Sobre cidadania, igualdade e nossos preconceitos

Um dos entraves para o avanço da cidadania no Brasil continua sendo equacionar abrangência e qualidade. Em outras palavras, garantir qualidade no acesso aos serviços quando mais pessoas passam a usá-los.

Exemplos não faltam. Nas últimas décadas, a adesão da classe média ao ensino (fundamental e médio) particular foi acompanhada por uma piora dos serviços prestados no setor pelas próprias escolas privadas. Dinâmica semelhante ocorre com os planos de saúde: quanto mais usuários, piores as condições – quem precisou usar recentemente os serviços privados de emergência pediátrica do Rio de Janeiro sabe do que estou falando. Dinâmica semelhante se observa no ensino superior: à medida que se amplia o acesso (e a privatização), decresce a qualidade da educação privada e pública (sobre o tema, recomendo o livro Um diagnóstico da educação brasileira, de Otaviano Helene).

Lógica parecida ocorre no transporte: a chegada de milhares de novos usuários aos aeroportos ocorre simultaneamente a uma notável piora dos serviços, tanto das empresas de aviação quanto da Infraero. No metrô, o aumento de passageiros dos últimos anos corresponde a condições muito ruins, evidentes nos trens lotados, no longo intervalo entre eles e no ritmo lento da expansão das linhas.

Neste cenário, muitos apontam como problema os usuários novos ou recentes – e não a exploração capitalista de serviços públicos e a decisão política de não investir o suficiente para garantir serviços decentes à população (além da pouca eficiência de diversos setores do Estado…). Esta postura pode ser notada em discursos produzidos pelas corporações de mídia tradicionais (emissoras de rádio e televisão, impressos, sites e portais online), mas também por indivíduos, que os veiculam em plataformas como blogues, Instagram, Twitter e Facebook, além de comentarem notícias em sites das corporações de mídia.

Acho essa discussão muito interessante, por vários motivos. Um deles: embora, em tese, sejamos todos a favor da igualdade, na prática ninguém está livre de ser preconceituoso. Inclusive eu e você.

(Texto publicado no Boletim da ADUNIRIO, n. 8, de 28 de abril de 2014.)

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