Rapidinhas jornalísticas

O Brasil de Fato fez boa entrevista com “Frank La Rue, relator especial para a Promoção e Proteção do Direito à Liberdade de Opinião e Expressão da ONU“. Um trecho:

Em relatório entregue à ONU ano passado, o senhor incluiu tanto comunicadores populares  e comunitários, quanto blogueiros na definição de profissionais de jornalismo, considerando todos como jornalistas. Por que é importante essa compreensão do exercício da profissão de jornalista?

Pela função. Eu insisto que o jornalismo se define pela função e não pelos estudos. Todos exercem a mesma função: dedicam-se a organizar a informação para transmitir essa informação tratada a um setor específico  da população. São jornalistas. É isso que quero dizer. É essa tarefa que estamos protegendo, porque é o direito da sociedade estar informada. É a vocação do jornalismo.

Assino embaixo.

*  *  *

O Roda Viva acima, em que Bruno Torturra e Pablo Capilé são entrevistados, gravado em agosto, chegou na caixa postal semanas atrás, recomendado por um amigo.

O remetente do link avisou: no geral, os jornalistas entrevistadores não conseguem sequer entender as lógicas que orientam o que os entrevistados estão dizendo. Não vi, não entendi e não gostei parece ser a postura dos entrevistadores, que se preocupam menos em entender o que os entrevistados têm a dizer, e mais em distribuir cascas de bananas disfarçados de perguntas.

A insistência no primeiro tema e tom inquisitorial das perguntas (durante a maior parte do tempo) diz algo sobre a incapacidade da maioria dos entrevistadores de conceber modos distintos de trabalhar, de fazer jornalismo, de distribuir informação. Na verdade, me impressionou o pouco interesse em debater ideias. Perguntas como “qual é o modelo de negócio?”, “esse processo revelou alguma banda, algum artista de sucesso?”, “vocês correm o risco de perder o controle do material bruto?” revelam uma preocupação maior em deslegitimar o diferente do que propriamente discutir modos de fazer, modos de financiar, modos de distribuir informação e cultura. O mesmo problema pode ser observado nas charges. Ainda assim, houve respostas brilhantes, como a que começa em 12´20.

Não por acaso, o jornalismo realmente existente na mídia hegemônica está do jeito que está. Aliás, o debate a que me referi acima, no trecho citado da entrevista ao Brasil de Fato, poderia ter sido feito no programa. Mas não foi, como vários outro debates não o foram, apesar das tentativas dos entrevistados. Em alguns momentos, perguntas obtusas geraram respostas inteligentes, que por sua vez produziram perguntas ainda mais obtusas. Por vezes, fica clara a irritação do jornalista-inquisidor com o entrevistado que não escorrega na casca de banana, como na parte em que se exige dos entrevistados declarar preferência política pessoal, como se o voto não fosse secreto no Brasil.

Inclusive, às vezes, os entrevistadores se comportam como se eles mesmos não estivessem num canal de televisão estatal. Será que o jornalismo que podem fazer no Roda Viva é distinto do que praticam em outros veículos? Semelhanças e diferenças se explicam por visão pessoal ou por linha editorial ditada de cima para baixo? Aliás, por que figuras como estes dois entrevistados não estão do outro lado, ou seja, não compõem o time de entrevistadores do programa?

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