Um livro

Fala de um personagem de Incidente em Antares, de Erico Verissimo:

“- Decaída? Por que não diz logo puta? – Leva a mão em concha ao ouvido. – Creio que ouvi murmúrios do respeitável público, chocado pelo nome ‘horrível’ que acabo de pronunciar. Quatro letrinhas. P-u-t-a. O meu colega Dr. Mirabeau gaba-se de conhecer os quarenta sinônimos que o imortal Rui Barbosa descobriu para prostituta, mas parece não se impressionar com a prostituição propriamente dita. Claro! Vossa moral é puramente verbal. O delegado Pigarço estará sempre pronto a prender como subversivo todo aquele que escrever com realismo sobre as misérias da nossa Babilônia e outros antros de indigência, mas essas favelas propriamente ditas não preocupam a burguesia. Aquilo sobre que ninguém fala ou escreve não existe. Se um espelho reflete um ato e um fato que consideramos escandaloso, quebramos o espelho e voltamos as costas para o ato e o fato, dando a questão como resolvida. Neste país quase todos os problemas políticos, econômicos e sociais são solucionados no papel. Meu caro Dr. Mirabeau, queira ou não queira Vossa Excelência, vai falar agora a puta Erotildes. – Volta-se para trás e diz: – Venha até aqui, menina!”

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