Jornalismo e livre associação. Livre?

No fim da manhã de 5/11/2014, uma chamada do Globo Online dizia: “Jogador Adriano é denuncido por tráfico de drogas pelo MP” (ver imagem capturada da tela abaixo).

Adriano

Não me interessa o mérito da denúncia – que, segundo se noticiou nos dias subsequentes, a Justiça já mandou arquivar -, mas sim a forma como a notícia foi apresentada.

Em primeiro lugar, pela imensa quantidade de preconceitos e ódio de classe presentes nas falas de muitos jornalistas que cobrem futebol, ao longo dos anos, ao tratarem do comportamento deste e de outros (ex-)jogadores do Flamengo.

Segundo, a escolha da fotografia que ilustra tanto a chamada da página principal quanto a matéria. Pensei logo em uma cobertura lamentável do Jornal do Brasil, finado concorrente do Globo, que acabou rendendo uma série de três textos (I, II e III) aqui no blogue e um artigo publicado na revista E-Compós.

Tanto na página principal quanto na matéria, a legenda da fotografia só aparece quando se passa o mouse por cima da imagem: “Adriano em lançamento de projeto social na favela Vila Cruzeiro”, seguida do nome do autor e da data (22/12/2010). Em tempos de abundância de imagens digitais, o jornal foi buscar uma imagem de quatro anos atrás. Será que, além de Adriano, há algum vínculo entre as pessoas que aparecem nela e o conteúdo da matéria? Se há, o texto e/ou a legenda deveriam informar. Em outras palavras: além do jogador, algum dos identificados no texto aparece na foto?

Posso estar enganado, mas, tendo a responder “não”. Acredito que a escolha desta foto tenha mais a ver com os preconceitos que abundam na prática profissional das principais redações, e menos com o caráter efetivamente jornalístico dela – a pertinência de seu conteúdo em relação ao do texto.

O que temos, então? Segundo a legenda, um lançamento de projeto social na mesma Vila Cruzeiro à qual a matéria se refere. Como em quase todas as vezes em que noticia que este ou outro atleta esteve em uma favela, o jornalismo das corporações de mídia coloca o tráfico de drogas no meio (ver os links acima). Desta vez, uma imagem de um lançamento de um projeto social – acreditando-se que a legenda está correta – é usada para ilustrar uma acusação de envolvimento com tráfico de drogas.

Volto às perguntas de três parágrafos atrás: será que, além de Adriano, há algum vínculo entre as pessoas que aparecem nela e o conteúdo da matéria? Como eu dizia, tendo a arriscar um “não”, com pouco medo de errar. Daí decorre outra pergunta: então, por que se escolheu essa foto? A resposta cabal, total, só seria possível pela observação das rotinas produtivas, acompanhada de entrevistas com os profissionais (e estagiários… geralmente muitos estagiários) que as realizam.

Adriano está sem camisa, com tatuagens à mostra. A legenda nos informa que está na “favela Vila Cruzeiro”. Todos à sua volta – incluindo o jogador – são negros ou pardos. Estivesse ele cercado de brancos em uma foto de 2010 ou qualquer outro ano, seria ela escolhida para ilustrar a matéria?

Por fim, creio que o caso não é idêntico ao ocorrido com o Jornal do Brasil. Mas, dependendo da resposta às perguntas acima, revela o mesmo ponto de vista e – pior – de lógica profissional. Mostra um olhar extremamente treinado e acostumado a enxergar a realidade a partir de certos parâmetros. As vítimas preferenciais são as mesmas de sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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