Tá feia a coisa

Tendo o mando de campo e o Maracanã disponível, o Flamengo decidiu estrear em Brasília no Brasileiro. Jogou na capital mais próxima possível pro adversário, que precisou se deslocar muito menos que o mandante. A justificativa apresentada pela diretoria foi que era preciso fazer caixa. Como não tenho tempo nem paciência de esgotar o assunto – tarefa que deixo para os comentaristas de ofício –, me limito a fazer perguntas:

1) Do ponto de vista financeiro, valeu a pena? Ou seja, contabilizados custos e receitas, foi bom negócio? Parece-me que não (ver item 4.2). Com esse time ruim (como evidenciado pelo lugar conquistado na fase de grupos da Libertadores), preços altos e no meio do maior feriadão do ano, é surpresa que o estádio Mané Garrincha não estivesse cheio?

2) Do ponto de vista técnico, valeu a pena? Ou seja, considerando aspectos como deslocamento, desgaste físico, desgaste psicológico, média de resultado como mandante no Maracanã e em outros estádios nos últimos anos, valeu? É evidente que os jogadores não querem ficar viajando mais do que o necessário. Quem gostaria de ficar longe da família e de casa em 25 ou 30 rodadas, em vez de 20?

3) Se o time começar a perder, os cinco últimos jogos como mandante serão jogados fora do Rio? Ou à torcida que mora aqui cabe apenas o papel de “salvadora” quando a coisa aperta, mas não a de beneficiária no início neutro de uma competição? Por exemplo, se o time estiver na zona de rebaixamento faltando 10 rodadas pra acabar o campeonato, alguém poderá decidir fazer as partidas restantes fora, tal como as primeiras? Essa decisão se baseará em critérios técnicos ou financeiros?

4) A diretoria disse que o torcedor que quisesse ver jogos precisaria se filiar ao sócio-torcedor. Mas o programa tem muitos problemas. Destaco dois:

4.1) O regulamento prevê muitos deveres para o associado, mas nenhum dever por parte do clube.

4.2) Coerentemente com o item anterior, o clube sequer estabelece uma cota mínima de partidas a disputar no Maracanã, de maneira que o coitado que se associa saiba o tamanho do benefício.

Tanto isto é verdade que só agora, após a primeira rodada, com resultado técnico pífio (0x0 como mandante) e resultado financeiro idem (bilheteria aquém do esperado, fato admitido pela diretoria em entrevistas em 21 e 22/4), a diretoria admitiu que outros jogos nas nove primeiras rodadas do Brasileiro possam ser disputados no Maracanã (além do já programado com o Palmeiras, na terceira rodada).

5) Se a diretoria diz que o sócio-torcedor é a saída para arrecadar, e o principal motivo para se associar (ao menos no meu caso, seria…) é a compra de ingresso para as partidas, decidir jogar bastante fora da cidade é coerente? Não, né? Por que tal contradição não é apontada – e criticada – pelo jornalismo esportivo dos principais veículos de comunicação?

Em outras palavras: se a diretoria é profissional, qual o cálculo de perda de sócios-torcedores do Rio assumido para a decisão de jogar X partidas fora? Por que, caso se tratem de profissionais – como eles dizem ser e a imprensa esportiva amplamente favorável vive tentando me convencer de que são –, não posso imaginar que escapem a este cálculo pragmático. Tipo: “vamos jogar 5 partidas fora nas 12 primeiras rodadas. Perdemos X% de sócios-torcedores, mas ganhamos Y% de renda.”

Caso, como desconfio, este tipo de cálculo inexista, pergunto: até quando o jornalismo continuará elogiando esta diretoria como profissional?

6) Quando o clube começará a divulgar quantos sócios-torcedores há em cada categoria, para que cada sócio-torcedor saiba melhor quais seus direitos e que lugar ocupa na fila para reservar/comprar ingressos?

7) A diretoria acredita que o interesse em pagar caro pra ver o Flamengo independe de desempenho? Ou seja, tendo em vista os critérios técnicos que indiquei acima, não faria mais sentido jogar em casa no início do campeonato, para conquistar pontos, bom lugar na tabela e garantia de estar longe de rebaixamento e escolher jogar em outros estados mais pra frente, a partir da posição na tabela (lugares melhores na classificação significando maior retorno financeiro e menor risco do ponto de vista técnico)?

8) A diretoria disse que fez uma tremenda oferta por Elias, que, mesmo assim, foi pro Corinthians. Portanto, o dinheiro está disponível, né? O que será feito com ele?

9) Já fomos uma filial do Ipatinga (quando o estrategista pão-de-queijo era o técnico), já tivemos tempos em que boa parte do elenco pertencia a um único empresário (Eduardo Uran, entre outros).Quando o Flamengo deixará de ser um combinado de reservas Grêmio-Corinthians? Exemplifico: André Santos, Carlos Eduardo, Elano, Marcelo Moreno, Wallace, Chicão. Esqueci alguém?

10) A diretoria diz que os preços são estabelecidos por parâmetros de mercado. O time em campo, o conforto do estádio, o futebol jogado e as competições disputadas (incluo aí o Estadual) justificam o preço cobrado?

11) Por que, até hoje, a diretoria não assumiu que errou ao escalar André Santos na última rodada do Brasileiro de 2013? Por que, até hoje, diferentes blogues de jornalistas e torcedores se negam a admitir que a direção errou?

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