Um livro

A biografia de Kelly Slater (Pipe Dreams), do próprio com Jason Borte, é um livro para quem gosta de esporte e, particularmente, de surfe.

Tem trechos interessantes, que permitem repensar a imagem estereotipada e glamourosa que, frequentemente, o senso comum e o jornalismo esportivo associam aos grandes atletas – como é o caso de Slater, um dos maiores vencedores da história do esporte profissional, em todas as modalidades. (O livro foi escrito quando ele havia vencido “apenas” seis títulos mundiais. Desde então, ganhou outros cinco e, aos 42 anos, está em segundo na luta pelo título de 2014.) Selecionei e reproduzo abaixo dois trechos. Um:

“A pior parte de ser um surfista profissional é nunca ter raízes estabelecidas num único lugar. Quando você finalmente se sente à vontade num local, você parte para a competição seguinte. É preciso estar preparado para vôos que são cancelados e atrasos de todos os tipos. Às vezes, você não consegue tomar banho durante dias, e passa a viver em aviões e aeroportos. É difícil sentir que você pertence a algum lugar, vive uma vida em família normal ou que pode desenvolver um verdadeiro relacionamento. Não posso reclamar de minha vida, mas, em termos de viagens, há muitas coisas que desejaria que fossem melhores. Infelizmente, não ganho dinheiro o suficiente para comprar meu próprio avião.

Passo mais da metade do ano viajando, e a única coisa que torna esse estilo de vida possível é a rede de famílias adotivas que criei ao redor do mundo. O Circuito Mundial de 1994 foi a quarta vez que competi em muitos lugares do circuito, e nesse tempo, tive a felicidade de conhecer e de ser recebido por famílias carinhosas, que me ofereceram uma refeição quente, companheirismo e um teto. Muitos surfistas ficam esgotados nas viagens e sentem falta de seus lares, mas essas famílias me ajudam a me sentir mais à vontade onde quer que esteja.

Boas ondas não nos satisfazem completamente se não tivermos algum tipo de apoio familiar. Desde que comecei a viajar, aos doze anos de idade, fiquei mais interessado em conhecer os moradores locais de cada lugar que visitei do que ficar sentado no quarto de um hotel qualquer, assistindo a Beavis e Butthead entre as sessões. Posso aparecer em qualquer praia do mundo e encontrar alguém que conheço. Quando visito um lugar, em vez de partir logo após um evento, fico na companhia de amigos até ser forçado a ir a outro lugar. Há muito a aprender com outras culturas, e como surfista, tenho a oportunidade única de vivenciar muitos lugares. Para mim, isso é viver.”

Outro, sobre abandonar o circuito profissional, decisão raramente tomada por um atleta que esteja no auge:

“Passar algum tempo longe do circuito me permitiu conhecer melhor a minha família, meus amigos e a mim mesmo. A vida tinha de oferecer mais do que apenas a tentativa de aderir ao critério de como os outros achavam que eu devesse pegar uma onda.

Reconheço como fui extremamente afortunado. Se tivesse abandonado o surfe antes, não teria conseguido me aposentar sem ter de assumir outro emprego. No meu tempo de vida, o surfe evoluiu de um passatempo de hippies a uma indústria próspera e um legítimo plano de carreira.

Quando me afastei das competições em tempo integral, ao final de 1998, em vez de aumentar minha barriga de chope e reduzir meu handicap no golfe, fiquei com um desejo ainda maior de surfar do que tive em anos. Graças à Quicksilver, basicamente tinha passe livre para fazer o que queria. Se as ondas estivessem boas em algum lugar do mundo, e estivesse com vontade de surfar, a companhia me mandava lá. Eu ainda competia em alguns eventos da minha escolha e fazia aparições promocionais, mas estava praticamente liberado. Graças ao apoio da Quicksilver, mantive meu alto padrão de vida sem ter de me preocupar com títulos mundiais.”

Infelizmente a edição brasileira tem muitos dos problemas que apontei semanas atrás em outro livro sobre esporte.

 

Uma resposta to “Um livro”

  1. Apontamentos metodológicos: biografias de atletas como fontes | História(s) do Sport Says:

    […] o esporte, tanto por proporcionar olhares peculiares sobre o âmbito profissional (que podem ser muito diferentes da visão glamourizada veiculada pelos meios de comunicação), quanto porque perdedores e aqueles que se afastam das competições (por variados motivos) […]

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