia ao Executivo reportar-se aos demais poderes constitucionais, Legislativo e Judiciário, com relação às medidas.  Não por acaso, ambos os poderes praticamente inexistem na cobertura do Plano.[1]  O Judiciário não é citado em uma matéria relevante sequer.  O Legislativo normalmente não aparece como poder da República.  No máximo, há referências isoladas à sua ineficiência – ou seja, quando está presente, é motivo de zombaria.  Mais grave, essa zombaria é extensa quando o assunto é a política, sobretudo os partidos.

Planejado, aprovado e, enfim, posto em prática a anos-luz de distância dos partidos, o pacotão, ao ser consagrado pelo povo, fez submergir ainda mais o interesse da opinião pública pelo que dizem ou fazem os profissionais da política.  Houve uma fulminante troca de personagens no primeiro plano da vida nacional – e os novos campeões de popularidade deixaram de ser as estrelas tradicionais do universo partidário, substituídas, notadamente, por um engenheiro e empresário, titular do sempre antipático Ministério da Fazenda, Dilson Funaro, e por uma professora de economia até então desconhecida do grosso da população, Maria da Conceição Tavares.  E, se a luz de José Sarney passou a brilhar muito mais forte, ela incidiu sobre o presidente da República que tivera a coragem de ousar, e não sobre o político que começou no PSD, passou pela UDN, Arena e PDS e hoje é presidente de honra do PMDB.[2]

Passagens assim são fáceis de encontrar na cobertura do Plano, sobretudo no momento inicial, e em Veja.[3] Essa postura de arrogância permitiu a Veja, em editorial já citado, chegar ao ponto de afirmar que “partidos vão para o lixo”[4].

Considero, no mínimo, problemático que uma das formas pelas quais o jornalismo se afirma como autoridade na cobertura seja através da deslegitimação da política e da divisão republicana de poder, simultaneamente agindo à sombra do Executivo e contribuindo para agigantá-la ainda mais.  Embora, como já ressaltei, as próprias revistas com freqüência afirmassem que o país respirava ares democráticos, a concepção de democracia que tinham (ver capítulo 6) não continha espaço para críticas, e baseava-se na relação direta entre o Executivo, sobretudo a figura de José Sarney, e o povo.  Se, por um lado, é verdade que as revistas estimulavam o contato sem intermediários – por exemplo, quando informavam que as reclamações poderiam ser dirigidas a Sarney e Funaro e informavam o horário de expediente e telefone de seus respectivos gabinetes –, também é o caso de se pensar até que ponto interessa ao jornalismo uma forma de exercício da política em que o único e restrito espaço de debates e canal de circulação de informação seja a própria mídia, excluindo-se, por exemplo, as casas legislativas, espaços de discussão por excelência (ao menos teoricamente).”


[1] A idéia de que o jornalismo brasileiro reivindica para si o papel de “poder moderador”, acima dos poderes republicanos, é desenvolvida por Albuquerque (2000; 2003) e foi vista no capítulo 3.  O ponto de vista segundo o qual a comunicação contemporânea no Brasil ocupa o papel dos lugares políticos aparece em Lima (2001:196).

[2] “Choque heterodoxo”, Istoé 483, 26/3/1986, p. 19.

[3] Outro momento de desvalorização dos partidos se deu após as eleições, quando a revista culpou exclusivamente o PMDB pelo Cruzado II, afirmando que o partido havia “passado a perna no eleitor”. Ver capítulo 5 e Veja 951, 26/11/1986.

[4] Trata-se de mais uma – curiosa, neste caso – confluência entre o discurso das revistas semanais e o do presidente.  Segundo Pinto (1989:11), nos discursos de Sarney sobre o Plano Cruzado durante o mês de março, “em nenhuma oportunidade foram nomeados os partidos que apoiavam a Nova República”.”

*  *  *

Com um jornalismo desses, não espanta que muitos que estão começando a se interessar por política culpem os partidos pelos problemas do país. Pior: culpem a existência de partidos, independentemente de quais sejam e como atuem. Pior: que agridam a militância partidária que costuma estar presente nas manifestações reivindicando direitos. Pior: acusem os militantes de “oportunistas”.

Claro que há diferenças em relação aos dias atuais, como a eleição de Joaquim Barbosa como super-homem. Não por acaso, o Supremo Tribunal Federal é um órgão onde o povo não escolhe quem toma posse.

*  *  *

Recomendo:

Com partido! Não dá para eleger presidente por enquete do Facebook“, de Lino Bocchini

Brasil en área de penal: protestas en clave de fútbol“, de David Quitián

Programa Faixa Livre de hoje

Não há ameaça de golpe!“, de Gilberto Maringoni

Sai a patente, entra o genérico“, de Marco Piva

As manifestações de junho e a mídia“, de Venício A. de Lima

SP, 20 de junho de 2013: o ‘inimigo’ quebra o espelho“, de Pedro Alexandre Sanches

[Adendo em 24/6: aqui há mais leituras sobre o tema, incluindo o que afirmei acima sobre a violência policial nas ruas do Rio de Janeiro]

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3 Respostas to “Notas sobre o protesto de quinta-feira, 20 de junho de 2013, no Rio de Janeiro”

  1. Rick Santos Says:

    Seria uma tentativa do governador do Estado do Rio de instaurar uma política de medo nas manifestações? Já que tinha um número grande de manifestantes da classe média e que inclusive tentavam vetar a participação de “Vândalos”. Seria esse seu primeiro objetivo para reduzir o número de protestantes e voltar a deslegitimar qualquer movimentação ? Vi uma mensagem circulando dizendo que Sergio Cabral tinha relatado em público que tinha criminosos a solta nos protesto, não tenho a fonte e nem sei se é real.
    Mas o que acha?

    Abraços

    Rick Santos

  2. Rafael Fortes Says:

    Rick,

    Tendo a concordar contigo. Não sei até que ponto foi caso pensado, mas que, tendo em vista o tamanho da passeata na quinta, a repressão viria feroz, eu já imaginava.

    Tem muito caroço nesse angu. As críticas da mídia corporativa à ação da polícia desapareceram, como eu digo no texto. Mesmo com tiro na testa de repórter da Globonews.

    Da mesma forma que “atrapalhar o trânsito”, que há anos tem sido o foco principal da cobertura de quase todas as passeatas, simplesmente desapareceu.

    Abraço!

  3. Contribuições indiretas de amigas e amigos (3) | A Lenda Says:

    […] abaixo relato que pingou outro dia na caixa postal sobre os protestos de 20/6, no Centro do Rio de Janeiro. Com autorização da autora, […]

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