Rapidinhas

A Fórum de setembro trouxe e debateu exaustivamente um ótimo tema de capa: política de drogas. A primeira e maior matéria, de Glauco Faria, é digna de antologia. Primeiro, pela discussão em si sobre o assunto, pelas pessoas ouvidas e pela maneira como o tema é conduzido. Segundo, porque tem trechos como esse:

Para Renato Malcher, parte da mídia também contribui para que o tema seja tratado por um viés equivocado. “Às vezes, a imprensa escuta uma pessoa que julga especialista, mas que tem uma atividade política e faz uma interpretação enviesada de uma informação publicada num jornal científico. Quando alguém discorda, acabam confundindo a população porque parece que a ciência é um eterno Fla-Flu. Já neguei entrevistas porque me falaram ‘estou fazendo uma matéria sobre a maconha e escolhemos uma pessoa a favor e outra contra…’ Essa busca pela neutralidade artificial que a imprensa faz parte do pressuposto de que tem sempre que se ouvir os dois lados, a favor e contra. Então, vamos ouvir alguém que é favor e outro que é contra a lei da gravidade, e as pessoas ficam achando que é meramente uma questão de opinião”, questiona. “O que está acontecendo é que muitos estão tendo acesso à informação por veículos paralelos, pela internet, assistindo a vídeos no YouTube, por exemplo, e vendo que, na Califórnia, em lojas organizadas, famílias, mães, velhinhos compram e  usam maconha, com aconselhamento médico. São mundos paralelos, a grande mídia com esse equilíbrio artificial, puxando para o conservadorismo, e as pessoas que buscam informações por meios independentes”, aponta.

Essa observação, válida para o tema em questão, na verdade serve como exemplo para outros temas relevantes da nossa democracia, e para a maneira ignóbil com a qual a mídia corporativa tende a lidar com eles. Faz tempo que não vejo uma crítica tão simples, inteligente e didática ao jornalismo realmente existente nas corporações de mídia brasileira.

Ainda no dossiê, boas matérias sobre problemas como internação compulsória (tal qual executada pelo Estado), sobre os padrões bizarros de desigualdade dos registros policiais (com consequências trágicas para a juventude negra e pobre) e outros temas relativos às drogas e às consequências de sua proibição. São quase 30 páginas esclarecedoras – tudo disponível online.

*  *  *

A edição traz ainda uma ótima entrevista com o intelectual Norman Finkelstein. Para quem não o conhece: escreveu A indústria do Holocausto, um dos livros mais importantes que já li. Na entrevista, ele sintetiza o argumento desta obra:

Revista Fórum – O seu livro “A Indústria do Holocausto” causou grande polêmica. Quais as suas teses centrais?

São duas as ideias mais centrais do livro. Uma primeira no qual eu apresento evidências e ampla documentação demonstrando que boa parte dos judeus vivendo em Nova Iorque e trabalhando como banqueiros no pós Segunda Guerra Mundial extorquiram grande quantidade de dinheiro de bancos suiços. O pretexto daquele grupo de bandidos era o reparo de danos causados às vítimas do Holocausto. Contudo, apenas uma parte ínfima daquelas quantias efetivamente chegava às vítimas. Em outras palavras, provei que nos anos cinquenta uma gangue de malandros e canalhas se enriqueceu usando o sofrimento, o martírio e a morte de milhões de judeus. A segunda ideia do livro parece-me bastante clara para todos nos dias de hoje (o livro foi publicado em 2003). Argumento que o Estado de Israel usa o Holocausto e o antisemitismo sempre que enfrenta internacionalmente algum problema de Relações Públicas. É impossível atacar a política externa israelense ou provar que o Holocausto foi explorado para ganhos pessoais sem que se seja acusado de ser antisemita. Essas foram as controvérsias que o livro causou.

Seu pensamento ajuda a problematizar categorias como “terrorismo”, comumente mobilizadas pela mídia corporativa para legitimar certos interesses:

Revista Fórum – O apoio do Hezzbolah ao governo Sírio tem aumentado nos últimos dias. O grupo é classificado como “terrorista” por alguns Estados europeus, e também pelos Eua e por Israel. O senhor já foi muito criticado por apoiar o Hezzbolah. É diferente agora?

Quanto à classificação do Hezzbolah como grupo terrorista, gostaria de inicialmente dizer o seguinte: Há quatro anos, logo antes da posse do Presidente Obama, Israel massacrou a população civil de Gaza, resultando em mais de 1400 mortes. O mesmo acontecendo dois anos atrás. O pretexto para os ataques foram os mísseis de curto alcance e de produção caseira lançados em direção do sul de Israel pelo Hamas, mísseis que, repito, tem pouquíssimo poder de destruição e que não causaram mortes. O poder usado por Israel para retaliar o lançamento desses mísseis foi extremamente desproporcional. Não houve uma guerra, já que a população palestina não tem como se defender de um dos maiores arsenais do mundo. Houve um massacre. Cuidadosamente planejado para acontecer logo antes da posse do presidente Obama, que não fez outra coisa se não dizer que era um momento de olhar para frente e não para trás. Todos sabem que armamento pesado estava sendo levado dos Eua para Israel durante os ataques a Gaza. Então, voltando a sua pergunta, me responda o seguinte: Por que é que quando o Hezzbolah ataca ou se defende é considerado terrorista, e quando Israel comete suas atrocidades seus atos são considerados legítimos? Há aí uma tamanha hipocrisia. Claro que condeno atos terroristas. Mas se classificamos o Hezzbolah como terrorista, devemos fazer o mesmo com o Estado de Israel. Agora não foi diferente. Os ataques de Israel ao comboio Sírio, que supostamente levava armas do Irã para o Hezzbolah, poderiam ser classificados como um ataque terrorista.

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